Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)
BRAZ – Tranqüiliza-te, Casimiro! estás que pareces desvairado! para mim são favas contadas; anteontem falei-lhe pela primeira vez e sabes já que houve trovoada e chuva; isto é, rugidos de cólera e lágrimas de dor...
CASIMIRO – Coitadinha!
BRAZ – Ontem de novo ataquei a fortaleza, e, como te disse, Irene defendeu-se com reticências... monossílabos... e enfim com um “saberá mais tarde” assobiado a tremer, que me fez ficar sabendo mais cedo...
CASIMIRO – Confia talvez demais na minha felicidade...
BRAZ – Tão seguro estou de conseguir o meu fim, que, obtida a permissão da mãe e do irmão de Irene, já alcancei todas as dispensas admissíveis para o casamento... em poucos dias teremos a boda.
CASIMIRO – Excelente amigo!... mas hoje?... tornaste a falar-lhe?...
BRAZ – Não há duas horas; Irene é como todas as moças; está morrendo por casar; mas faz-se de boa para ser muito rogada; insisti na história, e ela sorriu-se vaidosa... corou... vês?... foi como se começasse dizendo; “eu...” e pontinhos: depois suspirou... vês?... foi como se acabasse dizendo: “quero” com ponto final et coetera.
CASIMIRO – Mas... como, suspirou... isso já e muito, e todavia... pode não ser coisa alguma.
BRAZ – Enganas-te: isso é sempre alguma coisa. Irene caiu no laço; juro-te que desde dois dias o seu olhar, a sua fisionomia, os seus enleios, a sua respiração muitas vezes comprimida, estão denunciando noiva.
CASIMIRO – É verdade que ela ontem falou-me com uma perturbação...
BRAZ – Queres mais claro?
CASIMIRO – Eu queria... o sim decisivo...
BRAZ – Também eu quis, pedi-o, e exigi-o ainda há pouco.
CASIMIRO – E ela?...
BRAZ – Quis falar... hesitou... apertou-me a mão, feliz Casimiro! e enfim, depois de muita confusão... rosas de pejo nas faces... agitação palpitante do seio, et coetera, afortunado Casimiro! ela murmurou a custo: “Poupe-me ainda... farei por chegar um pouco cedo para o banquete de dª. Violante... e lá... se nos acharmos sós... o senhor me ouvirá... e ficará contente de mim.”
CASIMIRO – Oh! ela disse isso? que tu ficarias contente dela?... então é certa a minha dita, Braz! é a conseqüência...
BRAZ – Lógica, está claríssimo: o contrário fora absurdo et coetera; e por essa razão corri a esperá-la aqui; entendi-me com o irmão, que as acompanhará até a escada da varanda, e voltará depois.
CASIMIRO – Ah, meu Braz!
BRAZ – Traduzo ou interpreto: desejas ouvir a minha conferência com Irene.
CASIMIRO – Se fosse possível...
BRAZ – Vaidoso! vaidoso! é uma traição que a tua noiva me agradecerá; quando ela chegar, entra no teu gabinete, e da porta entreaberta ouvirás tudo. Feliz
Casimiro! eu ponho-me de sentinela. (Na janela) CASIMIRO – Muito padece quem ama!
BRAZ (A janela) – Com efeito um amor assim fora de tempo deve andar aos tombos pelas rugas do coração; mas a madrinha, que é oito anos mais velha do que nós, mostrou-te o caminho do casamento...
CASIMIRO – Que doida! que velha ridícula!
BRAZ – Desta vez é a madrinha que traz nos olhos a trave; mas o argueiro que está nos teus é de um tamanho colossal...
CASIMIRO – Eu sinto verdadeiro amor...
BRAZ – Também a madrinha diz que o sente; é questão de mais ou menos cabelos brancos nos dois amores... mas... Irene chega... como vem formosa! afortunado Casimiro! ao gabinete, perverso.
CASIMIRO (Entrando) – Conversa de modo que eu ouça distintamente. BRAZ – Podes contar com isso: conversarei fortíssimo.
CENA III
BRAZ, IRENE e CASIMIRO no gabinete
BRAZ – Minha senhora, dou parabéns à minha fortuna, pois que a madrinha e dª. Clemência ainda estão aprimorando os seus toilettes, e Casimiro e Mário provavelmente mostrando os seus.
IRENE – A fortuna de que fala é determinada pelo cruel dever de dar-lhe contas de mim ... compreendo que me cumpre falar, explicar-me, responder-lhe... mas custame... o vexame atormenta-me...
BRAZ – Na minha qualidade de homem é evidente que tenho menos vergonha e rompo a discussão, começando pelo fim, o que é mais em regra. Casimiro a adora; a sua mão de esposa vai aditar-me... uma só palavra sua resumirá mil discursos; diga – sim – , e está acabada não, mas principiada a história, e que história? et coetera.
IRENE – Devo ser franca: o sr. Casimiro está adiantado em anos e eu sou quase
menina; poderia sentir por ele somente amor filial; como lhe consagrarei amor de noiva? o nosso casamento seria muito desigual, e ainda isso é o menos.
BRAZ – Caio das alturas: pois há mais?... tenha a bondade de chegar-se para mim, que sou um pouco surdo (Perto do gabinete) pois há mais?
IRENE – Há: disse que ele é demasiado velho para uma noiva de dezoito anos...
tem três idades minhas.
BRAZ – Como?... esta surdez martiriza-me...
IRENE (Mais alto) – O sr. Casimiro tem três idades minhas.
BRAZ – Ah! isso é o menos: o que é o mais?...
IRENE – Pois que é necessário dizê-lo... confesso-o... eu já sou amada... e...
amo...
BRAZ – Como?...
IRENE (Mais alto) – Já sou ... e amo...
BRAZ – Ah! essa circunstância... bilateral é bilateralmente grave.
IRENE – E ainda mais...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Romance de uma Velha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2160 . Acesso em: 6 jan. 2026.