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#Elegias#Literatura Brasileira

Canto da Solidão

Por Bernardo Guimarães (1865)

E unindo a voz aos cânticos da terra,

Aos céus envia sua humilde prece.

E o desditoso, que entre angústias vela

No inquieto leito sôfrego volvendo-se,

Espia ansioso o teu fulgor primeiro,

Que lhe derrama nas feridas d'alma

Celeste refrigério.

A ave canora para ti reserva

De seu cantar as mais suaves notas;

E a flor, que expande o cálix orvalhado

As estremes primícias te consagra

De seu brando perfume...

Vem, casta virgem, vem com teu sorriso,

Teus perfumes, teu hálito amoroso,

Esta cuidosa fronte bafejar-me;

Orvalho e fresquidão piedosa verte

Nos ardentes delírios de minh'alma,

E desvanece estas visões sombrias,

Funestos sonhos da penada noite!

Vem, ó formosa... Mas que é feito dela?..

O sol já mostra na brilhante esfera

O disco ardente - e a linda moça etérea

Que inda há pouco entre flores reclinada

Sorria-se amorosa no horizonte,

Enquanto a saíldava com meus hinos,

- Imagem do prazer, que breve dura, -

Se esvaeceu nos ares......

Adeus, esquiva ninfa,

Fugitiva ilusão, aérea fada!

Adeus também, canções enamoradas,

Adeus, rosas de amor, adeus, sorrisos.....

Invocação

Ó tu, que ora nos tergos da montanha

Nas asas do Aquilão passas rugindo,

E pelos céus entre bulcõe sombrios

Da tempestade o plúmbeo carro guias,

Ora suspiras na mudez das sombras

Manso agitando as invisíveis plumas,

E ora reclinado em nuvem rósea,

Que a brisa embala no ouro do horizonte,

Expandes no éter vagas harmonias,

Voz do deserto, espírito melódico

Que as cordas vibras dessa lira imensa,

Onde ressoam místicos hosanas,

Que inteira a criação a Deus exalça;

Salve, ó anjo! – minha alma te saúda,

Minha alma que, a teu sopro despertada,

Murmura, qual vergel harmonioso

Pelas brisas celestes embalado.....

Salve, ó gênio dos desertos,

Grande voz da solidão,

Salve, ó tu, que aos céus exalças

O hino da criação!

Sobre nuvem de perfumes

Te deslizas sonoroso,

E o rumor de tuas asas

É hino melodioso.

Que celeste querubim

Te deu essa harpa sublime,

Que em variados acentos

As dúlias dos céus exprime?

Harpa imensa de mil cordas

Donde em caudal, pura enchente,

Estão suaves harmonias

Transbordando eternamente?!

De uma corda a prece humilde

Como um perfume se exala

Entoando o sacro hosana,

Que do Eterno ao trono se ala;

Outra como que pranteia

Com voz fúnebre e dorida

O fatal poder da morte

E as amarguras da vida;

Nesta brando amor suspira,

E lamenta-se a saudade;

Nest’outra ruidosa e férrea

Troa a voz da tempestade.

Carpe as mágoas do infortúnio

De uma a voz triste e chorosa,

E só geme sob o manto

Da noite silenciosa.

Outra o hino dos prazeres

Entoa lêda e sonora,

E com cânticos festivos

Saúda nos céus a aurora.

Salve, ó gênio dos desertos,

Grande voz da solidão,

Salve, ó tu, que aos céus exalças

O hino da criação!

Sem ti o mundo jazera

Inda em lúgubre tristeza,

E o horror do caos reinara

Sobre toda a natureza;

Pela face do universo

Funérea paz se estendera,

E o mundo em mudez perene

Como um túmulo jazera;

Sobre ele então pousaria

Silêncio torvo e sombrio,

Como um sudário cobrindo

Um cadáver quedo e frio.

De que servira essa luz

Que abrilhanta o azul dos céus,

E essas cores tão mimosas

Que tingem da aurora os véus?

Essa risonha verdura,

esses bosques, rios, montes,

Campinas, flores, perfumes,

Sombrias grutas e fontes?

De que servira essa gala,

Que te enfeita, ó natureza,

Se adormecida jazeras

Em estúpida tristeza?

Se não houvesse uma voz,

Que erguesse um hino de amor,

Uma voz que a Deus dissesse

– Eu vos bendigo, ó Senhor!

Do firmamento nos cerúleos páramos

Sobre o dorso das nuvens balouçado,

Os olhos arroubados espraiando

Nos longes vaporosos

Dos bosques, das remotas serranias,

E dos mares na túrbida planície,

Cheio de amor contemplas

De Deus a obra tão formosa e grande,

E em melódico adejo então pairando

À face dos desertos,

De caudal harmonia as fontes abres;

Como na lira que pendente oscila

No ramo do arvoredo,

Roçadas pelas auras do deserto,

As cordas todas sussurrando ecoam,

Assim ao sopro teu, gênio canoro,

De júbilo palpita a natureza,

E as vozes mil desprende

De seus eternos, místicos cantares:

E dos horrendos brados do oceano,

Do rouco ribombar das cachoeiras,

Do rugir das florestas seculares,

Do quérulo murmúrio dos ribeiros,

Do frêmito amoroso da folhagem,

Do canto da ave, do gemer da fonte,

Dos sons, rumores, maviosas queixas,

Que povoam as sombras namoradas,

Um hino teces majestoso, imenso,

Que na amplidão do espaço murmurando

Vai unir-se aos concertos inefáveis

Que na límpida esfera vão guiando

O giro infindo, e místicas coréias

Dos rutilantes orbes;

Flor, que se enlaça na eternal grinalda

Be celeste harmonia, que incessante

Se expande aos pés do Eterno!...

Tu és do mundo

Alma canora,

E a voz sonora,

Da solidão;

Tu harmonizas

O vasto hino

Almo e divino

Da criação;

És o rugido

D'alva cascata

Que se desata

Da serrania;

Que nas quebradas

Espuma e tomba,

E alto ribomba

Na penedia;

És dos tufões

Rouco zunido,

E o bramido

Da tempestade;

Voz da torrente

Que o monte atroa;

Trovão,que ecoa

Na imensidade.

Suspira a noite

Com teus acentos,

Na voz dos ventos

És tu quem gemes;

À luz da lua

Silenciosa,

Na selva umbrosa

Co'a brisa fremes;

E no oriente

Tua voz sonora

Desperta a aurora

No róseo leito;

E toda a terra

Amor respira:

– De tua lira

(continua...)

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