Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
“O regimento de artilharia estava postado com o parque no largo fronteiro à casa da ópera, e era comandado pelo coronel José de Oliveira Barbosa. Seguiam-se em diferentes lugares, pela frente do cais, os três regimentos de linha. Os quatro regimentos de milícias bordavam as ruas desde o cais até a catedral...
“Todo o caminho por onde havia de passar o príncipe regente estava coberto de fina e branca areia, e juncado de folhas, ervas odoríferas e flores. As portas das casas se ornaram de cortinados de damasco carmezim. E das janelas pendiam ricas e vistosas tapeçarias de lindas e variadas cores, umas de damasco, outras de cetim, e outras de seda ainda mais preciosas. E toda esta brilhante armação era realçada pelo grande número de senhoras, que, vestidas e toucadas com o maior asseio e riqueza, aformoseavam e faziam mais brilhante o pomposo aparato da magnífica e triunfal entrada de Sua Alteza real. Na Rua do Rosário se via, ereto na porta de um leal vassalo, um grande coreto, onde em melodiosas vozes, tanto instrumentais como vocais, cantavam os músicos hinos de júbilo em louvor de Sua Alteza real.
“À medida que este augusto senhor ia passando pela frente de cada um dos regimentos, levantavam os seus comandantes a voz, dando por três vezes os vivas a Sua Alteza, a que os soldados e o imenso povo que cobriam as ruas, ocupavam as portas e janelas e mesmo estavam sobre os telhados, respondiam com o maior entusiasmo e contentamento... “... Uma perene chuva de mimosas e suaves flores caía sobre Suas Altezas. Sendo lançadas pelas mãos da inocência e da formosura, excitavam as mais afetuosas sensações...
“Chegou finalmente o solene acompanhamento à catedral, cujo adro e lugares circunvizinhos se viam cobertos de povo infinito, cujas vozes que altamente saudavam a Sua Alteza com incessantes vivas, misturadas com harmoniosos repiques de sinos da catedral, de S. Francisco de Paula, e do Senhor Bom Jesus, e de outras igrejas mais distantes, se não aumentavam, certamente reviviam os mesmos transportes de prazer que sentimos por todo o caminho. O templo se achava decentemente ornado e esclarecido com profusão de luzes. Uma grande orquestra rompeu em melodiosos cânticos, logo que entrou Sua Alteza Real com a sua augusta família, e ao som dos instrumentos e vozes que ressoavam pelo santuário, caminhou o príncipe regente, nosso senhor, com muito vagar e custo, por causa do imenso concurso que dentro da igreja se achava, até ao altar do Santíssimo Sacramento, e ali saindo debaixo do pálio, juntamente com as mais pessoas reais, se prostou com a real consorte e os augustos filhos e filhas ante o trono da Majestade Divina. Entretanto, cantavam os músicos o hino Te Deum Laudamus, e concluído o verso Te ergo etc., se levantou Sua Alteza com a real família e se dirigiu para o altar-mor, igualmente debaixo do pálio, onde pondo-se Suas Altezas outra vez de joelhos sobre almofadas, que também naquele lugar estavam colocadas, renderam suas homenagens à Santíssima Virgem Senhora e ao glorioso martir S. Sebastião, padroeiro da cidade. Concluído o hino de graças e cantadas as antífonas Sub tuum proesidium, O beate Sebastiane, entoou o reverendíssimo chantre o verso Domine, salvum fac principem, etc., e cantou as orações respectivas a este ato, como prescreve o cerimonial. Concluída esta sagrada cerimônia, levantaram-se Suas Altezas, e benignamente deram a mão a beijar a todos quantos se aproximavam às suas reais pessoas, sem preferência nem exclusão de alguém.
“Depois de uma breve demora, voltavam Suas Altezas, acompanhadas do cabido, clero, câmara e de toda a nobreza que dentro da catedral estava, e chegando todos ao adro, entre novas aclamações do povo, que esperava ansiosamente tornar a ver Suas Altezas, se meteu o príncipe regente, nosso senhor, com o sereníssimo Sr. príncipe da Beira, em um rico coche, e o mesmo fez toda a real família em outros coches que para esse fim estavam prevenidos, e, seguidos de guardas de cavalaria, se dirigiram para o paço pelas mesmas ruas por onde pouco antes haviam passado com tanto aplauso, indo os coches com muito vagar, pelo grande concurso de povo que nelas esperava a volta de Suas Altezas. E estando as tropas do mesmo modo postadas, por entre elas passaram os coches, e de novo fizeram as continências ao príncipe regente, nosso senhor, e à real família. Chegando Sua Alteza ao real palácio, foi ali recebido com salvas do parque de artilharia e descarga da tropa de linha, seguidas de muitos vivas dos soldados e do numeroso povo que ocupava todo o largo do Paço. Logo depois começaram a concorrer a fidalguia, o cabido, a câmara, os magistrados, os oficiais de superior patente e as pessoas mais distintas da cidade para terem a honra de cumprimentar ao príncipe regente, etc.”
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.