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#Comédias#Literatura Brasileira

O protocolo

Por Machado de Assis (1862)

Debaixo deste ponto de vista, e respondendo a uma interrogação direta que me diriges, devo dizer-te que havia mais perigo em apresentá-las ao público sobre a rampa da cena do que há em oferecê-las à leitura calma e refletida. O que no teatro podia servir de obstáculo à apreciação da tua obra, favorece-a no gabinete. As tuas comédias são para serem lidas e não representadas. Como elas são um brinco de espírito podem distrair o espírito. Como não têm coração não podem pretender sensibilizar a ninguém. Tu mesmo assim as consideras, e reconhecer isso é dar prova de bom critério consigo mesmo, qualidade rara de encontrar-se entre os autores.

O que desejo, o que te peço, é que apresentes nesse mesmo gênero algum trabalho mais sério, mais novo, mais original e mais completo. Já fizeste esboços, atira-te à grande pintura.

Posso garantir-te que conquistarás aplausos mais convencidos e mais duradouros. Em todo caso, repito-te que fazes bem. Sujeita-te à crítica de todos, para que possas corrigir-te a ti mesmo. Como te mostras despretensioso, colherás o fruto são da tua modéstia não fingida. Pela minha parte estou sempre disposto a acompanhar-te, retribuindo-te em simpatia toda a consideração que me impõe a tua jovem e vigorosa inteligência.

Teu

Q. Bocaiúva.

O PROTOCOLO

Comédia em um ato

Representada pela primeira vez no Ateneu Dramático do Rio de Janeiro em novembro de 1862.

PERSONAGENS

PINHEIRO

VENÂNCIO ALVES

ELISA

LULU

Atualidade.

Em casa de Pinheiro

(Sala de visitas.)

Cena I

ELISA, VENÂNCIO ALVES

ELISA

Está meditando?

VENÂNCIO

(como que acordando)

Ah! perdão!

ELISA

Estou afeita à alegria constante de Lulu, e não posso ver ninguém triste.

VENÂNCIO

Exceto a senhora mesma.

ELISA

Eu!

VENÂNCIO

senhora!

ELISA

Triste, por quê, meu Deus?

VENÂNCIO

Eu sei! Se a rosa dos campos me fizesse a mesma pergunta, eu responderia que era falta de orvalho e de sol. Quer que lhe diga que é falta de... de amor?

ELISA

(rindo-se)

Não diga isso!

VENÂNCIO

Com certeza, é.

ELISA

Donde conclui?

VENÂNCIO

A senhora tem um sol oficial e um orvalho legal que não sabem animá-la. Há nuvens...

ELISA

É suspeita sem fundamento.

VENÂNCIO

É realidade.

ELISA

Que franqueza a sua!

VENÂNCIO

Ah! é que o meu coração é virginal, e portanto sincero.

ELISA

Virginal a todos os respeitos?

VENÂNCIO

Menos a um.

ELISA

Não serei indiscreta: é feliz.

VENÂNCIO

Esse é o engano. Basta essa exceção para trazer-me em um temporal. Tive até certo tempo o sossego e a paz do homem que está fechado no gabinete sem se lhe ciar da chuva que açoita as vidraças.

ELISA

Por que não se deixou ficar no gabinete?

VENÂNCIO

Podia acaso fazê-lo? Passou fora a melodia do amor; o coração é curioso e bateu-me que

saísse, levantei-me, deixei o livro que estava lendo; era Paulo e Virgínia! Abri a porta e nesse momento a fada passava. (reparando nela) Era de olhos negros e cabelos castanhos.

ELISA

Que fez?

VENÂNCIO

Deixei o gabinete, o livro, tudo para seguir a fada do amor!

ELISA

Não reparou se ela ia só?

VENÂNCIO

(suspirando)

Não ia só!

ELISA

(em tom de censura)

Fez mal.

VENÂNCIO

Talvez. Curioso animal que é o homem! Em criança deixa a casa paterna para acompanhar os batalhões que vão à parada; na mocidade deixa os conchegos e a paz para seguir a fada do amor; na idade madura deixa-se levar pelo deus Momo da política ou por qualquer outra fábula do tempo. Só na velhice deixa passar tudo sem mover-se, mas... é porque já não tem pernas!

ELISA

Mas que tencionava fazer se ela não ia só?

VENÂNCIO

Nem sei.

ELISA

Foi loucura. Apanhou chuva!

VENÂNCIO

Ainda estou apanhando.

ELISA

Então é um extravagante.

VENÂNCIO

Sim. Mas um extravagante por amor... ó poesia!

ELISA

Mau gosto!

VENÂNCIO

A Sra. é a menos competente para dizer isso.

ELISA

É sua opinião?

VENÂNCIO

É opinião deste espelho.

ELISA

Ora!

VENÂNCIO

E dos meus olhos também.

ELISA

Também dos seus olhos?

VENÂNCIO

Olhe para eles.

ELISA

Estou olhando.

VENÂNCIO,

O que vê dentro?

ELISA

Vejo... (com enfado) Não vejo nada!

VENÂNCIO

Ah! está convencida!

ELISA

Presumido!

VENÂNCIO

Eu! Essa agora não é má!

ELISA

Para que seguiu quem passava quieta pela rua? Supunha abrandá-la com as suas mágoas?

VENÂNCIO

Acompanhei-a, não para abrandá-la, mas para servi-la; viver do rasto de seus pés, das migalhas dos seus olhares; apontar-lhe os regos a saltar, apanhar-lhe o leque quando caísse... (cai o leque a Elisa. Venâncio Alves apressa-se a apanhá-lo e entrega-lho) Finalmente...

ELISA

Finalmente... fazer profissão de presumido!

VENÂNCIO

Acredita deveras que o seja?

ELISA

Parece.

VENÂNCIO

Pareço, mas não sou. Presumido seria se eu exigisse a atenção exclusiva da fada da

noite. Não quero! Basta-me ter coração para amá-la, é a minha maior ventura!

ELISA

A que pode levá-lo esse amor? Mais vale sufocar no coração a chama nascente do que condená-la a arder em vão.

VENÂNCIO

Não; é uma fatalidade! Arder e renascer, como a fênix, suplício eterno, mas amor eterno também.

ELISA

(continua...)

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