Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Completarei o meu passeio de hoje com a história desse aleive que as tais beatas levantaram a S. Benedito.
Eis o caso.
S. Benedito entrava com o seu andor na procissão de Cinzas. Mas, em 1849, não sei por que, o excluíram dela.
Devia certamente haver motivo forte para essa exclusão. Porque não admito que também nas procissões e ofícios religiosos se misturem certas prevenções e privilégios aristocráticos que enchem o mundo de vento e bolhas de espuma.
Mas o certo é que S. Benedito foi excluído da procissão de Cinzas, e que, ofendido por isto, dizem as velhas beatas, resolveu punir a cidade do Rio de Janeiro, e fez imediatamente entrar no seio dela a tremenda peste da febre amarela, que a encheu de terror e de luto e povoou os seus cemitérios.
Creio firmemente que S. Benedito ressentiu-se muito menos da exclusão do seu andor na procissão de Cinzas do que da história que inventaram as suas devotas, atribuindo-lhe a introdução de uma peste na cidade do Rio de Janeiro.
Podia eu, porém, pregar dez anos neste sentido, que não conseguiria com toda a minha retórica convencer as velhas beatas do prejuízo que as leva a ofender o santo.
Tempo perdido!
Elas diriam e jurariam, como ainda hoje dizem e juram, que foi S. Benedito quem nos trouxe à cidade do Rio de Janeiro a febre amarela!
VII
Todos no Brasil têm ouvido e repetido um anexim que diz: “Velho como as obras da Sé.” Mostrarei o fundamento desse anexim, que é, por sinal, ainda muito novo, pois que foi inventado no presente século, ou, quando muito, no fim do século passado.
Em obediência às ordens do rei, por mais de uma vez reiteradas, para se fazer uma nova Sé no Rio de Janeiro, foi enfim escolhido e marcado no largo de S. Francisco de Paula o lugar onde se devia erigir o novo templo dedicado ao santo padroeiro da cidade e capitania.
O rei tinha mandado de Lisboa uma planta para o templo, executada pelo sargento-mor Carlos Manuel. Como, porém, exigisse esse plano despesas avultadíssimas para ser posto em obra, aprovou uma outra planta assaz nobre e soberba, que por sua ordem lhe mandou o governador Gomes Freire de Andrade, de acordo com o bispo.
A primeira pedra do edifício foi lançada no dia 20 de janeiro de 1749, como declara o termo de 21 de junho de 1750, lavrado no livro 2º do registro da secretaria do bispado à fl. 4, e transcrito no livro do tombo do cabido, fl. 144, não constando desse documento a inscrição que acompanhou essa primeira pedra, nem as cerimônias com que ela foi lançada.
A obra adiantava-se com empenho e ardor, e, segundo informa monsenhor Bizarro, “a vinte côvados de altura, com pouca diferença, chegaram as paredes levantadas acima de grossíssimos alicerces. E quando o seu trabalho prosseguia com esperança de se concluir em tempo breve, tendo-se já empregado na obra 96:752$584, como importavam as verbas dos pagamentos feitos”, teve o governo de suspendê-lo, obrigado a aplicar as somas que eram destinadas para essa construção às despesas de demarcação dos limites do Brasil com as possessões espanholas na América meridional, conforme as disposições do Tratado de Madri de 1750.
No ano de 1752, interromperam-se, pois, os trabalhos da Sé nova, e interrompidos ficaram por quarenta e quatro anos.
As desinteligências do cabido com a irmandade de N. S. do Rosário e S. Benedito incitaram os capitulares a tratar da continuação da obra, e, aprovado esse empenho pelo vice-rei conde de Resende e pelo bispo, recomeçaram os trabalhos no dia 29 de fevereiro de 1796.
Os capitulares concorreram para a obra com uma parte da côngrua dos seus benefícios, obtiveram alguns contos de réis em moeda, muitos materiais e outros subsídios de esmola dos moradores da cidade e dos distritos da capitania, e contavam que o bispo aplicasse ao mesmo piedoso fim aquelas esmolas destinadas por direito em benefício da fábrica da igreja catedral, e que o vice-rei cumprisse a promessa que fizera de mandar alguns condenados a galés prestar os seus serviços, fazendo diminuir assim as despesas com os serventes de obras. Enganaram-se, porém, com o bispo e o vice-rei, porque o primeiro apenas concedeu insignificantes auxílios, a muito suplicar do chantre José Pereira Duarte; e o segundo esqueceu as promessas que fizera, e ocupado em reparar e melhorar a Sé velha, ou igreja de S. Sebastião do Castelo, mostrava grandes desejos de fazer voltar para ela o cabido.
Está visto que, assim desamparados, não podiam os capitulares levar ao cabo o seu intento; e desanimando completamente, porque o rei, a quem dirigiram instantes rogos, não os pôde acudir com o necessário auxílio, em conseqüência da situação crítica em que se achava Portugal na Europa, abalada toda pelas bélicas proezas dos exércitos da França, não pensaram mais em continuar as obras da Sé nova, que efetivamente pararam no dia 27 de maio de 1797, ficando pronto o corpo da capela-mor até ao arco cruzeiro, e quase terminadas as casas laterais correspondentes.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.