Por José de Alencar (1875)
— No sertão os homens ou são irmãos ou inimigos. E quantas vezes não tirei eu das garras da onça uma rês sem dono? Não me tem, pois, a menor obrigação, Aleixo Vargas; nem me deve reconhecimento. Mas sempre o conhecí, desde que chegou à fazenda, como homem bom e verdadeiro, diferente da maior parte de seus companheiros. Foi isso que me fez seu amigo.
— Obrigado, rapaz! disse o colosso enternecido.
— E é como seu amigo que vou falar-lhe. Ontem à tarde, quando o capitão-mór chegava à Oiticica, encontrou uma grande queimada no mato do caminho.
Arnaldo fitou o olhar severo no semblante do colosso:
— O fogo, foi você quem o deitou, Aleixo Vargas, por detrás da cabana do Jó, junto ao rasto do velho que vai ser acusado por essa maldade.
— Fui eu mesmo! respondeu Moirão erguendo-se.
— O capitão-mór e a família podiam estar agora reduzidos a cinzas.
— Se não fosse o danado do vento que empurrou o fogo para a serra e não me deixou cercá-los, êles haviam de ficar bem torradinhos. Então o velho tarugo que tem três dedos de banha!… Que bom torresmo não daria!…
O Moirão soltando essa pilhéria esparramou a cara em um riso alvar.
— Não lhe pergunto, Aleixo Vargas, a razão que, do homem bom que você era, fez ontem um malvado. Em tempo dará suas contas a Deus. Mas aviso-lhe, eu Arnaldo, o sertanejo, que, se descobrir mais seu rasto a uma légua em roda da Oiticica, vou por êle até onde o encontrar. E nessa hora pode encomendar sua alma.
— Como se entende isto? disse o Moirão fustigado pela ameaça.
— Qualquer outro que tivesse praticado sua façanha já não estaria aquí, porém amarrado por minha mão na polé da fazenda e entregue à justiça do capitão-mór. Um amigo é diferente: não o trairei jamais denunciando-o, e ainda menos abandonando-o ao poder de estranhos. Se êle ofenderme, decidiremos essa questão, entre nós, lealmente.
Aleixo quis falar. Atalhou-o o sertanejo com o gesto vivo:
— Ouça-me. Você é um homem de fôrça e um homem de vontade, Aleixo Vargas. Antes de lhe dar êste aviso, quis mostrar-lhe que tinha poder de cumprir minha palavra, porque de dois homens que se estimam e se acham em luta convencidos ambos que têm razão, o mais fraco deve ceder ao mais forte.
— Visto isto tem-se você na conta de mais forte? perguntou Aleixo.
— Não sei o que chama fôrça, Aleixo; para mim fôrça é poder. Mais volumoso do que você é um touro, que o vaqueiro derruba com dois dedos.
— Que venha para cá êsse tal vaqueiro duma figa! exclamou Aleixo abespinhando-se.
Arnaldo deixou passar a refega; e continuou com a voz breve, imperativa, mas calma:
— Se você fosse o mais forte, eu não empregaria a astúcia, como faria contra um estranho ou um inimigo. Embora me custasse, respeitaria sua vontade desde que não podia vencê-lo de frente. O mais forte, porém, sou eu; e proíbo-lhe que de agora em diante se aproxime da Oiticica na distância de uma légua.
O sertanejo erguera a fronte com um assomo de indômita altivez. Nesse momento iluminava-lhe a nobre fisionomia um reflexo dessa majestade que avassala o deserto, e que fulgurava nos olhos do cavaleiro árabe e do guerreiro tupí.
Moirão calou-se um tanto enquanto ruminava as idéias.
— Lá vai, rapaz; escute bem. Que você tem partes com o diabo e ligou-me, é coisa que está se vendo; nem lhe vale nada esconder o pé de cabra aí nessa bota esquerda.
Arnaldo sorriu-se da superstição do companheiro:
— Como é que um enguiço de gente podia derrubar um homem desta marca, se não tivesse o diabo no couro? Isto com certeza. Mas hei de arranjar por esta redondeza um bom amuleto que tenha a virtude de fazer espirrar o demo do corpo de qualquer criatura, por mais que êle se lhe meta nas tripas. Depois do estouro, então veremos quem é o dunga.
— Eu também tenho o meu! disse Arnaldo a sorrir, mostrando o relicário que trazia ao pescoço.
— Ah! é aí que está a mandinga. Pois eu hei de tirar-lhe o feitiço.
— Que mais? perguntou motejando o sertanejo.
— Agora quanto à camaradagem, isso é caso diverso. Se você carece do braço de um homem ou mesmo da vida para coisa de seu serviço, nem precisava destas partes: não lhe dava senão o que já lhe pertence. Mas o que você pede, Arnaldo, não posso fazer.
O Moirão carregou a manopla ao peito que arfou como o desabe duma montanha e arrancou estas palavras com um surdo estertor, segurando o lóbulo da orelha direita.
— Estou deshonrado. Jurei por esta orelha que, se não a vingasse antes de um mês, havia de cortá-la para que não vejam nela minha vergonha. Ah! você não sabe, Arnaldo.
— Sei! disse o sertanejo pousando a mão no ombro do companheiro com um gesto severo e triste.
— Quem lhe contou?
— Ninguém. Eu vi.
O Moirão escancarou os olhos espantado e benzeu-se outra vez. Não era êle dos mais supersticiosos, porém os modos estranhos do sertanejo naquela manhã despertavam em seu espírito as abusões da época.
IX – Puxão de orelha
Enquanto o Moirão esconjurava o espírito maligno, que via diante de si, na figura do rapaz, Arnaldo recolheu-se um instante.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.