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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

O Almada

Por Machado de Assis (1858)

Posto que o assunto entenda com pessoas da Igreja, nada há neste livro que de perto ou de longe falte ao respeito devido ao clero e às cousas da religião. Sem dúvida, os personagens que aqui figuram não são dignos de imitação; mas além de que o assunto pedia que eles fossem assim, é sabido que o clero do tempo salvas as devidas exceções, não podia ser tomado por modelo São do Padre Manuel da Nóbrega, da Companhia de Jesus, estas palavras textuais: "Os clérigos desta terra têm mais ofício de demônios que de clérigos; porque, além do seu mau exemplo e costumes, querem contrariar a doutrina de Cristo e dizem publicamente aos homens que lhes é lícito estar em pecado ... e outras cousas semelhantes por escusar seus pecados e abominações. De maneira que nenhum demônio temos agora que nos persiga senão estes. Querem-nos mal porque lhes somos contrários aos seus maus costumes, e não podem sofrer que digamos as missas de graça em detrimento de seu interesse".

Numa obra deste gênero pode-se e deve-se alterar a realidade dos fatos, quando assim convenha ao plano da composição; mas as feições gerais do tempo e da sociedade, a essas é necessária a fidelidade histórica. Foi o que eu fiz neste livro, convindo dizer que tudo aqui se refere ao clero do lugar e do tempo; nada generalizei, como Boileau, nos dous versos do seu Lutrin:

La déesse, en entrant, qui voit la nappe mise,

Admire un si bel ordre, et reconnait l'Eglise.

Por causa destes e outros versos, um comentador aplicou ao poeta aquilo que ele mesmo dissera do presidente de Lamaignon, que o convidara a escrever o Lutrin: “Comme sa piété était sincère, aussi elle était for gaie et n'avait rien d'embarrassant”.

Dada esta explicação, necessária para uns, ociosa para outros, deposito o meu livro nas mãos da crítica. Pedindo-lhe que francamente me aponte o que merecer correção.

CANTO PRIMEIRO

I

MUSA, CELEBRA a cólera do Almada

Que a fluminense igreja encheu de assombro.

E se ao douto Boileau, se ao grave Elpino

Os cantos inspiraste, e lhes teceste

Com dóceis mãos as imortais capelas,

Perdoa se me atrevo de afrontá-la

Esta empresa tamanha. Tu me ensina

A magna causa e a temerosa guerra

Que viu desatinado um povo inteiro,

Homens do foro, almotacés, Senado,[1]

Oficiais do exército e do fisco,

Provinciais, abades e priores,

E quantos mais, à uma, defendiam

O povo, a Igreja e a régia autoridade .

......................................

II

E tu, cidade minha airosa e grata,[2]

Que ufana miras o faceiro gesto

Nessas águas tranqüilas, namorada

De remotos, magníficos destinos,

Deixa que o véu dos séculos rompendo

À minha voz ressurja a infância tua.

Viveremos um dia aquele tempo

De original rudez, quando a primeira

Cor que se te mudou do muito afago

De mãos estranhas e de alheias tintas,

A tosca, ingênua fronte te adornava,

Não de jóias pesada, mas viçosa

De folhagens agrestes. Quão mudada

Minha volúvel terra! Que da infância

Te poliu a rudez pura e singela?

Obra do tempo foi que tudo acaba,

Que as cidades transforma como os homens.

Agora a flor da juventude o seio,

Que as mantilhas despira de outra idade,

Graciosa enfeita; cresceras com ela

Até que vejas descambar no espaço

O último sol, e ao desmaiado lume

Alvejarem-te as cãs. Então, sentada

Sobre as ruínas últimas da vida,

Velha embora, ouvirás nas longas noites

A teus pés os soluços amorosos

Destas perpétuas águas, sempre moças,

Que o tamoio escutou bárbaro e livre...

Mas, quão longe o crepúsculo branqueia

Desse sol derradeiro! A asa dos séculos

Muita vez roçará teu seio amado

Sem desbotar-lhe a cor. Inda esses ecos

Das montanhas, que invade o passo do homem,

Hão de contar aos sucessivos tempos

Muito feito de glória. Estrênua, grande, Guanabara serás...

Oh! não encubras O gesto de ambição e de vaidade,

De travessa, agitada garridice,

Tão amável, decerto, mas tão outro

Do acolhimento, do roceiro modo

Dos teus dias de infância. Justo é ele;

Varia com a idade o gosto; és moça,

E moça do teu século.

III

Reinava

Afonso VI. Da coroa em nome

Governava Alvarenga, incorruptível

No serviço do rei, astuto e manso,

Alcaide-mor e protetor das armas;[3]

No mais, amigo deste povo infante,

Em cujo seio plácido vivia

Até que uma revolta misteriosa

Na cadeia o meteu. O douto Mustre [4]

A vara de ouvidor nas mãos sustinha.[5]

..........................

Do forte e grande Almada que regia

A infante igreja.[6]

..........................................................

..........................................................

Tal o vate cristão que os heróis mártires

Cantou piedoso, passeando um dia

Na velha terra grega, alar-se em bando

As mesmas aves contemplou, que outrora,

Rasgando como então o azul espaço,

Iam do Ilisso às ribas africanas.[7]

.................................

CANTO II

I

.................................................................

II

Em doce paz agora refazendo

Tantas forças há pouco despendidas

Na crua guerra contra o vão Senado

Que, sobre ser desprimoroso e bronco,

Era um grande atrevido, e imaginava

Atar-lhe as bentas mãos, vedar-lhe o passo,

Se da antiga capela à várzea humilde

(Para poupar às reverendas plantas

(continua...)

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