Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
“Finalmente amanheceu o suspirado dia 8 de março tão claro e formoso como o antecedente; e estando as coisas dispostas para a recepção de Suas Altezas, pelas quatro horas da mais bela e serena tarde, por entre repetidas e alegres salvas das naus portuguesas e inglesas e por entre vivas que os respectivos marinheiros postos em parada sobre as vergas, davam em altos gritos, desceu o príncipe regente, nosso senhor, da nau Príncipe Real, que o conduzira, e se meteu no bergantim com a sereníssima senhora princesa do Brasil e com os sereníssimos senhores príncipe da Beira, infantes e infantas. E acompanhado de toda a corte com que saíra de Lisboa, e de outras personagens distintas que de terra o foram buscar a bordo, ou que das naus desembarcaram (o que tudo fazia uma comitiva muito numerosa e brilhante de escaleres, lanchas e outras embarcações menores), se dirigiu para a cidade em direitura do lugar do desembarque. Todo o numeroso povo que bordava o cais e as praias vizinhas estava como estático, com os olhos fixos no real bergantim, e no maior silêncio. Mas logo que o mesmo real bergantim passava pela frente da fortaleza da ilha das Cobras e que esta começou a salvar com a sua artilharia a Sua Alteza real, no que foi imitada pelas demais fortalezas, imediatamente rompeu o povo que estava sobre o monte do Castelo em altos vivas, acompanhados dos repiques dos sinos do colégio e de muitos fogos do ar que dali se soltaram. Entretanto, chegou o real bergantim à rampa do cais, e logo que o príncipe regente, nosso senhor, pôs o pé em terra, ah! como poderei descrever o que tive a fortuna de testemunhar neste ditoso momento? Centenas de fogos subiram ao mesmo tempo ao ar. Rompeu imediatamente um clamor de vivas sobre vivas. Os alegres repiques de sinos e os sons dos tambores e dos instrumentos músicos misturados com o estrondo das salvas, estrépito dos foguetes e aplausos do povo, faziam uma estrondosa confusão, tão magnífica, majestosa e arrebatadora, que parecia coisa sobrenatural e maravilhosa. No meio desta assombrosa confusão de tantos e tão multiplicados sons diferentes desembarcaram todas as pessoas reais, e juntamente com o príncipe regente, nosso senhor, se prostraram diante de um rico altar, que na parte superior da rampa estava ereto, em torno do qual se achava o cabido da catedral paramentado de pluviais de seda e de ouro branco, e ali osculou S. A. real a Santa Cruz nas mãos do Revmº chantre Filipe Pinto da Cunha e Sousa, e o mesmo fizeram todas as pessoas reais. Mas, antes desta ação, o Revmº chantre havia feito a aspersão da água benta e dado as purificações ao príncipe regente, nosso senhor, e à real família. Levantando-se Sua Alteza o príncipe regente com a sereníssima srª princesa e sua augusta família, se recolheram debaixo de um precioso pálio de seda de ouro encarnada, cujas varas eram sustentadas pelo juiz de fora, presidente do senado da Câmara, Agostinho Petra de Bittencourt, pelos vereadores Manuel José da Costa, Francisco Xavier Pires, Manuel Pinheiro Guimarães, procurador José Luís Álvares, escrivão Antônio Martins Brito, e cidadãos Anacleto Elas da Fonseca e Amaro Velho da Silva, os quais, ambos, havendo sido vereadores, foram convidados para esta ação, que tanto honrou a todos.
“Então começou a caminhar a procissão do modo seguinte:
“Um numeroso e luzido cortejo das mais distintas pessoas civis e militares, que não se achavam em atual serviço, ou não tinham lugares determinados, vinha adiante, vestido de corte e com muito asseio e riqueza, e promiscuamente os religiosos de S. Bento, do Carmo e de S. Francisco, alguns Barbadinhos, seminaristas de S. José, de S. Joaquim e da Lapa, e também os magistrados, sem distinção de lugar. Seguia-se o estandarte da câmara, que era levado por um cidadão, o qual trajava vestido de seda preta, capa da mesma, colete e meias de seda branca, chapéu meio abado com plumas brancas e presilhas de pedras preciosas, e cuja capa era ornada com bandas de seda ricamente bordada. Formavam em seguimento do estandarte os cidadãos, vestidos com o mesmo traje, duas compridas alas por um e outro lado. Vinha depois a cruz do cabido entre dois ciriais, e logo todo o clero da cidade também em duas alas e todos de sobrepelizes muito ricas e engomadas, e finalmente o cabido com pluviais. Então vinha o pálio e debaixo dele o príncipe regente, nosso senhor, com a sua real família...
“...Rodeavam a Sua Alteza real os grandes do reino, oficiais mores da sua real casa, camaristas e nobreza, e era seguido de um numeroso cortejo de eclesiásticos, militares, oficiais de marinha portuguesa e britânica, como também de outras muitas pessoas, que de Lisboa tinham vindo em sua companhia.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.