Por Bernardo Guimarães (1858)
Do dia, que entre sombras se esvaece?
O viandante para ouvir-lhe os quebros
Pára, e se assenta à margem do caminho;
Encostado aos umbrais do pobre alvergue,
Cisma o colono aos sons do etéreo canto
Já das rudes fadigas deslembrado;
E sob as asas úmidas da noite
Aos meigos sons em êxtase suave
Adormece embalada a natureza.
Quem te inspira o doce acento,
Sabiá melodioso?
Que mágoas triste lamentas
Nesse canto suspiroso?
Quem te ensinou a canção,
Que cantas ao pôr do dia?
Quem revelou-te os segredos
De tão mágica harmonia?
Acaso a ausência tu choras
Do sol, que além se sumira;
E teu canto ao dia extinto
Mavioso adeus suspira?
Ou nessas notas sentidas,
Exalando o terno ardor,
Tu contas à meiga tarde
Segredos do teu amor?
Canta, que o teu doce canto
Nestas horas tão serenas,
Nos seios d'alma adormece
O pungir de acerbas penas.
Cisma o vate ao brando acento
De tua voz harmoniosa,
Cisma, e deslembra tristuras
De sua vida afanosa.
E ora n'alma se lhe acorda
Do passado uma visão,
Que em perfumes de saudade
Vem banhar-lhe o coração;
Ora um sonho lhe vislumbra
Pelas trevas do porvir,
E uma estrela d'esperança
Em seu céu lhe vem sorrir:
E por mundos encantados
Lhe desliza o pensamento.
Qual nuvem que o vento embala
Pelo azul do firmamento.
Canta, avezinha amorosa,
Em teu asilo soidoso;
Saúda as horas sombrias
Do silêncio e do repouso;
Adormenta a natureza
Aos sons de tua canção;
Canta, até que o dia morra
De todo na escuridão.
Assim o bardo inspirado,
Quando a eterna noite escura
Lhe anuncia a fatal hora
De baixar à sepultura,
Um adeus supremo à vida
Sobre as cordas modulando,
Em seu leito sempiterno
Vai adormecer cantando.
Colmou-te o céu de seus dons,
Sabiá melodioso;
Tua vida afortunada
Desliza em perene gozo.
No tope do tronco excelso
Deu-te um trono de verdura;
Deu-te a voz melodiosa
Com que encantas a natura;
Deu-te os ecos da valada
Pra repetir-te a canção;
Deu-te amor no doce ninho,
Deu-te os céus da solidão.
Corre-te a vida serena
Como um sonho afortunado;
Oh! que é doce o teu viver!
Cantar e amar eis teu fado!
Cantar e amar! — quem dera ao triste bardo
Assim viver um dia;
Também nos céus os anjos de Deus vivem
De amor e de harmonia:
Quem me dera qual tu, cantor dos bosques,
Na paz da solidão,
Sobre as ondas do tempo ir resvalando
Aos sons de uma canção,
E exalando da vida o sopro extremo
Num cântico de amor,
Sobre um raio da tarde enviar um dia
Minh'alma ao Criador!...
Hino do prazer
Et ces voix qui passaient, disaient joyeu—sement:
Bonheur! gaîté! délices!
A nous les coupes d'or, remplies d'un vin charmant,
A d' autres les calices!...
(V. Hugo)
I
As orgias celebremos:
Evoé! — Peian! — cantemos.
(C. Semedo)
Convivas do prazer, vinde comigo
Ao folgar dos festins; — encham-se as taças,
Afine-se o alaúde.
Salve, ruidosos hinos desenvoltos!
Salve, tinir dos copos!
Festas de amor, alegres algazarras
De ebritroante bródio!
Salve! co'a taça em punho eu vos saúdo!
Beber, cantar e amar eis, meus amigos,
Das breves horas o mais doce emprego;
O mais tudo é quimera... o ardente néctar
No brilhante cristal férvido espume,
E verta n'alma encantador delírio
Que a importuna tristeza longe espanca,
E alenta o coração para os prazeres.
Pra levar sem gemer à fatal meta
Da vida o peso, vinde em nosso auxílio,
Amor, poesia e vinho.
Ferva o delírio ao retinir dos copos,
E entre ondas de vinho e de perfumes,
Se evapore em festivos ditirambos.
É doce assim viver! — ir desfolhando,
Descuidado e a sorrir, a flor dos anos,
Sem lhe contar as pétalas, que fogem
Nas torrentes do tempo arrebatadas:
É doce assim viver-se a vida é sonho,
Seja um sonho de rosas.
Quero deixar de minha vida as sendas
Juncadas das relíquias do banquete;
Frascos vazios, machucadas flores,
Grinaldas pelo chão, cristais quebrados,
E entre murchos festões roto alaúde,
Que reboando balanceia ao vento,
Lembrando amores que cantei na vida,
Sejam de meu passar por sobre a terra
Os únicos vestígios.
Antes assim, do que passar os dias,
— Qual feroz caímã, guardando o ninho,
Inquieto a vigiar avaros cofres,
Onde a cobiça aferrolhou tesouros
Colhidos entre as lágrimas do órfão
E as ânsias do faminto.
Antes assim, do que sangrentos louros
Ir pleitear nos campos da carnagem,
E ao som de horríveis pragas e gemidos,
Passar deixando após um largo rio
De lágrimas e sangue.
Antes assim... mas quem aqui vos chama,
Importunas idéias? — por que vindes
Mesclar voz agoureira
Das meigas aves aos mimosos quebros?
Vinde vós, do prazer risonhas filhas,
De ebúrneo colo, torneados seios,
Flores viçosas dos jardins da vida,
Vinde, ó formosas, bafejai perfumes
Sobre estas frontes, que em delírios ardem,
Vozes casai da citara aos arpejos,
E ao som de meigos, deleixados cantos,
Ao quebrado languor dos olhos lindos,
Ao mole arfar dos mal ocultos seios,
Fazei brotar nos corações rendidos
Os férvidos anelos, que despontam
Nos vagos sonhos d'alma, bafejados
De fagueira esperança, e são tão doces!...
Talvez mais doces do que os gozos mesmos
Seja harmonia o ar, flores a terra,
Amor os corações, os lábios risos,
Para nós seja o mundo um céu de amores.
II
Je veux rêver, et non pleurer! (Lamartine)
Mas é já tempo de depor as taças:
Que este ardente delírio, que inda agora
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. Inspirações da tarde. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16582 . Acesso em: 24 fev. 2026.