Por Visconde de Taunay (1872)
Quando Cirino entrou no quarto de Inocência, já estava ela acordada. Sentara-se o pai à cabeceira da cama, a cujos pés se acocorara Tico, o anuo, sobre uma grande pele de onça.
—Então, perguntou o médico tomando o pulso à mimosa doente, como se sente?
—Melhor, respondeu ela.
—Suou bastante?
—Ensopei três camisas.
—Muito bem... Agora a senhora esta com a pele fresquinha que mete gosto. Isto de sezões, não e nada, se a gente acode a tempo e o sangue não tem maus humores. Mas quando tomam conta do corpo, nem o demo com elas pode. Que é do café? pediu ele em seguida a Pereira.
—Já vem já... Homem, vou eu mesmo buscá-lo, lá à cozinha. A Maria Conga está ficando uma verdadeira lesma. Venha para
Levantando-se então da cadeira, indicou-a a Cirino, a quem fez sentar antes de sair.
Ficou este, pois, ao lado da menina e, como sobre o lindo rosto batesse de chapa a luz colocada numa prateleira da parede, pôs-se a contemplá-la com enleio e vagar, ao passo que da sua parte o anão lhe deitava olhares inquietos e algo sombrios.
Pousara Inocência a cabeça no travesseiro e, para ocultar a perturbação de se ver tão de perto observada, fingia dormir. Pelo menos tinha as grandes pálpebras cerradas e o rosto sereno; mas arfava-lhe apressado o peito e, de vez em quando, fugaz rubor lhe tingia as faces descoradas.
Pereira tardava; e Cirino com os olhos fixos, a fisionomia meditativa e um pouco de palidez, que denunciava a intima comoção, não se fartava de admirar a beleza da gentil doente.
Uma vez, entreabriu os olhos e a medo atirou um olhar que se cruzou com o do mancebo, olhar rápido, instantâneo, mas que lhe repercutiu direito ao coração e lhe fez estremecer o corpo todo.
Sem saber por que, batia-lhe o queixo e um arrepio de frio lhe circulava nas velas.
—Sente mais febre? perguntou Cirino muito baixinho.
—Não sei, foi a resposta, e resposta demorada. —Deixe-me ver o seu pulso.
E tomando-lhe a mão, apertou-a com ardor entre as suas, retendo-a, apesar dos ligeiros esforços que para a retrair, empregou ela por vezes.
Nisto, entrou Pereira. Inocência fechou com presteza os olhos e Cirino voltou-se rapidamente, levando um dedo aos lábios para recomendar silêncio.
—Está dormindo, avisou com voz sumida.
—Ora, disse Pereira no mesmo tom, a tal Maria Conga deixou entornar a cafeteira, de maneiras que precisei fazer outra porção. Demorei muito? —Não, respondeu Cirino com toda a sinceridade.
—Mas agora, observou Pereira, é mister acordar a pequerrucha. —Não há outro remédio.
Chegou-se o pai à cama e, com todo o carinho, chamou: Nocência! Nocência!
E como não a visse despertar logo, sacudiu-a com brandura ate que ela abrisse uns olhos espantados.
—Apre! Que sono! disse o bondoso velho. Num instante que fui lá dentro?!... Vamos, são horas de tomar a mezinha.
Deitara Cirino sulfato de quinina no café e diluía-o vagarosamente.
—Olhe, dona, aconselhou ele, beba de um só trago e chupe, logo depois, uns gomos de limão-doce.
—Então é muito mau? choramingou a doente.
—É amargo; mas num gole mecê toma isto.
—Papai, recalcitrou a moça, não quero... eu não quero.
—Ora, filhinha do meu coração, não se canhe; e preciso... Amanhã há de você sentir-se boa; não é doutor?
—Com certeza, se tomar esta poção, assegurou Cirino.
—Depois, quando eu u lá à vila, hei de trazer para você uma coisa bonita...
uns lavrados, Ouviu?
—Nhor-sim.
—Ande, Tico, acrescentou o mineiro voltando-se para o anão, vai depressa buscar limão-doce; na cozinha há um meio cascado.
—Tome, dona, implorou por seu turno Cirino, aproximando o pires da boca da formosa medicanda.
Levantou uns olhos súplices e, agarrando resolutamerte o remédio, bebeu-o todo de um jacto.
Depois deu um suspiro de enjôo e ficou com os lábios entreabertos, à espera que o adocicado sumo do limão lhe tirasse o amargor do medicamento.
—Então, exclamou Pereira, era maior o medo que a coisa em si! Você tomou a dose numa relancina.
—Amanhã de manhã, ou melhor, hoje de madrugada, temos que engolir outra dose,. declarou Cirino. Depois, a dona, poderá levantar-se.
—Ainda outra? protestou Inocência com gesto de amuo.
—Nhã-sim; é de toda a percisão, replicou o amoroso médico, modificando pela suavidade da voz a dureza das prescrições.
—Decerto, corroborou também Pereira.
—Depois deve mecê deixar de comer carne fresca, ervas, ovos ou farinha de milho por um mês inteiro, e de provar leite por muito tempo. Há de sustentar-se só de carne-de-sol bem seca, com arroz quase sem sal e por cima tomará café com muito pouco doce.
—Fica ao meu cuidado, asseverou Pereira, olhar para o rejume .
—Agora, durma bem e não se assuste de lhe aparecer zoeira nos ouvidos e ate de se sentir mouca. Isto é da mezinha; pelo contrário, é muito bom sinal.
—Estes doutores sabem tudo, murmurou Pereira, dando ligeiro estalo com a língua.
Não se descuidou Cirino, antes de se retirar, de novamente tomar o pulso e, à conta de procurar a artéria, assentou toda a mão no punho da donzela, envolvendo-lhe o braço e apertando-o docemente.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TAUNAY, Visconde de. Inocência. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17500 . Acesso em: 28 fev. 2026.