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#Comédias#Literatura Brasileira

Uma Pupila Rica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1840)

Júlia É inútil pensar no meu casamento com Teófilo, se Corina não se casar com o doutor André.

Firmino Oh! Dir-se-ia uma conspiração geral!... é a guerra no seio da família... Teodora, livra-me de Júlia.

Teod.

Estás afligindo teu pai; vem, menina. Carlos...

Carlos Eu vou trabalhar no meu romance. (vão-se os três)

Cena 7ª

Firmino e Peregrino

Peregrino (a Firmino que vai entrar no gabinete) Meu pai.

Firmino Ah! Peregrino... se soubesses..

Pereg.

Sei tudo já: Teófilo é o noivo de Júlia, e de ajuste com esta e com sua pupila protege a causa do doutor André e lhe prepara o triunfo.

Firmino Pensas!... Teófilo...

Pereg.

A maquinação é patente: sei mais que a tia Suzana impelida por Corina.

Firmino Quem te informou de tudo?...

Peregr.

Foi Silvia, a criada de Corina, que me está dedicada.

Firmino Ah! Silvia... contanto que ela não venda também a outro essa dedicação, que sem dúvida lhe compraste: bem vês que devo desconfiar de todos... o nosso empenho vai mal, Peregrino...

Peregr.

Sim, meu pai, o dia é sinistro para mim. Simão de Souza fechou-me a bolsa, e deixei por isso de arrematar hoje dez escravos.

Firmino Fechou-te a bolsa?... E por quê? Peregr. Anteontem à noite Corina repeliu, como eu esperava, as suas pretensões... e... o que foi pior, e ninguém o suspeitaria, minha madrasta provavelmente com o fim de poupar a seu filho um rival a mais, confessou a Simão de Souza um segredo revoltante...

Firmino Qual?...

Peregr.

O de minhas relações de amor com a pupila de meu pai...

Firmino É falso! é impossível!... A desonra de Corina!...

Peregr.

Uma dose de veneno, que só a mim pode aproveitar: sem o querer minha madrasta me auxilia...

Firmino Peregrino! Teodora é incapaz dessa infâmia! Simão de Souza mentiu...

Peregr.

E se além dele mais alguém tivesse recebido a mesma confidência?...

Firmino Peregrino... isto é demais... é horrível... minha mulher é vítima de um aleive perverso...

Peregr.

Tranqüilize-se, meu pai... creio também que caluniam minha madrasta, cuja inocência há de brilhar a toda a luz; mas o ardil de Teófilo, a conivência de Júlia, a intervenção da tia Suzana, esse mesmo aleive perverso que ofende em sua esposa anunciam que a minha causa está perdida se não a salvarmos com o extremo recurso.

Firmino Sempre a idéia do rapto...

Peregr.

É o meio vulgar, mas infalível. (aparece Teodora)

Firmino E as conseqüências?

Peregr.

Realizado o rapto, o casamento com o raptor satisfaz a lei, e a sociedade o sanciona depois de murmurar alguns dias.

Firmino E eu?... Nunca pensas no tutor!...

Peregr.

Delineei plano seguro, no qual meu pai fica livre de toda a responsabilidade...

Cena 8ª

Firmino: Peregrino: e Teodora que tem parado à porta e vai logo entrar no gabinete.

Firmino Com efeito... as circunstâncias urgem, mas eu não quisera recorrer a esse crime...

Peregr.

Quem recorre sou eu. Meu pai é vítima da minha traição...

Firmino Se fosse exeqüível...

Peregr.

O meu plano?... Seguríssimo: eu lho exponho (vai fechar a porta de entrada depois de observar a do interior)

Firmino Não tranques a porta: vamos fechar-nos no meu gabinete.

Peregr.

Tem razão: é mais prudente. (vai-se: aparece Teodora à porta)

Firmino Teodora!

Peregrino (ao mesmo tempo e recuando) Oh!...

Teod.

Um rapto!!

Firmino Silêncio!... A senhora vai escutar-nos?... Teod. Eu vinha dizer-te que desisto de todos os meus intentos relativamente a Carlos e a tua pupila.

Firmino Melhor: está simplificada a questão. Teod. Vinha dizer-te que por amor de nossa filha a cujo casamento não devemos criar embaraços, te cumpre ir já tratar do consórcio de Corina com o amigo de Teófilo.

Firmino Ah!... Pois que Carlos se revolta, e te desobedece...

Teod.

Vinha dizer-te... mas ouvi a palavra rapto e quis saber tudo: escutei... sim... e o que fiquei sabendo é ignóbil.

Firmino Teodora!...

Teod.

A madrasta era indigna, talvez malvada, porque desejava casar o filho com uma jovem rica, e o enteado, (para Peregrino) e o senhor... é a alma cândida, santo mártir, quando prepara o plano do rapto da pupila de seu pai!...

Firmino Basta... basta...

Teod.

É um homem honesto, tipo de virtudes, exemplo de pureza, quando premedita a vergonha da própria família, a difamação da casa paterna...

Firmino Peregrino... retira-te! (Peregr. imóvel)

Teod.

É um filho modelo que atira às garras da maledicência; — o nome de teu pai, que faz da desonra de teu pai o fundamento da tua fortuna!

Firmino Ponhamos termo a esta cena... Teodora!...

Teod.

É um irmão sublime, que, comprometendo o casamento de sua irmã, quer pela infâmia do rapto arrebatar a riqueza de uma órfã que o despreza!...

Firmino Senhora!...

Peregr.

(continua...)

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