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#Romances#Literatura Brasileira

A Normalista

Por Adolfo Caminha (1893)

— Qual, filha, não posso. O Mendes é muito enjoado; fica para outra vez, sim?

Beijaram-se depressa e a mulher do juiz municipal retirou-se com seu passo miudinho, arrepanhando o vestido.

— Apareçam, hein? disse da rua. Amor com amor se paga...

E desapareceu, como um foguete, na esquina.

Às quatro horas entrou o amanuense com a papelada debaixo do braço, muito suado, assobiando a Mascotte.

A Campelinho tinha se escapulido: que eram horas de jantar.

Maria do Carmo sentara-se ao piano e ensaiava a Juanita.

D. Terezinha, essa andava para dentro, às voltas com a cozinheira, provando as panelas, ralhando.

João apenas sacudiu os papéis sobre o sofá, foi direito à afilhada.

— A santa está tocando a Juanita? Que mimo, Jesus! Como se pode ser bonita assim!

E sem dar tempo a Maria de defender-se, pôs-lhe um grande beijo na face. A normalista sentiu um braseiro no rosto ao contato da barba espinhenta do amanuense, e um bafo insuportável de álcool tomou-lhe as narinas. Era a primeira vez, depois que saíra da Imaculada Conceição, que o padrinho lhe beijava em cheio na face. O amanuense tinha-se aproximado devagarinho, de mãos para trás, e, de repente, tomando-lhe a cabeça entre as mãos fedorentas a cigarro, beijou-a perto da orelha, continuando cinicamente a assobiar.

Ela apenas pôde dizer — padrinho! agarrando-se à cadeira de mola. Ficou muito séria, a limpar o rosto com a manga do casaco. Ah! mas dentro, nas profundezas da sua alma teve um ódio imenso àquele homem nojento que abusava de sua autoridade sobre ela para beijá-la! Fosse outro, ela teria correspondido com uma bofetada na cara... Mas que fazer? Era seu padrinho, quase seu pai, devia aturá-lo, tinha obrigação de submeter-se, porque estava em sua casa, comia de seus pirões, e o papai lhe pedira muito que o respeitasse. A princípio até o estimava, não o achava mau completamente; agora, porém, que uma espécie de instinto irresistível a impelia para o Zuza, agora que o estudante ocupava um lugar no seu

coração, enchendo-o quase, o padrinho ia-se-lhe tornando repugnante e desprezível. Não podia chegar-se a ele, vê-lo de perto, encará-lo frente a frente, sem um profundo e oculto frenesi. Um homem que não cuidava dos dentes, que não se banhava, um bêbado!

Esteve folheando o livro de músicas automaticamente, sem se mexer, sem dar palavra, esperando que João se retirasse da sala. João, porém, bateu o postigo com força, cambaleando, dando encontrões nos móveis, aproximou-se outra vez da afilhada e, num movimento abrutalhado, abraçando-a por trás, curvando-se para a frente, sobre ela, chimpou-lhe outro beijo, agora na boca, um beijo úmido, selvagem, babando-a como um alucinado...

Maria quis gritar sufocada, mas o amanuense, tapando-lhe a boca, ameaçou: — Nada de gritos, hein! nada de gritos... Eu sou seu padrinho, posso lhe beijar onde e quando quiser, está ouvindo? Nada de gritos!

E Maria, com os lábios muito vermelhos, como a polpa de uma fruta, debruçada sobre o piano, desandou a chorar nervosamente.

João da Mata tinha bebido sofrivelmente na bodega do Zé Gato onde costumava aquecer os pulmões ao voltar da Repartição. Nesse dia excedeu-se, tomando em demasia, porque já lá estava o Perneta, um dos correios, que usava a muleta, que também gostava da pinga e escrevia versos para o Judeu Errante.

Num momento deram cabo duma garrafa em cujo rótulo lia-se Reclame atraente como visgo: Cumbe legítima!

E que loquacidade! Falaram por três deputados brasileiros sobre poesia e política.

O Perneta, sujeito pretensioso e pernóstico, metido a literato, falando sempre com certo ar dogmático, ventilou uma questão de literatura cearense — Que não tínhamos poetas, disse; o que havia era uma troça de malandros e de pedantes muito bestas, que escrevinhavam para a Província coisas tão ruins que até faziam vergonha aos manes do glorioso José de Alencar; uma súcia de imitadores que se limitavam a copiar os jornais da Corte.

Na sua opinião o Ceará só possuía um poeta verdadeiramente inspirado — era Barbosa de Freitas. Esse sim, cantava o que sentia em versos magistrais, dignos de Victor Hugo. Conhecera-o pessoalmente. Um boêmio! Fazia gosto ouvi-lo. Que eloqüência, que verve, que talento! Sabia de cor muitas poesias dele, mas nenhuma se comparava ao Êxtase, “esse poema de amor” que valia por todas as poesias de Juvenal Galeno. O João queria que recitasse?

— Recita lá! fez o amanuense emborcando o cálice.

E o Perneta, com voz cavernosa, os cotovelos sobre a mesinha de ferro pintada de amarelo, recitou de um fôlego o Êxtase:

Quando, às horas silentes da noite,

Doce flauta descanta no ar,

Quando as vagas soluçam baixinho

Sobre a praia que alveja o luar.

Terminou cansado, com um acesso de tosse, cuspinhando para o lado.

— Sim, senhor! fez João da Mata com um murro na mesa. Isto é que é ser poeta!

— “Queriam alguma coisa?” veio perguntar o caixeiro, um rapazinho magro, doente, com olheiras.

— Não, menino, disse o amanuense; está acesa a lanterna, por ora. Foi entusiasmo.

(continua...)

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