Por Aluísio Azevedo (1884)
O quarto respirava todo um ar triste de desmazelo e boêmia. Fazia má impressão estar ali: o vômito de Amâncio secava-se no chão, azedando a ambiente; a louça, que servira ao último jantar, ainda coberta de gordura coalhada, aparecia dentro de uma lata abominável, cheia de contusões e comida de ferrugem. Uma banquinha , encostada à parede, dizia com o seu frio aspecto desarranjado que alguém estivera aí a trabalhar durante a noite, até que se extinguira a vela, cujas últimas gotas de estearina se derramavam melancolicamente pelas bordas de um frasco vazio de xarope Larose, que lhe fizera as vezes de castiçal. Num dos cantos amontoava-se roupa suja; em outro repousava uma máquina de fazer café, ao lado de uma garrafa de espírito de vinho. Nas cabeceiras das três camas e ao comprido das paredes, sobre jornais velhos e desbotados, dependuravam-se calças e fraques de casimira: em uma das ombreiras da janela havia umas lunetas de ouro, cuidadosamente suspensas de um prego. Por aqui e por ali pontas esmagadas de cigarro e cuspalhadas ressequidas. No meio do soalho, com o gargalo decepado, luzia uma garrafa.
A luz franca e penetrante da manhã dava a tudo isso um relevo ainda mais duro e repulsivo: o coração de Amâncio ficou vexado e corrido, como se todos os ângulos daquela imundície o espetassem a um só tempo. Ergueu-se cautelosamente, para não acordar os outros, e foi à janela. O vasto panorama lá de fora estremulhou-lhe os sentidos com o seu aspecto.
A república era muito no alto, sobre três andares, dominando uma grande extensão. Viam-se de cima as casa acavaladas uma pelas outras, formando ruas, contornando praças. As chaminés principiavam a fumar; deslizavam as carrocinhas multicores dos padeiros; as vacas de leite caminhavam com o seu passo vagaroso, parando à porta dos fregueses, tilintando o chocalho; os quiosques vendiam café a homens de jaqueta e chapéu desabado; cruzavam-se na rua os libertinos retardios com os operários que se levantavam para a obrigação; ouvia-se o ruído estalado dos carros d’água, o rodar monótono dos bondes. Mais para além pressentiam-se cordilheiras, graduando planos esfumados de neblina. O horizonte rasgava-se à luz do sol, num deslumbramento de cores siderais. E lá muito ao longe, quase a perder de vista, reverbava a baía, laminando as águas na praia.
Embaixo, na área da casa, uma ilhoa, de braços nus, a cabeça embrulhada em um lenço de ramagens, lavava a um tanque de cimento romano; um homem, em mangas de camisa, varria as pedras do chão, cantarolando com os dentes cerrados, para não deixar cair a ponta do cigarro. Numa janela, um sujeito, de óculos azuis, areava os dentes e com a boca atirava duchas sobre um papagaio, cuja gaiola pousava no balcão. Dentro de um cercado cacarejavam galinhas, mariscando na terra; e o homem do lixo entrava e saia, familiarmente, com o seu gigo às costas.
Um relógio da vizinhança bateu seis horas.
Amâncio reparou que estava com muita sede, mas não descobria a talha d’água. Afinal encontrou-a, num sótão que havia ao lado do quarto e onde só se entrava vergando o corpo.
Bebeu até à saciedade.
Depois lavou o rosto e a boca. E, com a idéia de sair antes que os mais acordassem, vestiu-se apressado, contou o dinheiro que lhe restava, lamentando interiormente o que na véspera esbanjara; viu no chão uma escova de fato, apanhou-a, escovou a roupa, e, todo cautela e ponta de pé, abriu a porta e ganhou a escada.
Entre o primeiro e o segundo andar encontrou uma rapariguita de alguns dezesseis anos, que subia com dois copos de leite, um em cada mão, fazendo mil esforços para não os entornar. Ao ver Amâncio ela emperrou, cosendo-se à parede, a fim de lhe dar passagem, e olhou-o de esguelha, com medo de afastar a vista dos copos.
Era bonitinha, corada, os cabelos castanhos apanhados na nuca. Parecia portuguesa.
Amâncio ao passar por ela, estacou também, à fitá-la. De repente lançou-lhe as mãos.
A pequena, muito contrariada fez uma cara de raiva e gritou — que a soltasse! que não fosse atrevido!
E desviava o corpo, querendo defender-se mas sem se descuidar dos copos.
— Mau! mau! siga o seu caminho e deixe os outros em paz!
Amâncio não fez caso e conseguiu beijá-la à pura força. Derramaram-se algumas gotas de leite.
— Maus raios te partam! clamou a rapariga, assim que o viu pelas costas.— Peste ruim de um estudante!
* * *
A peste ruim do estudante saiu, e só interrompeu a caminhada para entrar num botequim, onde pediu café. Então, defronte do espelho, pôde admirar o belo estado em que se achava.
— Como diabo havia de apresentar-se naquele gosto em casa do Campos?... Também que triste idéia a sua — de se enterrar numa casa comercial?
Não! Com certeza estava mal hospedado... nem lhe convinha permanecer ali! — Oh! Bastava já de ser governado, de ser vigiado a todo instante! — Já era tempo de gozar um pouco de liberdade.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.