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#Comédias#Literatura Brasileira

Quase ministro

Por Machado de Assis (1862)

Em política ser lógico é ser profeta. Apliquem-se certos princípios a certos fatos, a conseqüência é sempre a mesma. Mas é mister que haja os fatos e os princípios...

SILVEIRA

V. S. aplicou-os?...

PACHECO

Apliquei, sim, senhor, e adivinhei. Leia o meu V artigo, e verá com que certeza matemática pintei a situação atual. Ah! ia-me esquecendo (a Martins), receba V. Exa. os meus sinceros parabéns.

MARTINS

Por quê?

PACHECO

Não foi chamado para o ministério?

MARTINS

Não estou decidido.

PACHECO

Na cidade não se fala em outra coisa. É uma alegria geral. Mas, por que não está decidido? Não quer aceitar?

MARTINS

Não sei ainda.

PACHECO

Aceite, aceite! É digno; e digo mais, na atual situação, o seu concurso pode servir de muito.

MARTINS

Obrigado.

PACHECO

É o que lhe digo. Depois dos meus artigos, principalmente o V, não é lícito a ninguém recusar uma pasta, só se absolutamente não quiser servir o país. Mas nos meus artigos está tudo, é uma espécie de compêndio. Demais, a situação é nossa; nossa, repito, porque eu sou do partido de V. Exa.

MARTINS

É muita honra.

PACHECO

Uma vez que se compenetre da situação, está tudo feito. Ora diga-me, que política pretende seguir?

MARTINS

A do nosso partido.

PACHECO

É muito vago isso. O que eu pergunto é se pretende governar com energia ou com moderação. Tudo depende do modo. A situação exige um, mas o outro também pode servir...

MARTINS

Ah!

SILVEIRA

(à parte)

Que maçante!

PACHECO

Sim, a energia é... é isso, a moderação, entretanto... (mudando o tom) Ora, sinto deveras que não tivesse lido os meus artigos, lá vem tudo isso.

MARTINS

Vou lê-los... Creio que já os li, mas lerei segunda vez. Estas coisas devem ser lidas muitas vezes.

PACHECO

Não tem dúvida, como os catecismos. Tenho escrito outros muitos; há doze anos que não faço outra coisa; presto religiosa atenção aos negócios do estado, e emprego-me em prever as situações. O que nunca me aconteceu foi atacar ninguém; não vejo as pessoas, vejo sempre as idéias. Sou capaz de impugnar hoje os atos de um ministro e ir amanhã almoçar com ele.

SILVEIRA

Vê-se logo.

PACHECO

Está claro!

MARTINS

(baixo a Silveira)

Será tolo ou velhaco?

SILVEIRA

(baixo)

Uma e outra coisa. (alto) Ora, não me dirá, com tais disposições, por que não segue a carreira política? Por que não se propõe a uma cadeira no parlamento?

PACHECO

Tenho meu amor próprio, espero que ma ofereçam.

SILVEIRA

Talvez receiem ofendê-lo.

PACHECO

Ofender-me?

SILVEIRA

Sim. a sua modéstia…

PACHECO

Ah! modesto sou; mas não ficarei zangado.

SILVEIRA

Se lhe oferecerem uma cadeira... está bom. Eu também não; nem ninguém. Mas eu acho que se devia propor; fazer um manifesto, juntar os seus artigos, sem faltar o V...

PACHECO

Esse principalmente. Cito aí boa soma de autores. Eu, de ordinário, cito muitos autores.

SILVEIRA

Pois é isso, escreva o manifesto e apresente-se.

PACHECO

Tenho medo da derrota.

SILVEIRA

Ora, com as suas habilitações...

PACHECO

É verdade, mas o mérito é quase sempre desconhecido, e enquanto eu vegeto nos - a pedidos dos jornais, vejo muita gente chegar à cumieira da fama. (a Martins) Ora diga-me, o que pensará V. Exa. quando eu lhe disser que redigi um folheto e que vou imprimi-lo?

MARTINS

Pensarei que...

PACHECO

(metendo a mão no bolso)

Aqui lho trago. (tira um rolo de papel) Tem muito que fazer?

MARTINS

Alguma coisa.

SILVEIRA

Muito, muito.

PACHECO

Então não pode ouvir o meu folheto?

MARTINS

Se me dispensasse agora...

PACHECO

Pois sim, em outra ocasião. Mas em resumo é isso; trato dos meios de obter uma renda três vezes maior do que a que temos sem lançar mão de empréstimos, e mais ainda, diminuindo os impostos.

SILVEIRA

Oh!

PACHECO

(guardando o rolo)

Custou-me muitos dias de trabalho, mas espero fazer barulho.

SILVEIRA

(à parte)

Ora espera... (alto) Mas então, primo...

PACHECO

Ah! é primo de V. Exa.?

SILVEIRA

Sim, senhor.

PACHECO

Logo vi, há traços de família; vê-se que é um moço inteligente. A inteligência é o principal traço da família de V. Exas. Mas dizia...

SILVEIRA

Dizia ao primo que vou decididamente comprar uns cavalos do Cabo magníficos. Não sei se os viu já. Estão na cocheira do major...

PACHECO

Não vi, não senhor.

SILVEIRA

Pois, senhor, são magníficos! É a melhor estampa que tenho visto, todos do mais puro castanho, elegantes, delgados, vivos. O major encomendou trinta; chegaram seis; fico com todos. Vamos nós vê-los?

PACHECO

(aborrecido)

Eu não entendo de cavalos. (levanta-se) Hão de dar-me licença. (a Martins) V. Exa. janta às cinco?

MARTINS

Sim, senhor, quando quiser...

PACHECO

Ah! hoje mesmo, hoje mesmo. Quero saber se aceitará ou não. Mas se quer um conselho de amigo, aceite, aceite. A situação está talhada para um homem como V. Exa. Não a deixe passar. Recomendações a toda a sua família. Meus senhores. (da porta) Se quer, trago-lhe uma coleção dos meus artigos?

MARTINS

Obrigado, cá os tenho.

PACHECO

Bem, sem mais cerimônia.

Cena III

MARTINS, SILVEIRA

MARTINS

Que me dizes a isto?

SILVEIRA

É um parasita, está claro.

MARTINS

E virá jantar?

SILVEIRA

Com toda a certeza.

MARTINS

Ora esta!

SILVEIRA

(continua...)

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