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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

Por esse tempo continuavam os pedidos e admoestações a Guida para abandonar seu projeto; mas ela, indiferente ao que diziam em torno, a princípio rira do susto dos outros; mas agora, muito irritada contra “Edgard” por ter recuado, castigava o animal que girava corcoveando. A amazona, forcejando para trazê-lo à borda do barranco, afinal o conseguiu, mas de uma maneira bem desastrada. 

Com efeito, pungido ao mesmo tempo pelo freio e pelo chicote, perdera a sua calma habitual; irritou-se, e obrigado a fazer o que lhe repugnava, caminhava para o despenhadeiro, disposto, não a descer, mas a precipitar-se. 

Felizmente Ricardo chegara a tempo. Inclinando-se, pôde segurar “Egard” pelo freio, quando já levantava as mãos para pular. Obrigou-o então a voltar-se para o leito da estrada, e disse simplesmente à moça: 

- Não desça! 

Guida ficou imóvel acompanhando com os olhos o “Galgo”, que descia com admirável agilidade e firmeza o sinuoso barranco. Só havia para apoio do casco a estreita borda do sulco, por onde dificilmente andaria um homem a pé: e contudo o cavalo desceu e subiu sem vacilar um passo, com plena confiança na força e na elasticidade de seus músculos. 

Todas as pessoas que faziam parte da cavalgata acompanharam a descida e ascensão com surpresa e interesse. Os mais nervosos estremeciam com a idéia da desgraça, que podia acontecer ao desconhecido. Os outros sentiam uma comoção análoga à que lhes despertaria uma briga de galos, uma corrida de cavalos, ou talvez uma representação no circo. 

Ricardo tinha partido do arbusto duas ou três hastes com flor. Era a mesma flor cor de ouro, que ele costumava colher nos seus passeios a pé, e que já por duas vezes fora testemunha de seu encontro com a moça. 

Quando o cavalo, correspondendo dignamente ao nome, galgou com ligeireza o caminho, o advogado apresentou à moça o ramalhete que tinha colhido, e fazendo um cumprimento geral, apartou-se rapidamente da alegre cavalgata. Ao passar entre os cavaleiros, ouviu uma voz que o chamava pelo sobrenome: 

- Adeus, Nunes! Aposto que já não te lembras de mim? 

O advogado reconheceu um de seus colegas de ano, a quem não vira desde a formatura. 

- Ah! Guimarães? 

Trocaram um aperto de mão com algumas palavras banais, e separaram-se. 

Entretanto Guida, tendo prendido o raminho de flores no peito do roupão, continuara o passeio, acompanhada pelas outras senhoras e cavaleiros. Vendo aproximar-se o moço que pouco antes falara a Ricardo, dirigiu-lhe a palavra:

- Conhece este moço, Sr. Guimarães? 

- É o Dr. Nunes. Foi meu colega de ano. 

- Ah! Formaram-se juntos? 

- E se não me engano, fizemos ato no mesmo dia. 

- É bacharel?... disse Guida, como se completasse um pensamento interior. 

Supunha talvez que Ricardo era um artista, algum pintor que percorria os sítios da Tijuca para copiar perspectivas, que mais tarde lhe servissem de assunto a algum quadro a óleo. O álbum de desenho, que o moço trazia habitualmente nos seus passeios a pé, e a aquarela em que ela se julgara reconhecer, deviam com efeito induzi-la àquele engano.

- Foi um dos primeiros estudantes do nosso ano. Moço de grande talento, porém muito pobre; dizem até que foi o tio, o Dr. Costa, quem o ajudou a formar-se. 

- Que faz ele agora? Perguntou a moça com interesse. 

- Não sei. Creio que está aqui advogando; mas perde o seu tempo; não faz nada.

- Por quê? Não tem talento? 

- Mas de que lhe serve se ninguém o conhece? Servia-lhe mais ficar com metade do talento que tem, e a outra metade de proteção. 

- Como proteção? 

- Ora: negociantes que lhe dêem boas causas e o recomendem a seus amigos. 

A moça, lançando um olhar para o cimo da montanha que se desenhava no horizonte, mudou de repente o tom e o assunto da conversa. 

- A Pedra Bonita ainda fica muito longe? Disse ela nesse dúbio tom que vacila entre uma interrogação e uma afirmativa. 

- Falta um bom pedaço. 

- Ainda não passamos o Carneiro. O melhor é voltarmos; já está o sol tão quente! Hoje saímos muito tarde. 

- Como quiser! 

- Vamos voltar? perguntou a moça virando-se para consultar as amigas. 

As opiniões dividiram-se; alguns desejavam a continuação do passeio apesar do tempo perdido com o episódio da flor; outros porém julgavam que era mais prudente voltar, à vista da hora adiantada e do intenso calor.

- Que horas são? perguntou uma senhora. 

- Meia antes do almoço, respondeu Guida sorrindo.

- Neste caso voltemos! Gritou a oposição. 

Guida exagerava no interesse de sua causa. O almoço foi servido quarenta minutos depois, às dez horas em ponto. Cercavam a mesa perto de trinta pessoas. 

(continua...)

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