Por Machado de Assis (1868)
Marques, logo no fim de dois meses, conseguiu fazer-se objeto de um amor grande e sincero. Hortênsia queria doidamente ao rapaz. Pede a fidelidade histórica que se mencione uma circunstância, e vem a ser que Marques já era amado antes que amasse. Uma noite reparou ele que era objeto da preferência de Hortênsia, e desta circunstância, que lhe lisonjeou o amor-próprio, começou-lhe o amor.
Marques era, então, e continuou a ser, amigo de Meneses, com quem não tinha segredos, um pouco por confiança, um pouco por estouvamento.
Uma noite, pois, ao saírem de casa de Azevedo, Marques disparou estas palavras à cara de Meneses:
— Sabes de uma coisa?
— O que é?
— Estou apaixonado pela Hortênsia.
— Ah!
— É verdade.
— E ela?
— Igualmente; morre por mim. Sabes que eu conheço as mulheres, e não me engano. Que dizes?
— Que hei de dizer? Digo que fazes bem.
— Tenho até idéias sérias; quero casar-me.
— Já!
— Pois então! Eu sou homem de resoluções rápidas; nada de esfriar. Somente, não quero dar um passo destes sem que um amigo, como tu, o aprove.
— Oh! eu, disse Meneses.
— Aprovas, não?
— De certo.
Nisto ficou a conversa entre os dois amigos.
Marques foi para casa na firme intenção de envergar a casaca no outro dia, e ir pedir a moça em casamento.
Mas como no intervalo meteu-se o sono, Marques acordou com a idéia de adiar o pedido até alguns dias depois.
— Por que motivo precipitarei um ato destes? Reflitamos.
E entre esse dia e o dia em que o vimos entrar na casa do Rocio, havia o espaço de um mês.
Dois dias depois, amiga leitora, encontramos os dois amigos em casa de Azevedo. Meneses é de um natural taciturno. Enquanto todos conversam animadamente, ele apenas solta de quando em quando um monossílabo, ou responde com um sorriso a qualquer dito chistoso. A prima das Azevedos chamava-o tolo; Luizinha apenas lhe supunha desmedido orgulho; Hortênsia, mais inteligente que as duas e menos estouvada, dizia que ele era um espírito severo.
Esquecia-nos dizer que Meneses tivera algum tempo o sestro de escrever versos para os jornais, o que lhe arredou a estima de alguns homens sérios.
Na noite em questão, acontecia uma vez achar-se Meneses com Hortênsia à janela, enquanto Marques conversava, com o velho Azevedo, sobre não sei que assunto do dia. Meneses já estava à janela, com as costas para a rua, quando Hortênsia chegou-se a ele.
— Não tem medo do sereno? disse-lhe ela.
— Não tenho, disse Meneses.
— Olhe; sempre o conheci taciturno; mas agora reparo que é mais do que costumava a ser. Algum motivo há. Há quem suponha que a mana Luizinha...
Este simples gracejo de Hortênsia, feito sem a menor intenção oculta, fez com que Meneses franzisse levemente as sobrancelhas. Houve entre os dois um momento de silêncio.
— Será? perguntou Hortênsia.
— Não é, respondeu Meneses. Mas quem é que supõe isso?
— Quem? Imagine que sou eu...
— Mas por que supôs?...
— Por nada... supus. Bem sabe que entre moças, quando um rapaz está calado e triste, é que está apaixonado.
— Sou exceção da regra, e não sou eu só.
— Por quê?
— Porque eu conheço outros que estão apaixonados e andam alegres. Desta vez foi Hortênsia quem franziu as sobrancelhas.
— É que para isto de amores, D. Hortênsia, continuou Meneses, não há regra estabelecida. Depende dos temperamentos, do grau de paixão, e mais que tudo da aceitação ou da recusa de um amor.
— Então, confessa quê?... disse Hortênsia vivamente.
— Eu não confesso nada, respondeu Meneses.
Serviu-se neste momento o chá.
Quando Hortênsia, saindo da janela, atravessava a sala olhou maquinalmente para um espelho que ficava em frente a Meneses, e viu o longo, o profundo, o doloroso olhar que este prendera nela, vendo-a afastar-se.
Insensivelmente olhou para trás.
Meneses mal teve tempo de voltar para o lado da rua.
Mas a verdade estava descoberta.
Hortênsia tinha convicção de duas coisas:
Primeiramente, que Meneses amava.
Depois, que o objeto do amor do rapaz era ela.
Hortênsia tinha um coração excelente. Apenas conheceu que era amada por Meneses, arrependeu-se das palavras que dissera, aparentemente palavras de remoque. Quis reparar o mal redobrando de atenções com o moço; mas de que valiam elas, quando Meneses surpreendia de quando em quando os belos olhos de Hortênsia pousarem um amoroso olhar em Marques, que andava e falava radiante e ruidoso, como um homem que não tem uma só coisa que exprobrar à fortuna?
III
Uma noite Marques anunciou em casa de Azevedo que Meneses estava doente, e por isso não ia lá.
O velho Azevedo e Hortênsia sentiram a doença do moço. Luizinha recebeu a notícia com indiferença.
Indagaram da doença; mas o próprio Marques não sabia o que era.
A doença era uma febre que cedeu no fim de quinze dias à ação da medicina. No fim de vinte dias Meneses apresentou-se em casa de Azevedo, ainda pálido e magro. Hortênsia doeu-se de o ver assim. Compreendeu que aquele amor não correspondido entrava por muito na doença de Meneses. Sem que lhe coubesse culpa por isso, Hortênsia teve remorsos de lho ter inspirado.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Não é mel para a boca do asno. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1868.