Por José de Alencar (1870)
— Tive então, continuou o mancebo com acento profundo e comovido, tive, então, e depois, a prova de que esse enlevo de meu ser. essa abstração de minha existência para absorver-se noutra, era a atração moral e nada mais. Via, admirava, adorava na senhora uma coisa somente: sua alma. Não sabia, ainda hoje não sei, se a mulher que eu amo é bonita para os outros; sei que para mim é de uma beleza divina. Perdesse ela a graça e a formosura que aos outros seduz, para mim seria a mesma; eu havia de adorá-la com o mesmo ardor. Sua alma é filha de Deus, e como ele de uma magnificência imortal. É uma estrela que não tem eclipse.
Leopoldo inclinou a fronte para falar quase ao ouvido da moça:
— Outrora julgava impossível que se amasse o horrível. Agora reconheço que tudo é possível ao amor verdadeiro, ao amor puro e imaterial. Não só reconheço, mas sinto-me capaz de nutrir uma dessas paixões mártires! Oh! sinto-me capaz de amar o anjo ainda mesmo encarnado em um aleijão! . . .
Leopoldo falou ainda por muito tempo de seu amor a Amélia, sem que ela se animasse a interrompê-lo. Aquela palavra ardente, impetuosa, embora vendada por certo pudor d'alma, a subjugava; ela não tinha coragem, nem mesmo vontade de subtrair-se à sua influência.
Quando Amélia, conduzida por Leopoldo, se dirigia a uma cadeira, D. Clementina aproximou-se:
— Ah! Eu queria apresentá-lo, disse a Leopoldo; mas não teve paciência para esperar.
Depois reclinando ao ouvido de Amélia, perguntou-lhe:
— Então? Não lhe disse que a achava muito bonita?
— Ao contrário, D. Clementina; deu-me a entender que me acha horrível.
— Ande lá.
— Deveras!
— É impossível.
Amélia, sentando-se, evocou a lembrança de Horácio, para fazer no seu espírito o paralelo entre o elegante leão e o estranho mancebo com quem acabava de dançar. Um tinha todas as prendas que seduzem a imaginação: era formoso, trajava com esmero, conversava com muita graça. O outro não possuía nenhum desses atrativos; seu exterior alheava as simpatias; quando falava difundia a tristeza no espírito dos que o escutavam.
A moça não concebia que se preferisse Leopoldo a Horácio; e contudo não podia esquivar-se completamente à influência daquela imagem pálida, que lhe aparecia no meio dos sonhos mais brilhantes.
Muitas vezes, depois de algumas horas agradáveis passadas junto do leão, quando a moça, recolhida à sua alcova, repassava na memória os doces protestos de amor que ainda lhe ressoavam ao ouvido, de repente surgia a lembrança de Leopoldo.
Parecia-lhe então que da fronte do mancebo se desprendia uma sombra para anuviar seus pensamentos risonhos.
Horácio, sabendo onde Amélia passava as noites em que ele a não via, mostrara desejos de freqüentar a casa de D. Clementina; a moça porém opôs-se. Duas razoes atuaram em seu espírito.
Aquela casa servia-lhe de abrigo contra a sedução que exercia em seu espírito a elegância de Horácio. Quando sentia-se vencida, fugia para ali, onde recobrava forças para resistir de domar completamente o leão, soberbo de suas conquistas passadas.
Era essa uma das razoes; a outra era o receio de achar-se em face dos dois moços, repartida entre a sedução de um e a fascinação do outro. Pressentia que desse conflito, resultaria alguma coisa, que ela não podia definir, mas que a enchia de sustos e inquietações.
Por isso exigiu de Horácio que não fosse à casa de D. Clementina:
— Costumam lá ir algumas dessas pessoas que se ocupam em inventar novidades Sua apresentação, Sr. Horácio, daria pretexto a algum romance.
— Mas por que ainda freqüenta semelhante casa?
— Pedidos... bem sabe; nem sempre uma pessoa se pode recusar. Mas se o senhor aparecer lá, eu deixarei de ir.
— Esteja tranqüila.
Amélia continuou a passar de vez em quando uma noite em casa de D Clementina. A princípio não tinha dia certo, e sucedeu por isso que Leopoldo desencontrou-se dela duas vezes. Uma noite porém o moço perguntou-lhe:
— Vem sábado?
— Talvez.
Desde então o dia escolhido era o sábado, a menos que não precedesse aviso especial da dona da casa para alguma partida.
Nunca mais houve desencontro; Amélia achava sempre o mancebo no seu posto, defronte da porta para vê-la entrar.
Em uma dessa noites deu-se um incidente que é preciso referir.
Falava-se a respeito de uma senhora casada, a quem o marido causava sérios desgostos. Pessoa que sabia das particularidades dessa família explicava o fato à sua maneira.
— Ela era muito linda, o marido a adorava; casou-se por paixão. Poucos dias depois de casada, teve ela uma grave moléstia que a reduziu àquele estado. Não há paixão que resista!
— Com efeito, sabe ser feia!
— Ninguém acreditará que foi bonita.
— Pois foi uma beleza.
Leopoldo, que ouvia calado, interveio:
— O marido nunca a amou!
— Asseguro-lhe que teve uma paixão louca.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. A Pata da Gazela. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16673 . Acesso em: 8 jan. 2026.