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#Contos#Literatura Brasileira

Tentação

Por Adolfo Caminha (1896)

— Que arrependimento! Arrependido estou eu de já não ter metido ombros a uma viagem. A província não bota ninguém pra diante. Vamos à Corte, vamos melhorar. Por que não hei de ser feliz, eu, que trabalho como trabalho, por quê? Faça de conta que comprei um bilhete. A vida é simplesmente uma loteria: questão de felicidade.

Evaristo tomou um gole d'água, para rebater a sobremesa e ergueu-se, palitando os dentes.

— Então, sempre queres ir à cidade? - perguntou Adelaide sem se mover.

— Imediatamente. Vou telegrafar ao Luís e espalhar a grande notícia!

— Mas não te demores, Evaristo; olha que fico só neste subterrâneo... — Nada, não me demoro nada: é um pulo.

E o futuro empregado do Banco Industrial do Rio de Janeiro, depois de acender um cigarro, largou-se, numa precipitação de médico que vai a chamado urgentíssimo.

— 'Té logo, 'té logo!

Que pressa de homem! — sorriu Adelaide, ouvindo bater a porta da rua. Que desespero!

— Nhõ Varisto nem quis jantar! - acrescentou a cozinheira se aproximando.

— Tira a mesa, Balbina. Sabes que vamos para o Rio de Janeiro? — Rio Janeiro, nhá Delaida! Onde é isso?

Uma terra muito boa, muito bonita, onde mora o Imperador...

— Ah!... Rio Janeiro...

E a preta velha ficou a olhar o teto, a olhar, com a mão no queixo, muito admirada.

— Rio Janeiro... E a velha Balbina agora tem de procurar casa? — Não sei; o Evaristo é que há de dizer...

As duas mulheres, a velha e a moça, trocaram um olhar vago, um olhar quase sem expressão, mas onde havia uma sombra de tristeza. Balbina compreendeu, àquela simples notícia, que ia ficar abandonada no seu rancho de negra velha, sem ganhar dinheiro, sem emprego, sem ocupação — ela, que estimava tanto "nhô Varisto" e "nhá Delaida", e que estava tão bem naquela casa! Adelaide, por sua vez, compreendia a tristeza de Balbina — pobre criatura quase octogenária, que eles ainda conservavam por amizade, por gratidão. Balbina fora escrava do pai de Evaristo, falecido há anos. Adelaide compreendia e ficava-se também a pensar no destino da velha, com uma ponta de saudade, quase com remorso de a deixar. Porque Evaristo absolutamente não podia levar Balbina — uma mulher idosa, coitada, muito boazinha, mas muito velha, sem forças mesmo para resistir.

Entretanto, a meiga senhora não quis precipitar as coisas. Mais vale uma esperança tarde que um desengano cedo. Deu a notícia por lealdade e calou-se.

À noite voltou o marido, cerca de nove horas, com um embrulho debaixo do braço, o colarinho imprestável de suor, às carreiras.

— Cá estou! — disse entrando. — Agora é arrumar os baús e tocar! Amanhã os jornais dão a minha ida, isto é, amanhã estoura a bomba!

Evaristo chamava "estourar a bomba" ao efeito que a notícia havia de produzir entre os seus inimigos, que não eram poucos.

— Que embrulho trazes aí? — perguntou Adelaide, curiosa. — Um paletó de alpaca para a viagem.

Adelaide cruzou as mãos, meneando a cabeça.

— Oh, homem vexado! Nem que fosses embarcar amanhã...

— Não há tempo a perder, não há tempo a perder. Faça-se logo o que se tem de fazer!

— Quando há vapor?

— Domingo: o Maranhão. Hoje é terça, não é? Quarta, quinta, sexta e sábado, apenas quatro dias para os preparos de viagem. Nada!

— E a Balbina? — inquiriu Adelaide.

— A Balbina fica... não há remédio. Que vai ela fazer ao Rio? Nada de criados, por enquanto; as despesas são muitas e eu não posso arcar...

O coração de Adelaide comoveu-se ante aquele decreto formal de Evaristo. — Pobre da negra: tão boazinha...

— Que queres? É a vida. Ela que procure outra casa. Está livre, está senhora de si.

E foram-se recolher, à hora acostumada, sempre falando na viagem, no embarque, nas despedidas — Evaristo arquitetando planos, construindo castelos, lembrando uma coisa, outra...

Daí a quatro dias, com efeito, embarcava o futuro representante do Banco

Industrial. Foi um acontecimento, em Coqueiros, a ida de "dona Adelaide" para a Corte, um verdadeiro acontecimento, por que todos a estimavam, todos queriam bem a ela, mesmo os estranhos, que só a conheciam de vista.

Balbina chorou a noite inteira, sem deixar o cachimbo, que lhe pendia dos beiços trêmulos, fungando e resmoneando. "— Só os abandonaria, quando eles, nhô

Varisto e nhá Delaida, dobrassem a esquina..."

— Deixe estar, Balbina, deixe estar que hei de lhe mandar umas coisas do Rio — consolava Adelaide. — Também você já não é mulher para sair dos seus cômodos.

— E, nhá Delaida, é assim memo.

E a velha enxugava os olhos com a aba do casaco.

— E, nhá Delaida, é...

Um carro de aluguel esperava os viajantes, enquanto Evaristo, pingando suor, concluía umas arrumações no fundo da maleta, e Adelaide, assoando as lágrimas, em toilette de gorgorão, abanava-se na sala de jantar.

— Pronto? — perguntou de repente o bacharel.

— Eu estou pronta... respondeu a esposa, devagar, numa voz comovida.

E, daí a pouco, a velha Balbina se atirava aos pés de Adelaide, chorando, soluçando, agarrando-a espetaculosamente pelas pernas, numa dolorosa cena de lágrimas e exclamações.

(continua...)

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