Por Adolfo Caminha (1895)
O quarto era independente, com janela para os fundos da casa, espécie de sótão, ruído pelo cupim e tresandando a ácido fênico. Nele morrera de febre amarela um portuguesinho recém chegado. Mas Bom-Crioulo, conquanto receasse as febres de mau caráter, não se importou com isso, tratando de esquecer o caso e instalando-se definitivamente. Todo dinheiro que apanhava era para a compra de móveis e objetos de fantasia rococó, “figuras”, enfeites, cousas sem valor, muita vez trazida de bordo... Pouco a pouco o pequeno “cômodo” foi adquirindo uma feição nova de bazar hebreu, enchendo-se de bugigangas, amontoando-se de caixas vazias, búzios grosseiros e outros acessórios ornamentais. O leito era uma “cama de vento” já muito usada, sobre a qual Bom-Crioulo tinha o zelo de estender, pela manhã, quando se levantava, um grosso cobertor encarnado “para ocultar as nódoas”.
Durante meses viveu ele uma vida calma, escrupulosamente pautada, rigorosamente metódica, cumprindo seus deveres a bordo, vindo à terra duas vezes por semana em companhia de Aleixo, sem dar motivo a castigos ou recriminações. Até os oficiais estranhavam-lhe o procedimento, admiravam-lhe os modos. — “Isso é cousa passageira, insinuava o tenente Souza. Breve temo-lo aqui, bêbedo e medonho. Sempre o conheci refratário a toda norma de viver. Hoje manso como um cordeiro, amanhã tempestuoso como uma fera. Cousas de caráter africano...”
O grumete, por sua vez, trazia a alma na perpétua alegria dos que não têm cuidados. Em terra ou a bordo, não tinha de que se queixar: andava sempre limpo, ninguém o via deitado no convés, ou emporcalhando-se de alcatrão à proa. Felizmente o imediato escolhera-o para o serviço de cabo-marinheiro, em atenção à sua conduta, reconhecendo nele um rapazinho de bons costumes, amigo do asseio, obediente e trabalhador. De modo que raro via-se Aleixo entre a marinhagem. Seu lugar predileto era o passadiço ou a ré cosendo bandeiras, tesourando flâmulas, aprendendo certos misteres do ofício. Às vezes tinha palestras com o oficial do quarto, narrando histórias de Santa Catarina, casos da província, do tempo em que ele era um simples filho de pescador, um pobre menino da beira-mar. Os outros marinheiros olhavam-no com inveja, tocando-se os cotovelos maliciosamente. Havia um guarda-marinha, moço bem educado e muito democrata, que, uma vez por outra, dava-lhe dinheiro, níqueis para cigarros. Ele ia logo mostrar a Bom-Crioulo as moedinhas de tostão que “seu guarda-marinha lhe dera”. Todos a bordo lhe faziam festa; o próprio guardião Agostinho, seco e ríspido, tratava-o bem, com branduras na voz. Uma vida regalada!
Em terra, no quarto da Misericórdia, nem se falava! — ouro sobre azul. Ficavam em ceroulas, ele e o negro, espojavam-se à vontade na velha cama de lona, muito fresca pelo calor, a garrafa de aguardente ali perto, sozinhos, numa independência absoluta, rindo e conversando à larga, sem que ninguém os fosse perturbar — volta na chave por via das dúvidas...
Um cousa desgostava o grumete: os caprichos libertinos do outro. Porque Bom-Crioulo não se contentava em possuí-lo a qualquer hora do dia ou da noite, queria muito mais, obrigava-o a excessos, fazia dele um escravo, uma “mulher-atoa” propondo quanta extravagância lhe vinha à imaginação. Logo na primeira noite exigiu que ele ficasse nu, mas nuzinho em pêlo: queria ver o corpo...
Aleixo amuou: aquilo não era cousa que se pedisse a um homem! Tudo menos aquilo. Mas o negro insistiu: Ninguém o levava a capricho:— Ou bem que somos ou bem que não somos... — Que asneira! fez o grumete. Por-se agora nu em pêlo defronte do Bom-Crioulo ! Está visto que tinha vergonha.
— Vergonha de quê? tornou o outro. Não és homem como eu? Donde veio essa vergonha?
— Decerto!...
— Ora, deixa-te de luxo, menino, vamos: tira a roupa...
Havia luz no quarto, uma luz mortiça. no topo de uma vela de sebo.
— Nem se vê nada... fez Aleixo choramingando, sem lágrimas. — Sempre há se de se ver alguma cousa...
E o pequeno, submisso e covarde, foi desabotoando a camisa de flanela, depois as calças, em pé, colocando a roupa sobre a cama, peça por peça.
Estava satisfeita a vontade de Bom-Crioulo. Aleixo surgia-lhe agora em pleno e exuberante nudez, muito alvo, as formas roliças de calipígio ressaltando na meia sombra voluptuosa do aposento, na penumbra acariciadora daquele ignorado e impudico santuário de paixões inconfessáveis... Belo modelo de efebo que a Grécia de Vênus talvez imortalizasse em estrofes de ouro límpido e estatuas duma escultura sensual e pujante. Sodoma ressurgia agora numa triste e desolada baiúca da Rua da Misericórdia, onde àquela hora tudo permanecia numa doce quietação de ermo longínquo.
— Veja logo... murmurou o pequeno, firmando-se nos pés.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. Bom-crioulo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16513 . Acesso em: 27 mar. 2026.