Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
Era costume do século passado, que se conservava no atual, e as tabernas preferidas só admitiam nas saletas fregueses conhecidos e de boa companhia.
Trata-se, porém, da ceia dos tafuis.
Em ajuntamento de mancebos que só pensam em divertir-se e rir, há de ordinário uma vítima de escolha ocasional.
Nesta noite a vítima era o Belo Senhor.
Afonso Martinho tinha dito que ele trazia nos sapatos o testemunho de impostura e falsidade; porque as fivelas que tinham passado por ser de ouro já estavam por velhas perdendo o dissimulo e denunciando a prata que nem era de lei.
O Belo Senhor comia então uma posta de pescada, e não respondeu.
As fivelas dos sapatos do Belo Senhor estão em harmonia com a sua casaca de uso ordinário, como hoje, e que, como todos vêem, já está perdendo o pêlo! exclamou Domingos Lopo.
- É avareza desse demônio: devemos castigá-lo; proponho que de hoje a oito dias o Belo Senhor seja obrigado a pagar-nos aqui mesmo ceia dez vezes melhor do que esta, que eu hoje pago; disse a zombar Antônio Pereira.
Mas quando Domingos Lopo falava, o Belo Senhor estava-se regalando de chouriço com farinha de mandioca; e quando Antônio Pereira o emprazou para a ceia que havia de pagar, ele saboreava o rim assado, temperando-o no molho de pimenta de cheiro, e não deu resposta nem a um, nem a outro, e menos ainda pareceu ressentir-se.
Não havia maligna intenção nos gracejos dos três amigos; mas realmente era pouco generoso, e de mau gosto em mancebos ricos zombar do que era manifesta prova dos poucos recursos pecuniários da vítima do ridículo.
Risadas acompanhavam, no entanto, os remoques provocadores de reação que o Belo Senhor não costumava conter.
Mas então ele comia, e não falava.
Agostinho Fuas tomou por sua vez a palavra e disse:
- O Belo Senhor está hoje triste, silencioso e abatido: querem saber por quê? Há um mês que apaixonado, perdido de amor pela Rosinha Feitiço, a mais bela dama da Casa da Ópera, cantava-lhe de noite modinhas à porta e de dia mandava-lhe ramalhetes de rosas, e de não-medeixes; mas coitado! soube ontem que eu sem modinhas nem flores, e só com uma chave, que tirei da minha bolsa, abri a porta que não lhe abriam, e tomei-lhe a namorada!... Tem paciência, Belo Senhor! espera dois ou três meses pelo termo do meu capricho: eu te pus no purgatório, mas não te condenei ao inferno.
Gargalhadas gerais agravaram a zombaria de Agostinho Fuas, tanto mais cruel, quanto era absolutamente expresso de verdade.
O Belo Senhor por acaso ou por abafado ímpeto de ira cobriu de pimentas de cheiro uma garfada de rim e comeu, parecendo regalar-se.
Agostinho Fuas, um pouco picado da indiferença da vítima, tirou do bolso uma carta e mostrou-a aos companheiros.
- Ai está um bilhete que a Rosinha me escreveu hoje...
- Mas que diabo! ela escreve Gostinho em vez de Agostinho? disse Afonso Martinho.
- É assim que me trata: vê agora a assinatura...
- Feitiço...
- É como eu a chamo. E tu, Belo Senhor; não queres ver a carta da Rosinha Feitiço?
Era demais.
O Belo Senhor que inalterável não tinha levantado os olhos do prato saboreou o último pedaço de rim assado, encheu de vinho o copo, bebeu vagarosa e deliciosamente, depôs o copo na mesa e disse com perfeita serenidade:
- Agora eu.
Todos os olhos se fitaram no Belo Senhor que, voltando-se primeiro para Antônio Pereira, disselhe:
- Antônio Pereira! de hoje a oito dias cearemos nesta taberna profusa e grandiosamente!... convide a todos os presentes e a mais alguns amigos, mas eu juro que tu, Antônio Pereira, hás de pagar a ceia.
- Eu?... aposto que não!...
- E nessa noite de ceia, de hoje a oito dias, eu me apresentarei de ricas fivelas de ouro nossapatos, e tu, Afonso Martinho, hás de pagar as fivelas.
- Eu?... também aposto que não!
- E tu, Domingos Lopo, hás de pagar a casaca nova com que me apresentarei a honrar a ceia!
- Terceira aposta!... juro que não.
- Quanto a Agostinho Fuas, não pretendo que ele me pague coisa alguma; pelo contrário, sereieu quem o há de felicitar com a mais agradável surpresa.
- Explica-te, Belo Senhor!
- Impossível! será o encantamento da ceia; mas é segredo que guardarei comigo até de hoje aoito dias.
- São, portanto, quatro apostas, disse Antônio Pereira; vê em que te metes, Belo Senhor!
- Não faço aposta alguma; respondeu este: contento-me com a ceia profusa, com as fivelas deouro, com a casaca nova e com o surpreendente efeito do meu segredo.
Levantaram-se todos para sair.
- A propósito! exclamou o Belo Senhor; quero saber a hora precisa da ceia: Antônio Pereira é quem deve marcar a hora, porque as despesas correrão por sua conta.
- O Belo Senhor paga-nos aqui boa ceia, de hoje a oito dias, às nove horas da noite precisas, disse Antônio Pereira.
- Muito bem! de hoje a oito dias, 20 de julho de 1783, às nove horas da noite em ponto, disse oBelo Senhor.
E logo acrescentou:
- Daqui até lá nem mais meia palavra sobre este assunto.
E todos se retiraram da taberna a rir e a gracejar, como amigos que eram.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.