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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

O Devanear do Céptico

Por Bernardo Guimarães (1853)

Triste apanágio da fraqueza humana,

Em vez de luz, amontoando sombras

No santuário augusto da verdade.

Uma palavra só talvez bastara

P’ra saciar de luz meu pensamento;

Essa ninguém a sabe sobre a terra!...

Só tu, meu Deus, só tu dissipar podes

A, que os olhos me cerca, escura treva!

Ó tu, que és pai de amor e de piedade,

Que não negas o orvalho à flor do campo,

Nem o tênue sustento ao vil inseto,

Que de infinda bondade almos tesouros

Com profusão derramas pela terra,

Ó meu Deus, por que negas à minha alma

A luz que é seu alento, e seu conforto?

Por que exilaste a tua criatura

Longe do sólio teu, cá neste vale

De eterna escuridão? — Acaso o homem,

Que é pura emanação da essência tua,

E que se diz criado à tua imagem,

De adorar-te em ti mesmo não é digno,

De contemplar, gozar tua presença,

De tua glória no esplendor perene?

Oh! meu Deus, por que cinges o teu trono

Da impenetrável sombra do mistério?

Quando da esfera os eixos abalando

Passa no céu entre abrasadas nuvens

Da tempestade o carro fragoroso,

Senhor, é tua cólera tremenda

Que brada no trovão, e chove em raios?

E o íris, essa faixa cambiante,

Que cinge o manto azul do firmamento,

Como um laço que prende aos céus a terra,

É de tua clemência anúncio meigo?

É tua imensa glória que resplende

No disco flamejante, que derrama

Luz e calor por toda a natureza?

Dize, ó Senhor, por que a mão ocultas,

Que a flux esparge tantas maravilhas?

Dize, ó Senhor, que para mim são mudas

As páginas do livro do universo!...

Mas, ai! que o invoco em vão! ele se esconde

Nos abismos de sua eternidade.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Um eco só da profundez do vácuo

Pavoroso retumba, e diz — duvida!...i

Virá a morte com as mãos geladas

Quebrar um dia esse terrível selo,

Que a meus olhos esconde tanto arcano?

......................................................................

Ó campa! — atra barreira inexorável

Entre a vida e a morte levantada!

Ó campa, que mistérios insondáveis

Em teu escuro seio muda encerras?

És tu acaso o pórtico do Elísio,

Que nos franqueias as regiões sublimes

Onde a luz da verdade eterna brilha?

Ou és do nada a fauce tenebrosa,

Onde a morte p’ra sempre nos arroja

Em um sono sem fim adormecidos!

Oh! quem pudera levantar afouto

Um canto ao menos desse véu tremendo

Que encobre a eternidade...

Mas debalde

Interrogo o sepulcro, — e debruçado

Sobre a voragem tétrica e profunda,

Onde as extintas gerações baqueiam,

Inclino o ouvido, a ver se um eco ao menos

Das margens do infinito me responde!

Mas o silêncio que nas campas reina,

É como o nada, — fúnebre e profundo. . .

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Se ao menos eu soubesse que co’a vida

Terminariam tantas incertezas,

Embora os olhos meus além da campa,

Em vez de abrir-se para a luz perene,

Fossem na eterna escuridão do nada

Para sempre apagar-se... — mas quem sabe?

Quem sabe se depois desta existência

Renascerei — p’ra duvidar ainda?!...

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