Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)
cinco vestidos de seda, um colar de pérolas e outro de brilhantes, dois pares de brincos, e uma flor das mesmas pedras, duas pulseiras, este relógio de ouro, um toilette completo de veludo carmesim, um leque de madrepérola, e este pince-nez... creio que não passou daí... eu o amo tanto que trago de memória os seus presentes...
UMA VOZ (Dentro.) – Cinqüenta mil réis.
CINCINATO (Dentro.) – Agora sim; eu sou dez.
OUTRA VOZ (Dentro.) – Cincinato joga por fora para pescar de caniço.
CINCINATO (Dentro.) – O pior é que muitas vezes vocês me comem a isca.
GERTRUDES – Cuidado com o Quebra-louça, Dionísia. Vê como ele é ladino...
DIONÍSIA – Está destinado a viver num inferno... começarei por obrigá-lo a convidar Adriano para cear conosco três ou quatro vezes por semana...
CENA VII
DIONÍSIA, GERTRUDES e BRÁULIO
BRÁULIO – A hora se aproxima... os dois carros já estão à porta. Dionísia, não nos deixes por mais de um mês... eu irei fazer as pazes contigo... tu voltarás.
DIONÍSIA – Desta vez com toda a certeza; porque vou-me com um homem tão feio, que é mesmo de obrigação reduzi-lo em pouco tempo a cambista de teatro.
BRÁULIO – Sangue frio e rapidez na execução da fuga: Fábio não nos atrapalha, porque conta com o negócio, mas Adriano está com os olhos no relógio...
DIONÍSIA – Coitadinho!
BRÁULIO – Dois minutos antes da meia-noite foge; acharás à porta da rua dois carros, sobe para aquele que é puxado por cavalos... olha, não te enganes.
DIONÍSIA – Bem: e depois?
BRÁULIO – O Cincinato, levando o rosto coberto com um lenço branco que é o sinal ajustado, subirá a assentar-se a teu lado... o carro partirá, e... adeus pombinhos!
feliz viagem, e boa noite.
DIONÍSIA – Com o diabo do feio!...
BRÁULIO – Que parvoíce! vai cantar, se quiseres: aposto! vamos.
GERTRUDES – Anda, afortunada rapariga! (Vai-se Bráulio para a esquerda.)
DIONÍSIA (Indo-se e cantando.) Batendo a linda plumagem
O amante passarinho
Exala ternos queixumes
Com saudades do seu ninho. (Vão-se pelo fundo.)
CENA VIII
CINCINATO e DEMÉTRIO – CINCINATO olha em torno cuidadoso.
DEMÉTRIO – Ora! quando o vento me soprava!... ganhei só trezentos e vinte mil réis.
CINCINATO – Tens, pois, quinhentos e vinte, e dou-te mais trezentos mil réis; levas dinheiro para oito dias de pagode rasgado: esta noite hotel ainda à minha custa, e amanhã sem falta segue com Dionísia para Petrópolis.
DEMÉTRIO – E se ela não quiser? ...
CINCINATO – Mostra-lhe a carteira e verás como ela aplaude o caso. Vai:
espera na rua... o lenço branco no rosto... salta para dentro do carro, logo que Dionísia embarcar, e o mais o cocheiro sabe.
DEMÉTRIO – Esta é mesmo de Quebra-louça.
CINCINATO – Vai, feliz substituto! dou-te dinheiro e amor.
DEMÉTRIO – Hás de ver o desempenho!... adeus. (Vai-se pelo fundo.)
CENA IX
CINCINATO e BRÁULIO
BRÁULIO – O Demétrio se retira cedo... parece que perdeu.
CINCINATO – Qual! ganhou: não faz idéia que perverso é ele! esta noite incomodou-me muito... digo-lhe que Demétrio e Dionísia se namoram... creio que os apanhei em segredinhos... e com certeza riram-se um para o outro com ar de inteligência!...
BRÁULIO – Dionísia é vaidosa e o senhor é ciumento: não faça caso disso. Ela está perdida pelo senhor; mas... é quase meia-noite: ultimemos a nossa transação particular.
CINCINATO – Os três contos de réis?... conte com eles à porta da rua, e quando Dionísia estiver dentro do carro. Sem o pássaro na gaiola não caio.
BRÁULIO – O senhor duvida da minha probidade? (Dá meia-noite.) Meianoite!
CINCINATO – Um minuto para Dionísia descer a escada... e corro...
BRÁULIO – E o meu dinheiro?...
CINCINATO – À porta da rua... venha comigo...
CENA X
CINCINATO, BRÁULIO e GERTRUDES
GERTRUDES – Dionísia foi-se...
CINCINATO – A pontualidade me enternece... vamos...
BRÁULIO – E o meu dinheiro?
CINCINATO – À porta da rua, (Roda um carro.) um carro que parte... oh!
vamos!... (Vão-se Cincinato e Bráulio correndo.)
CENA XI
GERTRUDES e ADRIANO
ADRIANO – Dionísia!...
GERTRUDES – Já desceu: sem dúvida o espera; mas...
ADRIANO – Oh! (Quer correr e Gertrudes o impede.)
GERTRUDES – Olhe que meu irmão correu a persegui-la... não se deite a perder.
ADRIANO – Deixe-me! ela me espera... (Partindo).
CENA XII
GERTRUDES, ADRIANO, CINCINATO e BRÁULIO
BRÁULIO – É uma infâmia!...
CINCINATO – Patifaria descomunal!... Dionísia fugiu com Demétrio! e o
senhor... o senhor... (Em simulado furor.)
ADRIANO – Dionísia! oh! Dionísia!... (Vai-se, correndo.)
CENA XIII
GERTRUDES, CINCINATO e BRÁULIO
GERTRUDES – Minha filha!... não entendo...
BRÁULIO – Entende! você é abelha mestra! você entrou nesta pouca vergonha!... (Gertrudes fica espantada) entrou!...
CINCINATO – E eu!... atraiçoado... ameaçado no meu dinheiro... ferido no coração... o golpe foi profundo... ingrata Dionísia!... fica declarado que ela... e os senhores... firma industrial, Dionísia & Cia me assassinam... fica declarado... Cincinato Quebra-louça assinado por cima de estampilha. (Cai, fingindo desmaiar) ah!...
BRÁULIO – E ainda em cima a zombaria!... foi uma conjuração... o senhor me há de pagar!... é um estelionato!...
CENA XIV
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Remissão de Pecados. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2159 . Acesso em: 6 jan. 2026.