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#Romances#Literatura Brasileira

Os Bruzundangas

Por Lima Barreto (1922)

Os rapazes, que vão para elas, saem do país muito bons rapazinhos, às vezes mesmo mais ricos de influência que de dinheiro; quando, porém, de lá voltam, só porque viram o emir de Afganistão ou o sultão de Baçora, acreditam-se da melhor nobreza... certamente muçulmana.

Os seus modos são outros, os seus gestos estudados, pisam à última moda do centro da Ásia e encetam a conversa sobre qualquer cousa, começando sempre assim:

— Estava eu em Cabul, quando a mulher do ministro russo...

Cabul soa aí como se fosse Paris, Londres ou Roma e os seus auditores consentem em admitir que a capital de Afganistão seja mesmo um depósito de elegâncias superiores.

Pelo simples fato de terem palmilhado terras estranhas e terem visto naturalmente algumas obras-primas, os diplomatas da Bruzundanga se julgam todos eles artistas, literatos, homens finos, gentlemen.

Não pensem que eles publiquem obras maravilhosas, profundas de pensamentos, densas de idéias; não é isso bem o que publicam.

Afora um ou outro que não se veste pelo figurino da maioria, o que eles publicam são sonetos bem rimadinhos, penteadinhos, perfumadinhos, lambidinhos, cantando as espécies de jóias e adereços que se encontram nas montras dos ourives.

A isto, eles batizam, por conta própria, de aristocracia da arte, arte superior, arte das delicadezas impalpáveis.

Publicam esses catálogos de ourivesaria, quando não são de modistas e alfaiates, em edições luxuosas; e, imediatamente, apresentam-se candidatos à Academia de Letras da Bruzundanga.

Houve tempo em que ela os aceitava sem detença; mas, ultimamente devido à sua senilidade precoce, desprezou-os e só vai aceitando os taumaturgos da cidade.

Não há médico milagreiro e afreguesado que não entre para ela e pretira os diplomatas.

Nem sempre foi assim a diplomacia da Bruzundanga. Mesmo depois de lá se ter proclamado a República, os seus diplomatas não tinham o recheio de ridículo que atualmente têm.

Eram simples homens como quaisquer, sem pretensões do que não eram, sem fumaças de aristocracia, nada casquilhos, nem arrogantes.

Apareceu, porém, um embaixador gordo e autoritário, megalômano e inteligente, o Visconde de Pancome, que fizeram ministro dos Estrangeiros, e ele transformou tudo.

Empossado no ministério, a primeira cousa que fez foi acabar com as leis e regulamentos que governavam o seu departamento. A lei era ele. O novo ministro era muito popular na Bruzundanga; e vinha a sua popularidade do fato de ter obtido do Rei da Inglaterra a comenda de Jarreteira para o Mandachuva e seus ministros, assim como o Tosão de Ouro da Espanha para os generais e almirantes.

Todos os senhores hão de se admirar que tal cousa tenha feito o homem popular. É que os bruzundanguenses babam-se inteiramente por esse negócio de condecorações e comendas; e, embora cada qual não tivesse recebido uma, eles se julgavam honrados pelo fato do Mandachuva, do ministro, dos generais e almirantes terem recebido condecorações tão famosas no mundo inteiro.

São assim como nós que temos grande admiração pelo Barão do Rio Branco por ter adjudicado ao Brasil não sei quantos milhares de quilômetros quadrados de terras, embora, em geral, nenhum de nós tenha de seu nem os sete palmos de terra para deitarmos o cadáver.

O visconde, exaltado no ministério, tendo por lei a sua vontade, baseado na popularidade, fez o que entendeu e a sua preocupação máxima foi dar à representação externa da Bruzundanga um brilho de beleza masculina, cujo cânon ele guardava secretamente para si. Daí veio essa total modificação no espírito da representação exterior do país e não houve bonequinho mais ou menos vazio e empomadado que ele não nomeasse para esta ou aquela legação.

O seu sucessor seguiu-lhe logo as pegadas, não só neste ponto como em outros mais.

O Visconde de Pancome era de fato um escritor; o novo ministro não o era absolutamente, mas como substituiu aquele, julgou-se no direito de o ser também e também membro da Academia de Letras, como tinha sido o seu predecessor. Publicou em papelão um discurso, impresso em letras garrafais, conseguindo assim organizar um volume e foi daí em diante igual ao antecessor em tudo.

Não há mal algum que seja assim a diplomacia daquelas paragens.

A Bruzundanga é um país de terceira ordem e a sua diplomacia é meramente decorativa. Não faz mal, nem bem: enfeita.

E, se os maridos e pais da Bruzundanga têm que andar cheios de cuidados, é melhor que tais zelos fiquem ao cargo dos estrangeiros. A diplomacia do país tem a sua utilidade...

CAPÍTULO VIII

A CONSTITUIÇÃO

(continua...)

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