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#Ensaios#Literatura Brasileira

O subterrâneo do Morro do Castelo

Por Lima Barreto (1905)

Entretanto, o amor lhe dera forças para tentar a perigosa empresa, a expedição que se preparava contra o Brasil era um magnífico pretexto para tornar a ver a sua querida Dona Garça e súplice, aos seus pés, mendigar-lhe um sorriso, uma palavra de meiguice e de conforto.

E assim, andara pelas secretarias, a bajular os poderosos, até conseguir o ideal sonhado — o comando da expedição conquistadora.

D. Garça ouvia-o orgulhosa, com um sorriso brando de condescendência nos lábios rubros e sensuais.

O seu espírito de mulher gozava o martírio daquele homem poderoso e valente que atravessara os mares, que afrontava os perigos de batalhas sangrentas, só por vê-la, só por obter um olhar dos seus olhos, uma palavra meiga dos seus lábios.

Ela também o amava.

Durante toda a sua vida romanesca, passada entre as paredes frias do convento, muitas vezes a sua alma se desprendia, sonhadora, a corporizar a esbelta figura de Duclerc, o forte mestiço por quem pulsaram tantos corações femininos.

Mas agora o seu espírito satisfeito embalava-se nas palavras cariciosas do seu ex-amante e ela nem ousara falar, de modo que se escapasse dos seus lábios uma palavra que traísse o seu amor.

Era-lhe bem mais agradável escutar aquela música sonora de frases ternas, como se ela lhe fosse de todo indiferente, como se fosse a banalidade estulta de todos os dias.

E. Dona Garça dissimulava a sua imensa comoção sorrindo complacente, com piedade quase.

Entretanto Duclerc, na meia luz da velha casa da Rua da Ajuda, tinha no olhar chispas ardentes, fulgurações indescritíveis de uma velha paixão sopitada e que agora explodia com toda a fúria, com todo o império de sua grandeza.

— Já não me amas, Dona Garça?

— E por que não?

— Pois se há tanta frieza nos teus belos olhos, se nem uma palavra me dizes que me dê forças ao ânimo abatido...

— Enganas-te; sou a mesma.

Estas palavras foram ditas num tom de voz glacial, sem uma vibração, sem um colorido que denotasse partirem de uma alma sinceramente amorosa.

Duclerc conservou-se por um instante calado e pensativo. Súbito, como se alguma força estranha o abalasse todo, ergueu-se de mãos crispadas, olhos em chamas, terrível, quase sublime.

— Mulher infame e prostituída, exclamou, tu não compreendes a grandeza de uma paixão veemente e alucinada! Nos braços do padre perdeste os últimos vislumbres do pudor; chafurdaste-te nos vícios e na dissolução; és indigna de mim! Vai-te! E, empurrando-a brutalmente, alucinadamente, o francês voltou as costas, enquanto D. Garça caía por terra, trêmula, branca, da brancura imaculada de um lírio que um tufão despedaçasse.

Mas o velho cavalheirismo gaulês despertara em tempo na alma de Duclerc.

Voltou-se, os braços cruzados sobre o peito.

Dona Garça estava ajoelhada, as mãos postas numa súplica de perdão; dos seus negros olhos românticos, duas grossas lágrimas rolaram sobre a face alvíssima como duas pérolas líquidas sobre as pétalas de uma rosa.

O colar arfava-lhe, ofegante, fazendo oscilar as rendas do corpete.

Era a figura humanizada da Madona em toda a sua beleza mística, temperada de um estranho sabor de pecadora volúpia.

E os seus lábios brancos e trêmulos murmuravam apaixonadamente:

— Amo-te, Duclerc.

O francês tomou-a nos braços carinhosamente, como a uma criança, os seus lábios aproximaram-se como que atraídos por uma força oculta e dominadora e um grande beijo apaixonado e lúbrico soou cristalino e sonoro, selando a reconciliação.

(Continua)

Correio da Manhã - sábado, 27 de maio de 1905

OS SUBTERRÂNEOS DO MORRO DO CASTELO

A Nova Galeria

Pressentimentos

O Crucifixo de Ouro

O bocado não é para quem o... encontra.

Dia a dia se vai tornando mais interessante este caso dos subterrâneos do Castelo, que veio trazer à banalidade chata de nossa vida burguesa uma nota estranha de aventura romanesca, fazendo vibrar o espírito popular que tem algo de feminino pela curiosidade com que espreita pela fechadura de todas as casas, na ânsia de tudo saber e penetrar, até os últimos detalhes.

Ninguém imaginaria a princípio que esse fato corriqueiro, que se chama em engenharia um movimento de terras, tomasse em pouco tempo as proporções extraordinárias de uma expedição de Jasão, de uma viagem do Cândido ao país do Eldorado.

Para alguns velhos, revolvedores da papelada secular, traças de arquivos e bibliotecas, o morro do Castelo sempre foi, porém, uma caixa impenetrável de segredos, um cofre de surpresas para onde os seus olhos perscrutadores se volviam curiosos, na esperança de advinhar-lhe o conteúdo do bojo.

O engenheiro Dutra pronunciou o Sésamo abre-te naquela furna de Ali Babá; a sua picareta demolidora foi a varinha mágica que tirou o encanto secular do morro, despedaçando o modelo resistente, abatendo com fragor grandes moles de granito, levando a eletricidade irreverente ao soturno âmbito dos subterrâneos, onde a voz humana ecoa hoje, após três séculos de silêncio e paz, com o tom diabólico de profanação que teria a música de “cake-walk” nas catacumbas de Roma.

(continua...)

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