Por Aluísio Azevedo (1895)
Fiz-lhe, intrigado, ainda algumas perguntas, a que ele respondeu com reserva, procurando evitá-las. Percebi que me não queria falar francamente, talvez por medo do ridículo, e não insisti.
Jantamos em companhia um do outro, e desde então pegamos de ver-nos todos os dias. Fizemos juntos uma viagem à Suíça, e a nossa amizade revigorou-se com essa jornada; ficamos inseparáveis até que ele, meses depois, deixou a Europa para tornar ao Brasil.
E eu, agora, aqui no Rio de Janeiro, ao acordar da primeira noite, passada no detestável Freitas-Hotel, senti cair-me em cima, com o peso de mil arrobas, todo o negrume da minha solidão. A idéia da solidão fez-me pensar em Leandro.
É verdade! Que fim teria ele levado?...
Vou vê-lo! deliberei, saltando da cama.
Procurei o endereço da sua atual residência. “Tijuca. Alto da Serra”. Era longe, mas o dia estava magnífico. Por que pois não ir? Enquanto lá estivesse disfarçaria ao menos o meu tédio de celibatário. Leandro era afinal o meu melhor amigo; além do que, apetecia-me à curiosidade saber notícias do seu casamento e da sua fenomenal sogra. Não nos víamos havia quatro anos. Como seria agora a sua existência? Que fim teria ele dado ao demônio da bruxa?...
Vesti-me, almocei, saí, dei um passeio pela rua do Ouvidor e tomei o tramway da Tijuca. Na raiz da serra procurei informações sobre a casa de Leandro; deramnas na mesma cocheira que me alugou uma vitória para lá subir.
Às cinco e meia da tarde entrava na residência do meu amigo. Uma deliciosa chácara, com o seu cottage ao fundo, na fralda da montanha, escondido entre árvores floríferas e cercado por um jardim de rosas e camélias. Adivinhava-se logo, desde o portão da rua, haver ali todo o conforto e regalo que nos podem proporcionar os maravilhosos arrabaldes do Rio de Janeiro. Toquei o tímpano na varanda. Fizeram-me entrar para a sala de espera; não mandei o meu cartão intencionalmente, e, quando Leandro chegou e deu comigo, soltou uma sincera exclamação de prazer.
Atiramo-nos nos braços um do outro.
Que bela surpresa! — bradou ele. — Não sabia que tinhas chegado!
— Cheguei ontem. E tu como vais por aqui? A senhora como está? E tua sogra, que fim levou?
— Minha mulher não está aí. Saiu na minha ausência com os filhos e com o velho César. Não sei para onde foram... Mas vai entrando! vai entrando!
— Estão espairecendo naturalmente por aí perto, aventei, passando para a sala de visitas.
— Talvez, mas talvez não. Não sei! Pode ser que voltem já e pode ser que se demorem. Desconfio que foram fazer uma viagem...
— Como? Pois tu não sabes se tua mulher foi fazer uma viagem, ou se está passeando pela vizinhança da casa?... Ora esta!
— Não, filho, não sei. Temos uma vida muito especial. Ela às vezes me foge, ou eu lhe fujo. Levamos três, quatro dias fora, uma semana, um mês até, longe um do outro, visitando parentes e amigos, ou simplesmente passeando, viajando...
Calei-me, por falta absoluta de palavras, e comecei a desconfiar que a sogra afinal acabara por derreter os miolos do meu pobre amigo. Era de esperar!
Depois de uma pausa, aproximei-me dele e perguntei-lhe, em voz soturna, olhando para os lados:
E a serpente?...
Que serpente?!
Ora, qual há se ser? A fúria infernal, o diabo de saias, tua sogra!
Coitada!
E Leandro soltou um grande suspiro.
Escancarei os olhos e a boca, sem compreender.
— Coitada!... repetiu ele, com um novo suspiro. — Já não existe...ah! infelizmente já não existe!...
Recuei aterrado; senti o sangue gelar-se-me nas veias. Que estava eu ouvindo, meu Deus? que estava dizendo o mísero rapaz? Oh! agora já não havia a menor dúvida — era um caso perdido!
— Regenerou-se afinal... interroguei-lhe, fingindo sangue-frio, e sem me aproximar muito desta vez.
— Não zombes, meu amigo! A memória de minha sogra é hoje para mim tão sagrada, ou mais, do que a memória de minha própria mãe!...
— Mas, espera! quantas sogras então tiveste tu?... perguntei-lhe receando também já um pouco pelo meu juízo.
Uma só.
— E essa, a que te referes agora, é aquela mesma, a célebre? aquele terror, aquela moléstia, aquele mal que te roía a existência? aquele diabo, a quem devias o implacável inferno em que te vi espernear de desespero?...
A mesma, Leão. Simplesmente eu, nesse tempo, era injusto...
— Aquela que, só pelo gostinho de contrariar, se metia entre ti e tua mulher, cortando-lhes no meio as carícias e perturbando-lhes o amor?...
Não a compreendia nessa época. O imbecil era eu!
— Aquela, que te trazia suspensa sobre a cabeça uma ameaça de morte?...
Fazia-o, porque era adoravelmente boa!
— Aquela, que te não permitiu fosses o dono do primeiro beijo de teu filho?...
É verdade, a mesma!
Aquela fúria?
Era uma santa!
E ficou muito sério, com o rosto compungido e contrito.
Até hoje ainda não sei como não caí para trás, fulminado.
Meti as mãos nos bolsos das calças, abri as pernas à marinheira, ferrei o olhar no tapete do chão, apertei os lábios, arregacei as sobrancelhas, e embatuquei.
Sim, senhor!...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O livro de uma sogra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16536 . Acesso em: 24 mar. 2026.