Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
“Determinando o padre Luís de Lemos Pereira, em testamento com que faleceu a 21 de julho de 1731, que seus testamenteiros se ajustassem com a irmandade do Rosário para colocar em uma capela particular da igreja a imagem de S. Vicente Ferreira, em cujo ornato mandou dispender a quantia de 400$, além da importância da faculdade pretendida, sob a condição, porém, de ficar a capela (ou o altar) com o título do mesmo santo, e de se permitir junto a ela duas sepulturas para sacerdotes pobres e forasteiros que não fossem irmãos da irmandade de S. Pedro, e para anjinhos também pobres. Não obstou essa corporação ao disposto pelo testador, recebendo com prazer grande a quantia do ajuste. Mas considerando depois na quebra dos réditos provenientes das covas, e como arrependida da outorga, cessou de facilitar gratuitamente estes jazigos aos necessitados expressos. Pouco depois de colocada a imagem sobredita em seu altar próximo (que foi o primeiro do lado da Epístola, junto ao arco cruzeiro) não tardou em sofrer a violência de uma aposentadoria, que, excluindo-a do lugar, fez substituir a Santana por dona da casa, a quem se deu a posse, e a um lado da entrada ficou o senhor da propriedade como hóspede, por muito favor. À mesma irmandade legou aquele testador uma propriedade de casa, no canto da rua da Quitanda do Marisco, pensionando-a com cinqüenta missas anualmente por sua alma, que se deveriam dizer no altar de S. Vicente. Mas não consta a satisfação desse encargo, (ao menos no lugar declarado), nem ouvi no longo espaço de anos, desde 1781 a 1801 que residi na catedral, que se cumprisse a verba testamentária nos termos declarados.”
Do que acabo de transcrever conclui-se que a irmandade de N. S. do Rosário e S. Benedito pregou um tríplice calote à alma do padre Luís de Lemos Pereira, calote de altar, calote de covas e calote de missas, e procedeu como certos políticos candidatos eleitores, que, depois que obtêm os votos dos eleitores, esquecem os seus compromissos e zombam dos programas que apresentaram.
Se realmente as coisas se passaram assim, a irmandade não tem desculpa. Esse abuso, porém, não dá razão ao cabido contra os pretinhos, como os chama o monsenhor Pizarro, nessa prolongada luta que uns e outros sustentaram desde o ano de 1737 até 1808, em que finalmente passou a catedral para a igreja do convento dos carmelitas, que se elevou ao grau de capela real.
Reparo agora que cheguei ao ano da mudança da Sé da igreja do Rosário para a capela real sem ter feito a competente descrição daquela. Mas seria ainda tempo de corrigir esta omissão, se eu tivesse ou achasse que descrever na igreja do Rosário, que é um triste quadro de incúria e desmazelo.
Em falta de descrição, aí vai a pintura que há trinta e oito para quarenta anos fez dessa igreja o padre Luís Gonçalves dos Santos nas suas Memórias:
“Defronte da rua do Rosário está a igreja deste nome, que pertence a uma confraria de pretos, e esta é a que serviu de Sé Catedral do Rio de Janeiro, há sessenta anos pouco mais ou menos. O seu prospecto exterior é por todos os lados triste e miserável, pois nem rebocada está senão na frente, na qual tem uma boa portada de pedra de mármore, e o interior se assemelha mais a um grande armazém do que à casa de Deus, apesar de ter nove altares. Pois nem forrada e assoalhada é. E se os altares estão com alguma decência, é por acharem-se ali a sede episcopal, o cabido e algumas confrarias anexas à catedral. A capela-mor é nova, com forro de talha, mas não tem retábulo no altar-mor. Os pretos começaram um grande consistório, que tarde ou nunca concluíram. E os pardieiros que servem de sacristia e de guardar as alfaias da irmandade do Sacramento e outras, como tambem a casinha do cura, causam compaixão.”
Eis o que era a Igreja de N. S. do Rosário na época em que dali saiu o cabido e onde se conservou a matriz da freguesia, chamada da Sé, até junho de 1820, em que se transferiu o Santíssimo Sacramento para a nova paróquia defronte do tesouro nacional.
Pensavam alguns que a irmandade de N. S. do Rosário e S. Benedito deixava a sua igreja em tanto abandono pela má vontade e aborrecido constrangimento com que era obrigada a hospedar o cabido. Mas o cabido mudou-se e as coisas foram a pior.
Compreendei ou imaginai uma igreja em estado cem vezes mais lastimável do que esse de que nos deixou tão triste quadro o padre Luís Gonçalves, e ainda assim mal podereis fazer idéia do que é atualmente a igreja do Rosário.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.