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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Pára aqui a descrição da entrada da família real portuguesa na Cidade do Rio de Janeiro. Mas a dos festejos que houve por esse motivo continua longamente nas Memórias do Padre Luís Gonçalves, com toda a profusão de adjetivos, às vezes mal cabidos, e com a linguagem e idéias da época. Quem quiser apreciar tudo isso recorra à obra que indico. Para os meus companheiros de passeio é de sobra a maçada que já lhes dei, e que, no entanto, há de fazer saudades aos nossos velhos do tempo daquela transmigração real.

Os fluminenses, que então festejaram tanto a chegada da família real portuguesa, mal pensavam que estavam solenizando e aplaudindo um acontecimento precursor da gloriosa independência da pátria.

Mas o Te Deum Laudamus, cantado por tão justo motivo, foi a última solenidade grandiosa que o cabido celebrou na igreja do Rosário.

Três meses e alguns dias tinham apenas corrido, quando o príncipe regente, pelo alvará de 15 de junho de 1808, elevou à primazia de capela real a igreja de N. S. do Carmo, e a criou paróquia do seu real paço, ordenando outrossim que o cabido da catedral fosse logo, com a possível brevidade, transferido para ela. As disposições deste alvará, que em parte satisfaziam o cabido, porque o tiravam da igreja do Rosário, onde estava continuando a experimentar a má vontade e oposição da irmandade proprietária da casa, também em parte destruía todas as esperanças da conclusão das obras da Sé nova, porque dizia que “considerando as necessidades atuais e urgentes do Estado, a que cumpre acudir sem demora e que me não permitem continuar as obras da nova catedral, a que dera princípio meu augusto avô, o Sr. Rei D. João V, de gloriosa memória etc.”. Palavras estas que indicavam claramente como a Sé nova ficava adiada para as calendas gregas.

Todavia, estava o cabido tão desejoso de mudar de catedral, que logo na tarde do mesmo dia da data do alvará, depois de cantar vésperas solenes na antiga Sé, se transferiu para a capela real, onde, no dia seguinte, 16 de junho, celebrou a festa de Corpo de Deus, assistindo a ela o príncipe regente e a família real na respectiva tribuna.

Os ofícios dessa pomposa solenidade deram brado na cidade do Rio de Janeiro, cuja população admirou a procissão de Corpus Christi, não só pela riqueza e pompa com que saiu, como por ver pela primeira vez o príncipe regente com o príncipe da Beira e infantes sustentando as varas do pálio, e cercados do luzido cortejo de cavaleiros, comendadores e grã-cruzes das três ordens militares do reino de Portugal, ornados com seus respectivos mantos e insígnias.

Descansou, enfim, o cabido na capela real, que se tornara e é ainda hoje a catedral do Rio de Janeiro. E como em um dos meus primeiros passeios já descrevi e falei largamente dessa igreja, julgo-me dispensado de repetir o que já disse, e penso que é chegada a ocasião de, post tantos labores, fazer as minhas despedidas ao venerando cabido.

Não posso, porém, dar por acabado este passeio sem informar os meus bons companheiros do destino que teve a Sé nova, que nunca chegou a ser o que indicava o seu nome.

Pela carta de lei de 4 de dezembro de 1810, foi criada na cidade do Rio de Janeiro a Real Academia Militar, e designado para o estabelecimento de suas aulas o ainda não acabado edifício da Sé nova, onde se fizeram as acomodações necessárias nos consistórios e sacristia, que melhores proporções ofereciam, e concluídos se achavam.

Assim acabaram as famosas obras da Sé, que deixaram ao povo um anexim que é hoje o tormento das obras públicas, pela aplicação justíssima que dele lhe fazem.

A Real Academia Militar tornou-se depois da nossa independência em Escola Militar, e ficou sempre ocupando o mesmo edifício, que atualmente oferece as melhores condições e vastos cômodos para o mister a que foi por último destinado.

Nos trabalhos que em 1810 e 1811 foram sendo executados no edifício para o estabelecimento da Real Academia Militar, aproveitaram-se as madeiras que se tinham guardado, e tratando-se logo depois de edificar um bom teatro na capital, e lançando-se os fundamentos dele no Campo dos Ciganos, posteriormente chamado largo do Rocio, e enfim, praça da Constituição, empregou-se nesta obra não só toda a pedra que era destinada para a conclusão da igreja, mas ainda a das duas torres, que já estavam muito adiantadas, e que se desmoronaram.

Serviram, pois, as pedras da mal afortunada Sé nova para os imensos alicerces e gigantescas paredes do teatro, e por isso mesmo, muitos velhos daquele tempo severos respeitadores de quanto se referia a coisas sagradas, agouraram mal do futuro daquele edifício profano, e como se o futuro quisesse justificar tais agouros, já três vezes foi esse teatro devorado pelas chamas. Mas nem mesmo com três incêndios se abalaram suas grossas paredes.

Eram e são as pedras da Sé nova, contra as quais nada tem podido o fogo destruidor.

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Passeio suplementa

I

(continua...)

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