Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Crônicas#Literatura Brasileira

No País dos Ianques

Por Adolfo Caminha (1894)

Impossível entrar nesse dia, por falta de maré: passamos à noite fora, no Lamarão, aos solavancos, vendo, por um óculo, a cidade do Recife, iluminada e bela, ombro a ombro com a legendária Olinda dos holandeses e dos banhos de mar.

Na falta de outro assunto falou-se de história pátria.

Pela manhã de 27 o Barroso sulcava as águas do Lamarão, lento e majestoso, crivado de olhares. O povo saudava-o do cais da Lingüeta. Espalhou-se logo que o príncipe D. Augusto, neto do imperador, vinha a bordo, e toda a gente correu a recebê-lo com essa avidez instintiva das massas populares. O povo pernambucano, tradicionalmente inimigo dos imperadores, lembrava-se do tempo em que o Sr. D. Pedro de Alcântara dava-se ao luxo de visitar o Norte.

Mais tarde, ao desembarcar a turma de guardas-marinha, de que fazia parte o príncipe, subiu de ponto a curiosidade pública.

— Oh! o príncipe! — Que é dele? — É um ruivo? — É aquele barbado?

O pobre moço viu-se em apuros, e mudava de cores, e fazia-se escarlate, e vociferava contra a plebe, ocultando-se entre os colegas, desapontado. Um preto velho teve a lembrança de ajoelhar-se aos pés de S. A. e suplicar-lhe uma esmola. Aconteceu, porém, que errou o alvo e foi direto a um outro rapaz, louro e rubro, como o príncipe, que se apressou em desfazer o engano.

O imperial senhor achava-se ridículo no meio de toda aquela multidão servil e anônima que o acompanhava, "como se visse nele um animal selvagem..." É assim o povo — ingênuo, pueril.

Visitamos, em romaria, os principais edifícios públicos: a Penitenciária, a Assembléia Provincial, o Ginásio, o Teatro.

À Nova Penitenciária do Recife é um belo edifício no gênero.

Impressiona tristemente esse casarão sombrio com escadarias de ferro, onde mal penetra a claridade meridiana.

Há criminosos de toda a espécie, em cujos semblantes retratam-se delitos tenebrosos. Nada, porém, nos comoveu tanto como a história do preso Gustavo Adolfo, que, há quase vinte anos, cumpria a terrível sentença a que fora condenado. Era um desses sentenciados simpáticos que inspiram compaixão a quem os observa de perto.

Um dos nossos companheiros desejou saber a história do seu crime e pediu ao infeliz que lha contasse ele próprio.

— Não queira, disse o condenado, não queira obrigar-me a fazer minha própria autópsia moral... Narrá-la, essa história, seria um suplício muito maior do que estar eu aqui, neste cárcere, há vinte anos...

Gustavo Adolfo parecia-nos um regenerado, tal o aspecto humilde de sua fisionomia e o tom comovente de sua voz. O isolamento transformara-lhe a alma. A dor tem isto de bom — purifica o espírito, é como um crisol. Esse infame, esse assassino, Gustavo Adolfo, era um mártir. Aquele semblante abatido pelas insônias, aquele rosto descarnado, aqueles olhos cansados de chorar, aqueles lábios lívidos de defunto, cansados de repetir a palavra — perdão, lembravam a figura resignada de um moribundo que nada mais espera senão a eterna liberdade — a morte.

Vimo-lo na casa dos condenados, entre as quatro paredes de um miserável cubículo, vestido de preto, barba crescida, macilento, arrependido e só.

Poucos iam incomodá-lo ali, naquela pavorosa solidão, e no entanto ele não odiava ninguém e desejava falar a todos.

Tinha dezenove anos quando a fatalidade o arremessou a Fernando de Noronha. A justiça humana o havia condenado a esta pena infamante — galés perpétuas.

Perdoar a um arrependido nas condições de Gustavo Adolfo, me parece a mais nobre ação de um rei. Todavia ele continuava, mendigo de liberdade, a pedir, a pedir...

Pôr diversas vezes a academia de direito, pelo órgão de seus representantes, exorara a piedade imperial, mas o imperador nunca estendeu o seu magnânimo olhar até aos cárceres senão em certos dias de gala natalícia para indultar os escolhidos da política dominante.

— Console-se, disse eu ao desventurado moço. E citei Lamartine: — Vivre c'est attendre...

Retiramo-nos comentando aquela catástrofe desastrada.

A história trágica desse preso foi-nos contada por um empregado do estabelecimento. Eu podia resumi-la em duas palavras: — cherchez la femme, se não fosse o prurido de registrar, ainda que brevemente, um caso curioso de processo-crime. Cada um tire as ilações que lhe aprouverem.

Gustavo Adolfo nasceu no Pará onde iniciou seus estudos como seminarista.

Muito cedo seu espírito mostrou-se refratário à educação eclesiástica, e desviou-se dos livros sagrados para outro gênero de leituras e estudos mais consentâneos com as suas aspirações.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior12345...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →