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#Crônicas#Literatura Brasileira

No País dos Ianques

Por Adolfo Caminha (1894)

Silêncio. Manuel continuou a jantar sem interrupção, muito calmo, com uma fleuma verdadeiramente britânica. Eva, coitada, abriu a soluçar baixinho, fungando a mais não poder, sem se aperceber de que estava fazendo de um guardanapo um lenço.

Último ato, e aqui é que está o apropósito.

Cenário: O Mississipi pardo e murmurejante sob a luz moribunda do crepúsculo.

O Almirante Barroso, imóvel sobre o rio, com a sua mastreação muito alta, fumega. Ouve-se barulho de cabrestante e de amarras caindo no convés. Tremula a bandeira brasileira na carangueja da mezena... Últimos preparos.

No cais agita-se uma multidão compacta.

De repente surge à tona d'água o cepo da âncora enlameada, pingando um lodo cinzento, e o navio começa a andar vagarosamente.

A guarnição sobe às vergas, alastrando-se de um bordo e d'outro, e acena para terra ao som de vivas!

Agitam-se lenços na praia, correspondendo às saudações de bordo. Um frêmito percorre os que estão no cruzador.

É o momento decisivo.

Um grande rebocador, The Warrior, vistoso e arquejante, acompanha as manobras do Barroso, à distância de uma amarra, solitário e sombrio, envolto numa nuvem de fumaça, e em cuja tolda assoma a figura desgrenhada de uma mulher.

O cruzador segue à viante, majestoso e lento, descrevendo uma bela curva no espelho da água, e toma a passar defronte da cidade, apressando a marcha.

As religiosas das Ursulinas lá em cima, nas janelinhas do convento, acenam também com os seus lenços brancos.

E, no silêncio da tarde que a névoa melancoliza, repercutem estas palavras tocadas de saudade:

— Good-bye!

— Good-bye! repete a mesma voz aveludada como um carinho.

Olhamos uns para os outros comovidos.

Quem seria que se lembrara de levar tão perto sua despedida aos brasileiros?

A voz era de mulher, não restava dúvida.

Com efeito, reconhecemos na figura desgrenhada que víamos a bordo do rebocador, Eva Smith, a amante de Manuel..., a apaixonada rapariga muito conhecida nos cafés-cantantes de Nova Orleans, cujo entusiasmo pelo nosso companheiro tinha chegado a seu auge.

E quando o Barroso desapareceu na primeira curva do rio, ainda ouvíamos, tomados de uma tristeza infinita, a mesma voz cheia de desespero, agora abafada pela distância, soluçada e plangente:

— Good-bye, Manuel! Good-bye!...

E dizer que a Dama das Camélias é uma exceção na vida sentimental das filhas de Eva!.

O nosso Armando, que aliás nunca pretendeu regenerar ninguém, deixou-se cair numa saudade profunda, num longo adormecimento da alma, de que só acordou no alto-mar, quando já não se avistava um ponto sequer da costa americana.

CAPÍTULO XI

Abençoada ilha de Cuba, direi muito pouco de teus aspectos, de teus costumes, de tua gente, de tua civilização, mesmo porque a nossa demora em tua bizarra capital, foi curta como um sonho bom. Um epicurista diria que apenas tivemos tempo de mastigar um havana, desses que fabricas aos milheiros e que fazem a delícia dos consumidores do bom tabaco.

Belas cubanas de olhos rasgados e sensuais, acreditamos piamente nas coloridas descrições em que viajantes de todas as nacionalidades gabam as vossas preciosas qualidades físicas, os vossos olhos ardentes, os vossos cabelos negros, a vossa graça incomparável e sedutora... Nos oito curtos dias que passamos em vossa pátria não tivemos a felicidade rara, a gostosa satisfação de vos contemplar senão de relance, por um acaso verdadeiramente providencial.

Dizem outros que sois belas e irresistíveis, que dançais divinamente o salero, que possuís todos os encantos possíveis, e isto é quanto basta para que dispenseis o desmaiado elogio dos que não tiveram a fortuna de confabular convosco.

E o leitor, por sua vez, contente-se em saber que Havana, com suas calles irregulares, estreitas e pacatas, é uma pequena capital sem capitais, sobríssima de diversões populares, quase monótona, mas relativamente adiantada.

Não se lhe pode negar certo progresso material e mesmo uma ponta de civilização européia.

Encontram-se nela importantes estabelecimentos comerciais, grandes tabacarias que fornecem fumo e seus preparados a quase todos os mercados do globo; excelentes botequins, poucos hotéis.

O célebre professor Agassiz, no roteiro de uma de suas excursões à América, disse que toda a arquitetura brasileira é pesada e sombria; eu acrescentarei que no mesmo gênero são as edificações de Havana, o que não é para surpreender numa cidade antiga, onde se observa ainda o cunho tradicional da velha metrópole espanhola.

Entre os monumentos arqueológicos notamos a secular catedral onde (refere a crônica) estão sepultados os ossos de Cristóvão Colombo.

Vimos uma estátua — a de Isabel, a Católica, num grande largo que tem o nome da santa rainha.

Particularidade interessante: a população dá a vida por gelados, em conseqüência do calor excessivo e constante a que vive sujeita.

(continua...)

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