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#Contos#Literatura Brasileira

Tentação

Por Adolfo Caminha (1896)

— Já andamos por lá — disse D. Branca espevitadamente. — Sabem o que encontramos?

— Algum menino pagão... — adiantou-se Furtado.

—Algum fac-símile de inscrições hebraicas para presente ao desembargador? — Sério; vejam se podem adivinhar - insistiu a esposa do secretário.

Os dois homens puseram-se a pensar em qual teria sido o misterioso encontro das duas senhoras...

— Não sei - disse, por fim, o marido de Branca.

— Nem eu... - imitou Evaristo.

— Um irrigador de Ermarck, por sinal bem novinho.

— Que diabo quer isso dizer? - perguntou o bacharel com assombro.

Adelaide não se pôde conter e abriu numa risada sonora e gostosa, ocultando o rosto nas mãos. D. Branca, ante a ingênua pergunta de Evaristo, ria também para outro lado, enquanto o secretário justificava a ignorância do amigo dizendo que o aparelho de Ermarck ainda não era bastante conhecido no Brasil e que, por isso, o Holanda tinha toda a razão... E acrescentou com ironia:

— São muito maliciosas as mulheres!

Mas Evaristo não descruzava os braços, estatelado, vendo as duas senhoras

rir.

— Então, é que já sabes o emprego do irrigador, Adelaide! — Eu?

Novo acesso de riso sufocou a esposa do bacharel, como se lhe estivessem a fazer cócegas.

— Sabem que mais? — disse afinal Evaristo. — Os ingleses, que deixaram o irrigador é por que o irrigador não presta! Vamos ao que interessa.

Já Luís Furtado galgava o primeiro degrau da escada que ia ter no segundo andar. Evaristo, Adelaide e D. Branca o acompanharam, todos risonhos, a falar dos ingleses.

Eram trinta degraus estreitos, que subiam em curva, gemendo sob os pés, iluminados por uma grande clarabóia de vidro.

O andar superior compunha-se de uma sala de frente, alcova, corredor e dois quartos menores que a alcova, comunicando-se. Havia também um terraço com grades de ferro, onde se erguia uma espécie de quiosque para o water-closet.

O secretário começou a inspeção pela frente. As janelas estavam abertas, deixando ver a praia de Botafogo; a enseada, não muito longe, o Pão de Açúcar e os morros de Niterói dando um aspecto grandioso e selvagem à baía. À direita, erguido a prumo, o perfil negro do Corcovado atraía os olhos, em linha reta para o alto, como um dedo enorme de gigante apontando o azul sereno. A vista alcançava, depois, outras montanhas, e entre elas, o cemitério de São João Batista, salpicado de túmulos brancos, numa simetria pitoresca e lúgubre. Àquela hora, distinguia-se grupos de pessoas, grupos negros em marcha, sumindo-se e aparecendo entre os mausoléus.

À esquerda, telhados e hortas.

O secretário não gostava de olhar o cemitério: recordava-se tristemente da última vez em que lá fora enterrar a ilustre senhora, bela mulher, cujo nome o Rio de Janeiro todo conhecia... Não gostava, não gostava de olhar o cemitério...

D. Branca estava aflita por chegar aos fundos; queria surpreender o marido de Adelaide com o irrigador de Ermarck.

— Que achas? - perguntou Furtado ao amigo, relanceando os olhos no aposento.

— Bom... bom - murmurou o bacharel. - Vamos cá!

E dirigiu-se aos fundos da casa, inspecionando o teto e o papel do forro.

— Vocês aqui estão muito bem — tornou o secretário.

— Muito melhor que na Cidade Nova — acrescentou D. Branca. — Ao menos estão em Botafogo.

O corredor ia sair na área, forrado em todo o comprimento, claro, fresco e iluminado pelos reflexos da clarabóia.

Percorreram tudo até o quiosqueziriho do terraço, que o bacharel comparou poeticamente a uma "casa da pombos".

— Agora venha ver, Sr. Evaristo, venha ver o que os ingleses deixaram — insistiu de novo D. Branca.

— Tolice de minha mulher, Evaristo!

— Não, não, tenha a bondade, Sr. Evaristo, tenha a bondade. Quero que o senhor veja...

A um canto do terraço, entre o quiosque e o gradil, estava uma espécie de cilindro cor de cobre novo, com uma das extremidades em forma de funil donde saía molemante, quebrando-se em curvas, um tubo estreito de borracha.

— Isso o que é? - perguntou, inclinando-se, o bacharel.

As duas senhoras abriram outra vez na risadaria, cabeceando, agarrando-se como duas colegiais.

— Branca! — advertiu Furtado. — Olha que o Evaristo não é menino de escola...

E segurando o amigo pelo braço o foi levando para dentro do corredor.

— Isso é uma das grandes invenções do século, meu amigo; veio com a descoberta do micróbio parasitário.

Falavam baixo, com hipocrisia de homens que se querem dar ao respeito. Mas D. Branca ouviu ainda um oh! de exclamação que o marido de Adelaide não pôde abafar.

Estava escurecendo. Já o sol mandava o seu último adeus à terça-feira com uns restos de claridade crepuscular.

Tanto o bacharel como a esposa acharam que se devia tratar logo da mudança, ou antes da instalação, porque Evaristo inda não comprara sequer a cama de casal. - Mudar o quê? Só se fosse uma rede que ele trouxera do norte, uma rede esplêndida, de labirinto, e os indiscretos baús de couro..

— Não te faças miserável! — ralhou Furtado. — Um homem não tem o direito de menosprezar-se. Um baú pode conter as minas de Salomão!

(continua...)

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