Por Machado de Assis (1870)
- É boa! disse José Pires; veio porque é a minha xícara inseparável... Querias falar-me em particular?
- Queria.
- Pois falemos aí em qualquer canto; Vitória fica na sala vendo os álbuns.
- Nada, interrompeu a moça; nesse caso vou-me embora. É melhor; só imponho uma condição: é que ambos hão de ir depois lá para casa; temos ceata.
- Valeu! disse Pires.
Vitória saiu; os dous rapazes ficaram sós.
Pires era o tipo do bisbilhoteiro e leviano. Em lhe cheirando novidade preparava-se para instruir-se de tudo. Lisonjeava-o a confiança de Soares, e adivinhava que o rapaz ia comunicar-lhe alguma cousa importante. Para isso assumiu um ar condigno com a situação. Sentou-se comodamente em uma cadeira de braços; pôs o castão da bengala na boca e começou o ataque com estas palavras:
- Estamos sós; que me queres?
Soares confiou-lhe tudo; leu-lhe a carta do banqueiro; mostrou-lhe em toda a nudez a sua miséria. Disse-lhe que naquela situação não via solução possível, e confessou ingenuamente que a idéia do suicídio o havia alimentado durante longas horas.
- Um suicídio! exclamou Pires; estás doudo.
- Doudo! respondeu Soares; entretanto não vejo outra saída neste beco. Demais, é apenas meio suicídio, porque a pobreza já é meia morte.
- Convenho que a pobreza não é cousa agradável, e até acho...
Pires interrompeu-se; uma idéia súbita atravessara-lhe o espírito: a idéia de que Soares acabasse a conferência por pedir-lhe dinheiro. Pires tinha um preceito na sua vida: era não emprestar dinheiro aos amigos. Não se empresta sangue, dizia ele.
Soares não reparou na frase cortada do amigo, e disse:
- Viver pobre depois de ter sido rico... é impossível.
- Nesse caso que me queres tu? perguntou Pires, a quem pareceu que era bom atacar o touro de frente.
- Um conselho.
- Inútil conselho, pois que já tens uma idéia fixa.
- Talvez. Entretanto confesso que não se deixa a vida com facilidade, e má ou boa, sempre custa morrer. Por outro lado, ostentar a minha miséria diante das pessoas que me viram rico é uma humilhação que eu não aceito. Que farias tu no meu lugar?
- Homem, respondeu Pires, há muitos meios...
- Venha um.
- Primeiro meio. Vai para Nova Iorque e procura uma fortuna. - Não me convém; nesse caso fico no Rio de Janeiro.
- Segundo meio. Arranja um casamento rico.
- É bom de dizer. Onde está esse casamento?
- Procura. Não tens uma prima que gosta de ti?
- Creio que já não gosta; e demais não é rica; tem apenas trinta contos; despesa de um ano.
- É um bom princípio de vida.
- Nada; outro meio.
- Terceiro meio, e o melhor. Vai à casa de teu tio, angaria-lhe a estima, dize que estás arrependido da vida passada, aceita um emprego, enfim vê se te constituis seu herdeiro universal.
Soares não respondeu; a idéia pareceu-lhe boa.
- Aposto que te agrada o terceiro meio? perguntou Pires rindo.
- Não é mau. Aceito; e bem sei que é difícil e demorado; mas eu não tenho muitos à escolha.
- Ainda bem, disse Pires levantando-se. Agora o que se quer é algum juízo. Há de custar-te o sacrifício, mas lembra-te que é o meio único de teres dentro de pouco tempo uma fortuna. Teu tio é um homem achacado de moléstias; qualquer dia bate a bota. Aproveita o tempo. E agora vamos à ceia da Vitória.
- Não vou, disse Soares; quero acostumar-me desde já a viver vida nova.
- Bem; adeus.
- Olha; confiei-te isto a ti só; guarda-me segredo.
- Sou um túmulo, respondeu Pires descendo a escada.
Mas no dia seguinte já os rapazes e raparigas sabiam que Soares ia fazer-se anacoreta... por não ter dinheiro nenhum. O próprio Soares reconheceu isto no rosto dos amigos. Todos pareciam dizer-lhe: É pena! que pândego vamos nós perder!
Pires nunca mais o visitou.
Capítulo II
O tio de Soares chamava-se o Major Luís da Cunha Vilela, e era com efeito um homem já velho e adoentado. Contudo não se podia dizer que morreria cedo. O Major Vilela observava um rigoroso regímen que lhe ia entretendo a vida. Tinha uns bons sessenta anos. Era um velho alegre e severo ao mesmo tempo. Gostava de rir, mas era implacável com os maus costumes. Constitucional por necessidade, era no fundo de sua alma absolutista. Chorava pela sociedade antiga; criticava constantemente a nova. Enfim foi o último homem que abandonou a cabeleira de rabicho.
Vivia o Major Vilela em Catumbi, acompanhado de sua sobrinha Adelaide, e mais uma velha parenta. A sua vida era patriarcal. Importando-se pouco ou nada com o que ia por fora, o major entregava-se todo ao cuidado de sua casa, aonde poucos amigos e algumas famílias da vizinhança o iam ver, e passar as noites com ele. O major conservava sempre a mesma alegria, ainda nas ocasiões em que o reumatismo o prostrava. Os reumáticos dificilmente acreditarão nisto; mas eu posso afirmar que era verdade.
Foi num dia de manhã, felizmente um dia em que o major não sentia o menor achaque, e ria e brincava com as duas parentas, que Soares apareceu em Catumbi à porta do tio.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Luís Soares. In: Contos fluminenses. Rio de Janeiro: Garnier, 1870.