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#Comédias#Literatura Brasileira

O Demônio Familiar

Por José de Alencar (1857)

AZEVEDO - Foge-me!...

PEDRO - Como vai paixão por nhanhã Carlotinha, Sr. Azevedo? Flor já está na dança!

AZEVEDO - Queria mesmo te falar a este respeito! Não entendo tua senhora. Tu dizes que ela gosta de mim et pourtant...

PEDRO - Parlez-vous français, monsieur?

AZEVEDO - Ela faz que não me compreende! Trata-me com indiferença.

PEDRO - Pudera não! O senhor vai se casar.

AZEVEDO - Ah! Tu pensas que é esta a razão!

PEDRO - Nhanhã mesmo me disse! Moça solteira não pode receber corte de homem que é noivo de outra mulher! É feio, e faz cócega dentro de coração; cócega que se chama ciúme!

AZEVEDO - Então é o meu casamento que impede!... E nem me lembrava de semelhante coisa! Com efeito, Henriqueta é sua amiga; ela julga talvez que a amo.

PEDRO - Mas isto não quer dizer nada. Ela gosta de V.Mce., gosta muito! Ontem, quando mandou essa violeta que o senhor tem na casaca, beijou primeiro.

AZEVEDO - E foi ela mesmo quem se lembrou de mandar-me?

PEDRO - Ela mesma, sem que eu pedisse nada!

AZEVEDO - Bem; eu sei o que me resta a fazer.

PEDRO - Já vai? Não espera por sinhá velha?

AZEVEDO - Não, eu já volto. E, preciso tomar uma resolução: il le faut!

PEDRO - Monsieur está pensando!

AZEVEDO - Diz a D. Carlotinha... Não, não lhe digas nada! Eu quero ser o primeiro a anunciarlhe.

CENA VIII

PEDRO, JORGE

PEDRO - Oh! Já voltou do colégio? Agora mesmo deu meio-dia.

JORGE - Tive licença para sair mais cedo.

PEDRO - Nhonhô já sabe novidade?

JORGE - Que novidade?

PEDRO - Novidade grande! Sr. moço Eduardo vai casar com nhanhã Henriqueta!

JORGE - Ah!... E o noivo dela?

PEDRO - Sr. Azevedo? Casa com nhanhã Carlotinha.

JORGE - Mana?... E Sr. Alfredo?

PEDRO - Fica logrado. Para rematar a festa, velho Vasconcelos casa com sinhá velha.

JORGE - É mentira!

PEDRO - Há de ver!

JORGE - Então tudo se casa?

PEDRO - Tudo, tudo. Nhonhô também carece ver uma meninazinha bonita... Mas V.Mce. ainda não sabe namorar!...

JORGE - Eu não!

PEDRO - Pois precisa aprender, que já está franguinho. Pedro ensina.

JORGE - E tu sabes?

PEDRO (rindo-se) - Ora!... Nhonhô pede dinheiro a mamãe e compra luneta.

JORGE - Para quê?

PEDRO - Sem isto não se namora. Quando nhonhô tiver luneta, prende no canto do olho, e deita para a moça. Ela começa logo a se remexer e a ficar cor de pimentinha malagueta. Então rapaz fino volta as costas, assim como quem não faz caso; e moça só espiando ele. Dai a pouco, fogo, luneta segunda vez; ela volta a cara para o outro lado, mas está vendo tudo! Nhonhô deixa passar um momento, fogo, luneta terceira vez; ai moça não resiste mais, cai por força, com o olho requebrado só, namoro está ferrado. Rapaz torce o bigodinho... Mas V. Mce. não tem bigode!...

JORGE - Olha! Não tarda nascer!

PEDRO - Qual! Está liso como um frasco!

JORGE (ouvindo entrar) - Quem é?

PEDRO - Velho tabaquista!

JORGE - Que vai casar com mamãe.

PEDRO - Psiu! Não diga nada, não!

CENA IX

PEDRO, VASCONCELOS, JORGE

VASCONCELOS - Onde está esta gente! Henriqueta fica para jantar?

PEDRO - Sim, senhor; nhanhã Carlotinha não quer deixar ela ir.

JORGE (saindo) - Eu vou chamá-la!

VASCONCELOS - Não precisa. (A PEDRO) Dize-lhe que à tarde virei buscá-la.

PEDRO - V.Mce. vai para casa?

VASCONCELOS - Não; por que perguntas?

PEDRO - Porque Sr. Azevedo saiu daqui agora mesmo para ir falar a V.Mce.

VASCONCELOS - Sobre quê? Alguma coisa de novo?

PEDRO - Negócio importante. Pedro não sabe; mas ele parecia zangado.

VASCONCELOS - Ora, que me importam as suas zangas. 

PEDRO - Senhor não deve mesmo se importar; esse Sr. Azevedo tem uma língua... Sabe o que ele disse?

VASCONCELOS - Não quero saber.

PEDRO - Disse a Sr. moço Eduardo, a casa estava cheia de gente, disse que Sr. Vasconcelos é um... nome muito ruim!

VASCONCELOS - Um que, moleque?

PEDRO - Um pinga!

VASCONCELOS - Hein!... Não é possível!

PEDRO - Ora! Aquele moço não tem respeito a senhor velho. (Faz uma careta.)

VASCONCELOS - Pois hei de ensinar-lhe a ter.

PEDRO - Precisa mesmo, para não andar enchendo a boca de que comprou filha de senhor com seu dinheiro dele.

VASCONCELOS - Comprou minha filha! Ah, miserável! (Batem palmas.)

PEDRO - Pode entrar.

 

CENA X

Os mesmos e ALFREDO

PEDRO (a ALFREDO) - V.Mce. espere, vou chamar Sr. moço Eduardo.

ALFREDO - Sim, dize-lhe que desejo falar-lhe com instância.

VASCONCELOS (a PEDRO) - Há muito tempo que ele saiu?

PEDRO - Sr. Azevedo?... Agora mesmo.

VASCONCELOS - Vou à sua procura. Preciso de uma explicação.

CENA XI

PEDRO, ALFREDO

PEDRO - O velho vai deitando azeite às canadas! Noivo da filha virou de rumo e agora só quer casar com nhanhã Carlotinha.

ALFREDO - Oh! Ele pode desejar todas as mulheres, é rico! 

PEDRO - Não sei também; essas moças... têm cabecinha de vento; um dia gostam de um, outro dia gostam de outro. Nhanhã, que esperava todo o dia para ver Sr. Alfredo passar, nem se lembra mais; escreveu aquela carta a Sr. Azevedo!

ALFREDO - Se não fosse essa carta, eu ainda duvidava!... 

PEDRO - V.Mce. bem viu, no domingo, ela me dar à sua vista, e eu entregar na rua a ele, a Sr. Azevedo.

(continua...)

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