Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Recolheram-se então, e ainda com a esperança de serem aplicadas em melhor tempo, grande cópia de madeira já lavrada e muita pedra, que, ver-se-á, não deviam servir para a Sé.
Razão teve, pois, o povo de inventar o seu anexim. Depois de quarenta anos do começo das obras da Sé, ainda esta não se chegara a concluir, e ainda se adiavam os trabalhos. Tinham principiado as obras no reinado de D. João V, e ia já adiantado o de D. Maria I, sem que elas chegassem ao seu termo!
Monsenhor Pizarro, lamentando a má fortuna da Sé nova, e querendo mostrar que, por descuido ou desamor, era o governo o culpado de tantas demoras e do abandono das obras, exclama em uma nota que se acha à pág. 58 do tomo 6º, das suas Memórias:
“Quando aos governadores do Rio de Janeiro agradou a execução de alguma obra pública, ou ela se originasse do gosto particular, da necessidade, ou da devoção, tudo se prontificou, e tudo se concluiu sem obstáculos. Omitindo fatos antigos, referirei apenas alguns dos mais chegados aos nossos dias. Verbi gratia. Empreendeu o conde de Bobadela levantar o convento de Santa Teresa e renovar o templo junto, de N. S. do Desterro. Ultimou o seu empenho. Lembrou-se o conde da Cunha de construir entre outras obras, as casas do trem e das armas. Executou o projeto. Intentou o marquês de Lavradio melhorar a cidade, fazendo-lhe muitos benefícios. Conseguiu efetuar as suas idéias. Traçou Luís de Vasconcelos e Sousa edificar o Passeio Público, o cais novo, e renovar a igreja de N. S. do Parto juntamente com o recolhimento anexo, etc. Não encontrou óbices. Deliberou o conde de Resende aterrar o campo de Santana, adiantar a obra do cais, e reedificar o templo antigo de S. Sebastião, etc. Tudo realizou. Só a desgraçada Sé nova, que a todos devia merecer muita atenção, por ser uma casa dedicada a Deus e ao seu culto, e por pertencer ao padroado real, não teve patronos autorizados que a concluíssem ao menos na parte mais necessária a se poder dignamente celebrar ali os ofícios divinos, e acomodar o corpo capitular, separando-o da comunicação com os pretinhos irmãos da confraria de N. S. do Rosário! Adoremos a Divina Providência!”
Realmente as queixas de monsenhor Bizarro tiveram justos fundamentos. Mas na história que vou contando neste passeio, o essencial é o conhecimento dos fatos, e o fato é que a Sé nova, começada com tanto ardor e entusiasmo, acabou por cair no mais triste abandono.
E como a Sé nova nunca pôde ser o que diz o seu nome, e já desapareceram quase todos os sinais das obras que chegaram a se executar, darei delas a idéia, embora incompleta, que única nos ficou perpetuada nas Memórias do padre Luís Gonçalves dos Santos.
“A sua fachada era toda de cantaria e da mesma era o adro, que se elevava do chão uma braça, e cercava todo este edifício. Por um e outro lado era o templo separado das casas fronteiras por duas travessas que confinavam com o pequeno campo da Lampadosa.”
Eis aí tudo quanto achei escrito sobre a mal afortunada Sé nova.
Estavam as coisas neste estado. A Sé nova a tornar-se antiga antes de chegar ao fim das suas obras, e o cabido a brigar com a irmandade do Rosário na igreja deste nome, quando, em 1808, chegou a família real portuguesa ao Rio de Janeiro.
A chegada da família real influiu muito nos destinos da Sé. Mas, tende paciência, meus bons companheiros de passeio. Eu não sei se terei ocasião de tratar em algum outro passeio daquele importantíssimo acontecimento, e portanto, não quero perder o ensejo, e aí vai a descrição do desembarque da real família portuguesa, a quem agora acompanharemos até à igreja do Rosário, ainda então catedral do Rio de Janeiro.
Fala por mim o padre Luís Gonçalves dos Santos, que foi testemunha do grandioso espetáculo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.