Por Franklin Távora (1878)
Eles não estavam também longe da verdade no tocante ao moral do padre Antônio. Grande era a sua humildade, publica a sua piedade, notória a sua benevolência, de que todos davam noticia no Recife, em Olinda, e na Paraíba, donde viera para Goiana, fazia poucos meses. Com serem frades, gente de seu natural maldizente – estes sim – os do Carmo de Goiana que o conheciam, nada contavam dele que o desabonasse. Só um deles – vejam o que são frades – explicava a secularização do padre Antônio dizendo que, realizando-a, não o fizera ele com outro fim que o de desimpossibilitar-se para herdar muitos mil cruzados de uma tia solteirona que lhe votava grande afeição. O certo é que a tia morreu, e o padre foi o único herdeiro da fortuna deixada.
O que o padre Antônio era, quais os seus sentimentos e dotes naturais, sua piedade, seu intimo ver-se-há melhor pela presente narrativa.
Lourenço sentiu inclinarem-se para o sacerdote os seus afetos, e teve por ele instintivo respeito. Por sua vez, o padre Antônio, que parecia saber já a historia do rapaz, não perdia ocasião de o encaminhar para a honestidade e a virtude com a satisfação que enche o coração do varão reto quando se lhe depara a quem beneficiar.
Lourenço parecia tão mudado, seus sentimentos eram tão diferentes dos que trouxera da povoação para a estrada, que dificilmente o padre Antônio acreditou tivessem sido praticadas pelo rapaz as feias ações atribuídas ao menino.
- Como é possível que a gente se transforme de semelhante modo? Dizia ele uma vez a Francisco. Ainda se tivesse recebido depois desses desatinos saudável educação...
- Pois é o que digo a seu padre – respondeu o matuto. Lourenço parecia ter o inimigo no couro. Eu nunca vi menino tão endiabrado. Agora, quanto a ensino, o que ele recebeu foi o que lhe deu minha companheira; e parece que não foi mau, porque o rapaz já está outro.
- Bom ensino foi o que lhe deu tua mulher, Francisco. As mulheres são muito próprias para isso. Quando elas querem, ninguém tem melhores meios de endireitar as voltas de uma índole torta e defeituosa.
- Dai a pouco, o padre, como se tivera um pensamento súbito, uma resolução heróica, acrescentou:
- Quero prestar a vocês um serviço, que não é preciso me agradeçam, visto que tenho o dever de proceder assim. Quero completar a obra que levaram tão adiante. Vou ensinar a Lourenço as primeiras letras. Lourenço, que já está bom, ficará melhor. Que dizes?
- Ho, seu padre! retorquiu o matuto, cujo semblante pareceu iluminar-se do reflexo de prazer que lhe vinha do intrínseco da alma. Não tenho expressões para agradecer a vosmecê tamanho beneficio. Quem me dera ver meu filho lendo carta-de-nomes. Eu já me contentava com isso só, porque quem lê carta-de-nomes, pode chegar a ler um livro e escrever umas regras no papel. Deixa o rapaz, por minha conta, Francisco. Hei de ensinar-lhe a ler e a escrever. Não é preciso que te mostres desde já tão agradecido por um serviço que ainda não fiz, e que, se grande valor deve ter para quem o recebe, nada custa a quem o faz; antes é seu dever presta-lo. Vai para tua casa e dize lá á tua mulher que todos os dias logo cedo – comecemos segunda-feira – mande cá o rapaz a passar comigo algumas horas. Não é preciso mais. - Seu padre...seu padre... Deus é que lhe há de pagar esta obra de caridade.
No dia aprazado, antes do menino entrar na casa do padre para receber a primeira lição, já Marcelina tinha levado pessoalmente umas macaxeiras, uma galinha gorda e duas dúzias de ovos para almoço do ilustre vizinho, e jurado, com a eloquência dos sorrisos e das lagrimas simultaneamente, gratidão eterna e infinita àquele que se mostrava tão bom e generoso para a obscura criatura.
- Para que isto, Marcelina? Inquiriu o padre, quando ela lhe fez entrega do presente. Eu ensino de graça e não por paga. Fica sabendo que ainda sem os teus mimos, hei de fazer este serviço ao pequeno. É obra de misericórdia ensinar os ignorantes. Além disso, pelo meu sagrado ministério, tenho obrigação rigorosa de lançar nas trevas do espirito infantil a pouca luz que tiver a meu alcance. Olha. Diz-me o coração que Lourenço ainda há de ser almotacê em Goiana.
- Deus o queira, seu padre, Deus o queira.
E porque não há de querer? Lourenço já está bom. Hoje já é merecedor das bençãos do céu, e da proteção dos homens de bem.
O que Lourenço poz por obra na manhã supramencionada, vem desmentir este conceito e palavras de seu mestre.
Tendo vagado durante algum tempo em busca de sambaquis, por dentro da mata, foi ele dar em uma trilha que lhe era ainda desconhecida. Tomou por ela, e, quando menos pensava, deu consigo em um cajueiral que se perdia de vista. De um lado aparecia uma casa de palha, e por entre o arvoredo, em parte bastantemente destruído pelos machados dos lenheiros, foi descobrindo imensos socavões, de alguns dos quais saiam ainda novelões de fumo negro. O rapaz reconheceu que se achava nas carvoeiras onde tempos atrás lhe tinham ido tão mal as coisas.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.