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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

Contava com um saldo das remessas que havia feito de Pernambuco, e dos atrasados que deixara a cobrar. Esbarrou-se porém com um alcance superior a dois mil cruzeiros; ao qual o correspondente começava a contar um juro de 12%. Seixas compreendeu a eloqüência dessa taxa que significava uma intimação de imediato pagamento. 

Ao escurecer, tomando à casa para trajar-se, pois tinha de ir a uma partida, achou três cartas, que haviam trazido em sua ausência. 

Uma era do Amaral. Enchia duas laudas; dizia muito, mas nada concluía; verdadeiro logogrifo epistolar, cuja decifração o autor deixava à perspicácia do Seixas. Em suma o pai de Adelaide escrevera uma folha de papel para preparar o pretendente a um próximo arrependimento da promessa. 

Quem estivesse traquejado no trato do Lemos, conheceria naquela prosa o seu estilo, pintalegrete, como o seu físico. 

As duas outras cartas eram simplesmente umas contas avulsas, mas não insignificantes, que Seixas deixara ao partir para Pernambuco, e de que já não tinha a menos idéia. Elas se faziam lembrar com laconismo brutal desta verba:

- Importância de sua conta entregue o ano passado – Cr$ etc. 

Fernando amassou as três missivas em uma pelota que arremessou ao canto. A ruptura do ajuste de casamento, que em outra circunstância porventura o contentaria com a restituição da liberdade e responderia a um oculto desejo, naquele instante o acabrunhou. Viu nesse fato a prova esmagadora da ruína que ia tragá-lo e de que eram documentos as contas não pagas e as dívidas acumuladas. 

Na reunião, onde foi passar a noite, esperava-o a última decepção. 

Aceitando a comissão em Pernambuco, Seixas alcançara a promessa de na volta continuar com a sinecura da recopilação das leis; mas nessa manhã apresentando-se na secretaria surgiram certas dúvidas. Confiou em seus protetores. 

Apenas chegado o ministro que era um dos convidados, despachou-lhe Fernando, um após outro, seus melhores empenhos dos dois sexos. Caso inaudito; o excelentíssimo foi inflexível; por força que andava aí volta de alguma intriga. 

Era um desfalque de mil e seiscentos cruzeiros nos rendimentos, e quando as urgências mais avultavam. Decididamente a mão do destino pesava sobre ele e o punia severamente dos pecadilhos da mocidade. 

Quando Seixas achava-se ainda sob o império desta nova contrariedade, apareceu na sala a Aurélia Camargo, que chegara naquele instante. Sua entrada foi como sempre um deslumbramento; todos os olhos voltaram-se para ela; pela numerosa e brilhante sociedade ali reunida passou o frêmito das fortes sensações. Parecia que o baile se ajoelhava para recebê-la com o fervor da adoração. 

Seixas afastou-se. Essa mulher humilhava-o Desde a noite de sua chegada que sofrera a desagradável impressão. Refugiava-se na indiferença, esforçava-se por combater com o desdém a funesta influência, mas não o conseguia. 

A presença de Aurélia, sua esplêndida beleza, era uma obsessão que o oprimia. Quando, como agora, a tirava da vista fugindo-lhe, não podia arrancá-la da lembrança, nem escapar à admiração que ela causava e que o perseguiu nos elogios proferidos a cada passo em torno de si. 

No Cassino, Seixas tivera um reduto onde abrigar-se dessa cruel fascinação. Ocupara-se de Adelaide, que então ainda o tratava como noivo; e desfizera-se em atenções e requestos, para não deixar presa à preocupação. 

Nessa noite, porém, obrigado a afastar-se da moça, com quem estavam rôtas suas relações, ele não sabia o que fizessem e pensava em retirar-se aterrado com a idéia de tornar-se o ludíbrio daquela mulher fatal, quando ouviu uma voz que o agitou. 

Ao voltar-se tinha diante de si Aurélia pelo braço de Torquato Ribeiro; e Adelaide conduzida por Alfredo Moreira. Seixas quis retirar-se; mas estava em uma estreita saleta, e um grupo de senhoras impedia-lhe a passagem. 

- Proponho-lhe uma troca, D. Adelaide. 

- Qual é, D. Aurélia? 

- Troquemos os pares. Aceita? 

Adelaide corou observando timidamente:  

- Podem ofender-se. - Não tenha susto. 

Aurélia deixou o braço de Torquato e tomou o do Moreira que exultou como se imagina. 

- Esta troca é paga da outra que fizemos, ou que fizeram por nós; ouviu, D. 

Adelaide? 

Soltando estas palavras com um riso argentino, Aurélia perpassou pelo semblante de Seixas o olhar sarcástico e imperioso. 

Fernando saiu desesperado. Compreendera que Aurélia escarnecia da repulsa que ele sofrera, e triunfara com seu infortúnio. Esta irrisão depois dos transtornos econômicos fezlhe o efeito de um cautério aplicado ao talho. 

Lembrou-se da moça dos cem mil cruzeiros, que lhe haviam proposto na véspera. Para ostentar sua riqueza nos salões, diante dessa mulher enfatuada de seu ouro, valia a pena casar-se, ainda mesmo com uma sujeita feia e talvez roceira. A roça é o viveiro de noivas ricas onde se provê a mocidade elegante da corte; daí vinha a suposição de Seixas. 

(continua...)

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