Por Aluísio Azevedo (1880)
Saíam-lhe inarticulados da boca sons aproveitáveis só para ele; ao resolver qualquer questão, deixava cair sobre a mesa de nogueira o punho serrado, e com o ruído as duas mulheres voltavam rapidamente a cabeça; a imobilidade do pescador tranqüilizava-as, e ele continuava entregue inteiramente ao seu cogitar.
Efetivamente, preparava-se uma viagem.
Maffei partia no dia seguinte para Nápoles, empregado numa companhia, que se propunha continuar em Rezina à exploração das famosa ruínas de Herculano.
Decorria então 1838, e nessa época as ambições voltavam-se abertamente para Rezina, onde centenas de operários e trabalhadores, lutando dia e noite, ou eram vítimas de sua cobiça ou triunfavam ricos e vitoriosos da luta desigual, travada por eles, com as lavas, que vomitara um dia o Vesúvio e setecentos anos petrificavam.
Seduzido pela fortuna, ia o pescador deixar a filha; o gênio aventureiro e especulador não lhe permitia avaliar o alcance da empresa. Bem conheciam as boas mulheres o caráter de Maffei, e por isso mesmo não arriscavam uma única palavra para o dissuadir.
Para ele, nunca as coisas estavam bem no pé em que se achavam. Era sempre preciso melhorar. Tinha a impaciência do mar e a firmeza do ferro; quando qualquer idéia se apoderava dele, era como a ferrugem, que avultava, domina, até corromper de todo.
CAPÍTULO IV
Mal raiara a aurora triste e descorada do dia de viagem, já de pé dispunhase a família para descer ao porto do embarque.
Aqui chegados, o pai apertou nos braços a filha; duas lágrimas grossas e varonis, como verdadeiros intérpretes da linguagem muda e sincera do amor, abriam-lhe caminho pelas faces tostadas.
E, enquanto Rosalina esfregava os chorosos olhos com as costas da mão esquerda, Ângela, meio afastada, rosmeneava a oração favorita, a cobrir de bênçãos o querido aventureiro.
Não tinha ainda o sol enxugado da umidade dos rochedos, que durante a noite receberam chuva contínua e carregada, já uma vela minguava ao longe da baía, confundindo-se com o claro-escuro das águas.
CAPÍTULO V
Cinco meses depois da partida do pescador, o tempo atirou aso habitantes da ilha um domingo, que se podia chamar a obra-prima de março.
Só pode ser verdadeiramente apreciado o domingo por um artista, um operário, um estudante ou outro qualquer filho legítimo do trabalho e que este se dedique toda a semana. Os amados da fortuna e bastardos do suor, que vivem paulatinamente dos seus calados rendimentos, tem sete domingos na semana e não logram conseguintemente o melhor e mais legítimo dos prazeres - o descanso. Para poder descansar é preciso principalmente uma coisa - cansar. Do que se conclui que o domingo existe e pertence exclusivamente a quem ocupa utilmente os outros dias.
A ilha apresentava um aspecto realmente encantador.
Por toda parte, dançavam e cantavam grupos alegres de homens sadios e mulheres bonitas ao som da guitarra e do pandeiro.
À missa da manhã não faltou habitante de Lipari, que prezasse o seu caráter tradicionalmente religioso. Encontravam-se os namorados, trocavam-se meias palavrinhas de ressentimento e ciúme, quando não de amor, e, lá muito a furto, o noivo roubava às faces morenas e coradas da sua conversada um suspirado beijo.
Os sinos da igreja de S. Tiago repicavam o termo da missa.
Era muito de ver os moços, com as suas roupas domingueiras, perfilados à porta da Igreja, aguardando a saída das suas prediletas, namoradas; e para logo surgir, ao calor metálico do bronze, uma onda sangüínea de mulheres frescas e fortalecidas, procurando, com os olhos inquietos e enfeitiçados, os daqueles, que as esperavam.
Assim apareceu Rosalina, cujos amarrotados da saia denunciavam o muito que estivera de joelhos.
Vinha um tanto aborrecida e fatigada: os olhos pareciam mais úmidos que de ordinário e os movimentos mais demorados, as faces enrubecidas pelo calor da igreja, a ligeira transpiração, que lhe borrifava o lábio superior e o nariz, davam ao moreno aveludado de sua tez os tons leves e palpitantes, cujo segredo só possuiu Murilo, quando, pintando a cabeça da virgem, reproduzia a beleza angélica de sua filha.
Trazia sai curta de pano escuro e grosseiro, deixando ver o começo de umas pernas bem feitas e terminadas por dois sapatinhos pretos de fivela e laço. O seio arfava-lhe sob a pressão do tecido rijo de barbatanas de baleia, que armavam um corpete de lã vermelho, muito justo e melhor talhado. Os cabelos, de tal negrura, que levantariam ao sol reflexos de azul-ferrete, destacavam-se do quadrado de linho branco, que lhe toucava cuidadosamente a fronte e reapareciam mais abundantes no pescoço em forma de duas reforçadas tranças.
Estava cansada. — Que a deixassem! Queria desafrontar-se daquelas roupas; e, passeando os olhos pelos grupos multicores dos rapazes no vestíbulo, parecia procurar alguém com certa impaciência.
Mal dera alguns passos sorrira. Os lábios sempre anunciam rindo, quando os olhos acham quem o coração procura.
Com efeito, um moço, saindo da multidão, acercou-se dela.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. Uma lágrima de mulher. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16538 . Acesso em: 25 mar. 2026.