Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
As paredes, que há quarenta anos não estavam rebocadas, receberam, não sei quando, uma ligeira mão de cal, que resumiu todos os melhoramentos daquela casa de Deus. O interior da igreja, que tão pobre se mostrava, caiu da pobreza na miséria e é hoje um painel de ruínas, sempre em esperanças de uma regeneração que nunca chega. Os pardieiros de que fala o padre Luís Gonçalves causam repugnância pelo seu aspecto vergonhoso. Só o consistório é que, sem ter passado por mudanças notáveis, nem adquirir sensível embelezamento, conserva-se ao menos tão bom como era, e se mostra mais recentemente caiado.
É provável que, em honra da Imperial Academia de Medicina, que ali se hospeda, dessem ao consistório essa e algumas condições higiênicas que se acham em decidida oposição com as condições pestíferas que perto se observam.
As ruas que cercam a igreja do Rosário completam o tristíssimo painel que estou apresentando. Ao lado direito, o largo da Sé, povoado de barracas e de tabuleiros de negras mercadoras de verduras, oferece todos os dias espetáculos desagradáveis pela desenvoltura das quitandeiras, e recebe o som, felizmente confuso, de vozes e de gritos, de gargalhadas e de injúrias que ofendem os ouvidos não habituados aos dialetos da indecência e da desmoralização. Em frente, onde vem terminar a rua do Rosário e se interrompe a rua da Vala, e ao lado esquerdo pela travessa do Rosário, postam-se às vezes negros barbeiros volantes e aplicadores de ventosas de chifre, que exercem os seus misteres no meio da rua, aproveitando fregueses da sua igualha. Ao fundo no beco do Rosário, descansam carros velhos e lavam-se carros novos.
As paredes da igreja, no exterior, conservam-se constantemente úmidas até uma certa altura, tendo no chão contíguo um depósito de lama em diversos pontos, e exalando um mau cheiro de amoníaco que indica bem a causa de semelhante imundície.
Se a irmandade de N. S. do Rosário e S. Benedito é responsável e merece ser censurada pelo estado miserável em que se acha a sua igreja, não menos ou ainda muito mais acre censura deve cair sobre a Câmara Municipal da corte, que permite cenas indignas de um país civilizado em torno daquela igreja, e deixa que junto das paredes desta se improvisem lugares de despejo.
É mais do que ridículo, é desagradável o ver-se em uma capital como a nossa um preto sentado em um banquinho no meio da rua, com a cara entregue às mãos de outro que a ensaboa e barbeia como se estivesse na sua loja, e logo adiante um outro, com a boca na ponta de uma ventosa de chifre, a chupar o sangue de um padecente que se entrega a essa operação, tendo por leito a calçada da rua; e pior que tudo é cada canto da igreja transformado em latrina.
A Câmara Municipal e a polícia têm obrigação de pôr um termo a semelhantes abusos.
A igreja do Rosário, tal como se acha, e as cenas que se observam nas ruas que a cercam, são senões muito feios da cidade do Rio de Janeiro, que tem direito a ser muito bonita, e deve considerar-se uma formosa moça que tem por modistas e joalheiras a sua Câmara Municipal e a sua polícia.
Todavia, não tendo nunca sido um belo templo, não sendo recomendável por obra alguma de arte, nem pela magnificência de seus altares, nem pela riqueza de seus ornatos, a igreja da Rosário já teve o seu tempo de brilhantes e esplêndidas festas.
Não há um só dos nossos velhos, e menos se encontrará uma só das nossas velhas que não se lembre com saudades das famosas festas do Rosário.
Assim como na festa do Espírito Santo há um imperador, nas do Rosário havia rei e rainha, com a sua competente corte, e cuja realeza durava um ano, como a dos imperadores do Espírito Santo.
O negro e a negra, rei e rainha da festa do Rosário, apresentavam-se trajando riquíssimos vestidos bordados de ouro e prata, e imitando o mais possível as vestes reais dos antigos tempos. A sua corte enfeitava-se às vezes extravagantemente, mas sempre com grande luxo. O aparato pareceria hoje ridículo, e era então, não direi imponente, porém muito interessante.
O cortejo real era precedido de uma música especial, e, além da solenidade religiosa, havia danças na rua, em que tomava parte a realeza improvisada, e os pretos do Rosário batiam palma, vendo bailar a seu modo o rei e a rainha da festa.
Este costume do passado observava-se não só na cidade do Rio de Janeiro, mas também em diversas freguesias do interior, onde as irmandades do Rosário eram principalmente formadas e sustentadas por negros escravos cujos senhores prestavam-se a fazer por eles as maiores despesas da festa, e faziam garbo de gastar avultadas quantias para vestir com todo o luxo o rei e a rainha do Rosário.
Esse tempo já lá vai. A realeza do Rosário acabou e os imperadores do Espírito Santo dão-nos hoje apenas muito fraca idéia do que ela foi.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.