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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

A casa brilhantemente iluminada, ostentando riqueza imensa e luxo desmedido, era, apesar de vasta, pequena para a multidão que a pejava.

O jogo, a dança, a música exerciam ali seu império em salas diversas, e sobre vassalos diferentes.

Aqueles a quem a idade ou o estado afastava do amor, e enfim os poucos de todas as idades e estados que eram escravos da mais terrível paixão, prestavam vassalagem ao jogo.

Os outros todos corriam para as salas de dança e música: lá estava a mulher.

Haviam sobre cem ainda muitas senhoras.

O estrangeiro curvava-se gostoso sob o poder dessas vistas ardentes jogadas pelos olhos negros das brasileiras. Ali o árabe lembraria baixinho suas canções aos olhos das gazelas...

Mas no meio dessas mulheres todas, entre mais de cinqüenta virgens belas em todo fulgor de verdes anos, com todo interesse de sua intacta pureza, de sua quase angélica inocência, ainda assim levantava sua cabeça de rainha uma senhora já casada, e que não se podia dizer menina como as outras.

Alta, elegante, extremamente bem feita, de cabelos e olhos negros, cor morena, lábios grossos e belos dentes, ostentava uma beleza especial. Havia em seus modos uma mistura de segurança e nobreza que impunha respeito e admiração; de voluptuosidade e ardor, que desafiava lascivos desejos. Era uma beleza como que selvagem e perigosa. Essa mulher tinha sobretudo um olhar insolente, uma voz melodiosa, e um andar provocador.

Trazia ela os cabelos primorosamente penteados e ornados com uma preciosa borboleta de brilhantes; rosetas das mesmas pedras nas orelhas, e o colo cor de jambo, nu, para melhor ostentar sua perfeição; seu vestido era de seda cor de Isabel, e adivinhavam-se enfim dois pequenos pés presos em sapatinhos de cetim. Tinha na mão direita um ramalhete de violetas, e na gola do vestido, mesmo junto da axila, um cravo rajado, que exprimia um não sei quê de provocadora graça.

Não era uma incógnita: a assembléia toda conhecia o seu nome e respeitava-o. Tão encantadora como honesta, contentavam-se com admirá-la.

Formara-se defronte, mas um pouco longe dela, um círculo de mancebos que faziam por mil maneiras o seu elogio, depois de haverem discutido e concedido a coroa de rainha daquela festa à bela senhora:

– É um homem verdadeiramente feliz, disse um deles, o marido de uma tal mulher.

– Feliz por todas as razões, acrescentou um segundo.

– Como por todas as razões?... perguntou terceiro mancebo.

– Oh! pois será preciso explicar-me?...

– Bem entendido, se for de sua vontade.

– Pois bem: feliz porque possui uma mulher formosa.

– Convenho.

– Dotada de bastante espírito.

– Tenho ouvido dizer.

– Que é fiel aos laços que a ligam.

– Devo crê-lo.

– Que ama a seu marido exclusivamente.

– Quem sabe?

– Agora, meu caro, sou eu que tenho o direito de pedir explicações.

– Estou pronto para dá-las.

– Vamos, pois.

– Digo que estou fatigado de ouvir falar na pureza e lealdade daquela senhora. Oh!... chamar-me-ão dissoluto... dirão que tenho a moral pervertida... pode ser; mas confesso que no ostracismo de Aristides votaria como o camponês que o desterrava por se achar cansado de ouvi-lo chamar – o justo.

– Com efeito!...

– E ainda mais: eu respeito muito as leis da natureza. Creio firmemente que todos podemos ser escravos do erro, e que portanto se a interessante senhora, que segundo creio, faz parte do gênero humano, ainda não errou, pode errar.

– Mas ao menos ainda não errou.

– Dá-me às vezes vontade de tentar... eu daria metade da minha riqueza para ser uma verdadeira tentação!

Alguns sorrisos aplaudiram o leviano; um só dos que estavam no círculo moveu-se com sentimento de reprovação e disse:

– Senhor, sou amigo do marido da senhora de quem se trata e me penaliza que com tanta ligeireza se fale dela em minha presença.

– Mas, meu Deus, ninguém a ofendeu aqui; eu falei somente no respeito que se deve às leis da natureza.

– Uma vida pura, senhor; um comportamento ilibado, merece alguma consideração. É uma mulher encantadora, convenho; ninguém contudo ousa lançarlhe em rosto a mais passageira leviandade, nem a menor tendência para o galanteio.

Se tem algum crime, é o de ser bela.

– Devia ter mais uma virtude.

– E qual?...

– A de se deixar amar.

– Senhor, vejo que cumpre retirar-me. Defronte um do outro por mais tempo, poderíamos perturbar o prazer e harmonia desta assembléia; porque eu respeito a amizade, e o senhor insulta uma mulher, por saber que as mulheres não se vingam.

Dizendo assim, o mancebo travou do braço de um amigo, e retirou-se para o fundo de outra sala.

– Henrique! disse-lhe o amigo, tu estás pálido como a morte.

– É porque tenho uma morte no pensamento, Carlos.

– Como?... que queres dizer?

– Quero dizer que amanhã hei de bater-me com aquele insolente, a menos que ele sobre ser insolente, não seja também covarde.

– Estás louco, Henrique?

– É possível... e desde muito.

Os dois moços ficaram em silêncio alguns instantes. Finalmente, Carlos, com

voz grave e solene, disse:

– Não te assiste o direito de vingar aquela senhora.

– Como?... não sou amigo de seu marido?...

(continua...)

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