Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Nas lembranças do passado da igreja do Rosário tem o consistório respectivo justos motivos de ufania, porque foi em outro tempo um lugar de escolha, um seio ardente onde palpitaram e donde saíram manifestações de idéias liberais.
Logo depois da chegada da família real portuguesa ao Rio de Janeiro, o senado da Câmara desta cidade estabeleceu o seu paço no consistório do Rosário, e foi aí que essa instituição profundamente popular tomou todas as patrióticas e gloriosas resoluções que precederam e apressaram a proclamação da independência do Brasil.
Foi do consistório da igreja do Rosário que saiu o senado da Câmara com o seu estandarte em frente, no dia 9 de janeiro de 1822, para apresentar ao príncipe regente D. Pedro a representação em que o povo pedia a este que, desobedecendo às ordens terminantes da corte de Lisboa, ficasse no Brasil.
Foi perto e quase junto desse consistório que, tendo a câmara voltado para o seu paço, no mesmo dia 9 de janeiro, com a resposta revolucionária e patriótica do príncipe, subiu a um monte de pedras que ali havia um dos filhos do ilustre capitão-mor José Joaquim da Rocha, o Sr. Inocêncio da Rocha Maciel, atual contador da Câmara Municipal, e em alta voz leu à multidão de povo entusiasmado o primeiro número da Reclamação do Brasil, periódico que acabava de sair à luz e de ser distribuído, e cujo redator foi o venerando José da Silva Lisboa, posteriormente visconde de Cairu, e que então era deputado da junta do comércio e um dos diretores da Imprensa Régia.
Foi do consistório da igreja do Rosário que, ao chegar ao Rio de Janeiro a notícia de que o governo de Portugal notificara aos seus agentes nos portos estrangeiros que tratassem de opor-se eficazmente à remessa de armas e munições bélicas para o Brasil, saiu o senado da Câmara no dia 13 de maio de 1822, e foi pedir, em nome do povo, ao príncipe regente D. Pedro que aceitasse o título e o nobre empenho de defensor perpétuo do Brasil, solene voto que foi logo satisfeito.
Foi ainda do mesmo consistório que saiu outra vez o senado da Câmara, no dia 23 do mesmo mês e ano, e dirigiu-se ao príncipe regente, requerendo a convocação de uma assembléia legislativa brasileira, pedido a que atendeu o príncipe depois de ouvir o seu Ministério e os procuradores das províncias que se achavam no Rio de Janeiro.
Foi no consistório da igreja do Rosário que, em março de 1824, se abriu o livro em que a todos os cidadãos do município da corte ficou lícito darem o seu voto aprovador ou rejeitador da Constituição oferecida pelo imperador D. Pedro I.
Cumpre aqui observar que todas as Câmaras municipais do império fizeram então o que fez a da nossa capital, por ordem do governo do imperador.
Era, sem mais nem menos, uma apelação para o sufrágio universal, que tinha sido posto em prática pelo imperador Napoleão, em França, quando quis, em nome do povo, acabar com o sistema republicano nesse país, e a que D. Pedro I recorria no Brasil, procurando habilmente dar à Constituição que oferecia o apoio e a legitimidade da sacramental aceitação nacional, depois do gravíssimo e calamitoso erro político da dissolução da Constituinte. A diferença das intenções dos dois imperadores tornou-se mais saliente pelo resultado de ambas as apelações. O governo de Napoleão caiu, e a constituição do Brasil perdurou, embora o Brasil não perdoasse ao seu primeiro imperador o fato de se haver desquitado do elemento popular pela dissolução da assembléia constituinte.
É verdade que poucos relativamente foram os cidadãos que concorreram ao plebiscito para que os convocara o governo. Mas o princípio nem por isso se reputou anulado. A nação foi chamada a manifestar o seu voto sobre a constituição oferecida. A sua indisputável soberania foi por esse fato reconhecida. O voto do povo, podia, pois, ter-se manifestado contra essa Constituição, e se não se manifestou então, nem depois, nem em época em que o elemento popular foi o exclusivo dominador do país, segue-se incontestavelmente que a constituição política do Brasil teve e, tem, por seu principal fundamento o apoio e a legitimidade da sacramental aceitação nacional.
Pouco depois do ano de 1824, a Câmara Municipal passou a ocupar o seu paço construído no campo de Santana, posteriormente da Aclamação. O consistório da igreja do Rosário ficou por algum tempo vago. Mas foi em breve ocupado pela Imperial Academia de Medicina, que celebra nele as suas sessões ordinárias.
Sic transit gloria mundi!
O famoso consistório é hoje apenas o modesto asilo de uma instituição científica, e a igreja do Rosário um templo velho que nunca foi novo.
Dir-se-ia que o cabido deixou cair a sua maldição sobre a igreja dos pretinhos, como a chamava, e que o próprio S. Benedito retirou dela a sua proteção.
E, segundo dizem muitas velhas beatas, S. Benedito ficou há poucos anos mal com a cidade do Rio de Janeiro, e chamou sobre ela um terrível castigo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.