Por Machado de Assis (1886)
Ahasverus. — Saí de Jerusalém. Comecei a peregrinação dos tempos. Ia a toda parte, qualquer que fosse a raça, o culto ou a língua; sóis e neves, povos bárbaros e cultos, ilhas, continentes, onde quer que respirasse um homem aí respirei eu. Nunca mais trabalhei. Trabalho é refúgio, e não tive esse refúgio. Cada manhã achava comigo a moeda do dia... Vede; cá está a última. Ide, que já não sois precisa (atira a moeda ao longe). Não trabalhava, andava apenas, sempre, sempre, sempre, um dia e outro dia, um ano e outro ano, e todos os anos, e todos os séculos. A eterna justiça soube o que fez: somou a eternidade com a ociosidade. As gerações legavam-me umas às outras. As línguas que morriam ficavam com o meu nome embutido na ossada. Com o volver dos tempos, esquecia-se tudo; os heróis dissipavam-se em mitos, na penumbra, ao longe; e a história ia caindo aos pedaços, não lhe ficando mais que duas ou três feições vagas e remotas. E eu via-as de um modo e de outro modo. Falaste em capítulo? Os que se foram, à nascença dos impérios, levaram a impressão da perpetuidade deles; os que expiraram quando eles decaíam, enterraram-se com a esperança da recomposição; mas sabes tu o que é ver as mesmas cousas, sem parar, a mesma alternativa de prosperidade e desolação, desolação e prosperidade, eternas exéquias e eternas aleluias, auroras sobre auroras, ocasos sobre ocasos?
Prometeu. — Mas não padeceste, creio; é alguma cousa não padecer nada.
Ahasverus. — Sim, mas vi padecer os outros homens, e para o fim o espetáculo da alegria dava-me a mesma sensação que os discursos de um doido. Fatalidades do sangue e da carne, conflitos sem fim, tudo vi passar a meus olhos, a ponto que a noite me fez perder o gosto ao dia, e acabo não distinguindo as flores das urzes. Tudo se me confunde na retina enfarada.
Prometeu. — Pessoalmente não te doeu nada; e eu que padeci por tempos inúmeros o efeito da cólera divina?
Ahasverus. — Tu?
Prometeu. — Prometeu é o meu nome.
Ahasverus. — Tu Prometeu?
Prometeu. — E qual foi o meu crime? Fiz de lodo e água os primeiros homens, e depois, compadecido, roubei para eles o fogo do céu. Tal foi o meu crime. Júpiter, que então regia o Olimpo, condenou-me ao mais cruel suplício. Anda, sobe comigo a este rochedo.
Ahasverus. — Contas-me uma fábula. Conheço esse sonho helênico.
Prometeu. — Velho incrédulo! Anda ver as próprias correntes que me agrilhoaram; foi uma pena excessiva para nenhuma culpa; mas a divindade orgulhosa e terrível... Chegamos, olha, aqui estão elas...
Ahasverus. — O tempo que tudo rói não as quis então?
Prometeu. — Eram de mão divina; fabricou-as Vulcano. Dois emissários do céu vieram atar-me ao rochedo, e uma águia, como aquela que lá corta o horizonte, comia-me o fígado, sem consumi-lo nunca. Durou isto tempos que não contei. Não, não podes imaginar este suplício...
Ahasverus. — Não me iludes? Tu Prometeu? Não foi então um sonho da imaginação antiga?
Prometeu. — Olha bem para mim, palpa estas mãos. Vê se existo.
Ahasverus. — Moisés mentiu-me. Tu Prometeu, criador dos primeiros homens?
Prometeu. — Foi o meu crime.
Ahasverus. — Sim, foi o teu crime, artífice do inferno; foi o teu crime inexplicável. Aqui devias ter ficado por todos os tempos, agrilhoado e devorado, tu, origem dos males que me afligiram. Careci de piedade, é certo; mas tu, que me trouxeste à existência, divindade perversa, foste a causa original de tudo.
Prometeu. — A morte próxima obscurece-te a razão.
Ahasverus. — Sim, és tu mesmo, tens a fronte olímpica, forte e belo titã: és tu mesmo... São estas as cadeias? Não vejo o sinal das tuas lágrimas.
Prometeu. — Chorei-as pela tua raça.
Ahasverus. — Ela chorou muito mais por tua culpa.
Prometeu. — Ouve, último homem, último ingrato!
Ahasverus. — Para que quero eu palavras tuas? Quero os teus gemidos, divindade perversa. Aqui estão as cadeias. Vê como as levanto nas mãos; ouve o tinir dos ferros... Quem te desagrilhoou outrora?
Prometeu. — Hércules.
Ahasverus. — Hércules... Vê se ele te presta igual serviço, agora que vais ser novamente agrilhoado.
Prometeu. — Deliras.
Ahasverus. — O céu deu-te o primeiro castigo; agora a terra vai dar-te o segundo e derradeiro. Nem Hércules poderá mais romper estes ferros. Olha como os agito no ar, à maneira de plumas; é que eu represento a força dos desesperos milenários. Toda a humanidade está em mim. Antes de cair no abismo, escreverei nesta pedra o epitáfio de um mundo. Chamarei a águia, e ela virá; dir-lhe-ei que o derradeiro homem, ao partir da vida, deixa-lhe um regalo de deuses.
Prometeu. — Pobre ignorante, que rejeitas um trono! Não, não podes mesmo rejeitá-lo.
Ahasverus. — És tu agora que deliras. Eia, prostra-te, deixa-me ligar-te os braços. Assim, bem, não resistirás mais; arqueja para aí. Agora as pernas...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Viver. A Estação, Rio de Janeiro, n. 11, 15 jun. 1886, p. 82-84.