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#Romances#Literatura Brasileira

Garatuja

Por José de Alencar (1873)

Situada no cimo do Morro do Castelo, onde o seu esqueleto ainda em pé campeia sobre a baía, e onde assentou-se a primitiva povoação, a Igreja de São Sebastião, símbolo da expulsão dos franceses e conquista da terra, tinha para o povo fluminense um caráter legendário. Aí estavam, naqueles muros, arquivadas as primeiras e gloriosas tradições da sua cidade. Esse templo fora como o berço da religião para a nascente colônia. 

Mas contra esse generoso sentimento do povo surgiu como sempre sucede, o fermento do egoísmo que subleva a camada superior da sociedade. Com o incremento natural da população, foi a cidade descendo das encostas da colina e estendendo-se pelas várzeas que a rodeavam, sobretudo pela orla da praia que cinge o regaço mais abrigado da formosa bata, e corre em face à Ilha das Cobras. 

Aí, fronteiro ao ancoradouro dos navios, com o fomento do comércio, se ergueram as tercenas e os cais, onde não tardaram a agrupar-se em volta das casas das alfândegas e dos contos as lojas e armazéns dos mercadores. Após essas, embora já mais arredadas da beira-mar, vinham as outras classes trazidas pelo desejo de estarem mais próximas ao centro do povoado, onde é mais ativo o tráfego. 

À medida que a cidade abandonava as alturas para se espraiar na planície, a Matriz ia ficando longe para os moradores do bairro mais povoado. As ladeiras do Castelo, principalmente a do Beco do Cotovelo, primam no íngreme da rampa, talhadas como foram pelo molde das escadinhas e ziguezagues de Lisboa e Porto. Galgar uma subida dessas, em horas de soalheira, e na força do verão, é uma estafa capaz de arrefecer a mais sincera devoção. 

Solitária no alto do morro histórico, em face dos bastiões aluídos do antigo castelo roqueiro; já isolada das residências do governador e ministros de El-Rei, outrora grupadas em torno dela, começou a velha Sé a ser desdenhada. Com exceção dos carolas e das beatas, a quem não faziam mossa nem o sol, nem a chuva, os fiéis buscavam de preferência para seus atos de devoção algum templo mais próximo; e só iam à Matriz nas festas da municipalidade ou para atos paroquiais. 

Com a sagração da Igreja de São José, que se acabara de construir, foi a velha Sé despojada de sua proeminência política; pois o Senado, por sugestão do governador e a empenho dos principais moradores, começou a celebrar “as festas do Estado”, como então se chamavam as nacionais, em o novo templo, que ficava na melhor posição. 

Então caiu a Matriz em completo abandono e desleixo, não conservando de sua primazia, como casa paroquial, mais do que um nome vão. Ao próprio domingo já não concorriam fiéis à missa paroquial: corriam os banhos e liam-se as excomunhões, para as paredes, que não havia na igreja viva alma. As festas da Páscoa e do Natal, únicas entre as anuais, que ainda ali celebravamse, para terem quem as assistisse, levava o vigário a sua negralhada, que o acompanhava mal contente por se ver privada de ir ao Colégio dos Padres ou a São Bento, onde havia outra pompa. 

Estavam as cousas neste ponto, quando empunhou o báculo o Doutor Almada; e visto por ele e examinado o caso, resolveu logo mudar a Sé para a ermida do patriarca São José. 

Mal constou a determinação, assanharam-se os homens da governança, despeitados com o prelado pela arrogância com que este dispunha em negócio de tanta monta e tão do interesse do povo, sem ouvir seus procuradores e conselheiros. 

XIV 

 

ONDE SE MOSTRA QUE SE OS POVOS SERVEM DE INSTRUMENTO,

  TAMBÉM OS REIS SERVEM ÀS VEZES DE PRETEXTO 

 

Ninguém mais do que o ilustríssimo Senado desejava a transferência da Sé, que em grande parte promovera, retirando da Igreja de São Sebastião os assentos dos camaristas. Se não a levara avante, fora pelo receio de desagradar a El-Rei, obrando em negócio que excedia a sua alçada. Agora, porém, o caso mudava de figura; e cumpria-lhe zelar na manutenção de seus privilégios, menoscabados pelo prelado. 

Preparados de antemão os bandos de sequazes, que usurpam o nome do povo, convocou-se sessão extraordinária para assentar no que mais convinha; e aí, em presença do governador, ouvidor-geral, provedor e oficiais da Câmara, levantou-se Francisco Pires Chaves, procurador do Conselho, para representar contra a mudança que à sua notícia chegara. E depois de bem exposto o caso, concluiu por este teor: 

 

“Basta que São Sebastião é o divino Padroeiro, por cuja proteção se tomou a cidade, obrando nessa empresa façanhas e milagres que os antigos experimentaram sensivelmente por sinais visíveis, e os presentes veneram por tradição viva na memória do povo. Essa eficaz proteção ainda agora a logramos, assim nas matérias de guerra, ficando esta cidade somente livre dos inimigos que invadiram todas as praças do Brasil; como também no tocante à saúde, livrando-nos de peste e contágio, como cada um por si tem testemunhado. 

(continua...)

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