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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

A principio encontrara franca hostilidade, principalmente das mulheres, que o achavam antipático e desagradável, as lambisgóias! Como se ele não fosse da corte do Rio de Janeiro, que elas nunca haviam de conhecer! Depois embirraram com as suas idéias anti-religiosas, porque as expunha com a máxima franqueza, a todo o momento em qualquer ocasião, sem resguardo das conveniências devidas às pessoas e aos lugares. Ninguém lhe dera discípulos, poucos o cortejavam, nenhuma família lhe oferecera a casa. Até o próprio Costa e Silva, posto estivesse arrochado pela carta do Filipe do Ver-o-peso, tivera certas friezas, porque era católico, achava a religião necessária, principalmente para o povo. Parecia que temiam a infecção das heresias daquele inimigo da Igreja, já condenado em vida às penas eternas.

Fidêncio ergueu-se de novo, foi à janela e cuspiu para fora:

— Idiotas!

Voltou para junto da mesa, aliviado, preparou um cigarro, acendeu-o, sentouse de novo firmando-se sobre os pés traseiros da cadeira, utilizada para balanço e, reatou o fio das suas recordações:

Alguns homens, na fácil convivência das portas das lojas, onde à tarde se renova diariamente o processo da sindicância da vida alheia, começaram a gostar de ouvir dizer mal de tudo e de todos, com umas frases novas, uns ditozinhos agudos, uma certa maneira de exprimir as idéias, entremeando calemburgos com palavrões sonoros e sibilando muito os ss, que adquirira ao tempo de estudante e de caixeiro de armarinho. Conquistara a fácil mentalidade dos bons matutos de Silves, posto não lograsse cativar-lhes o coração desconfiado. Mas o Chico Fidêncio tinha tanta graça! Tinha uns modos não sei como o diacho do mestre-escola! Sabia tão bem o ridículo duma pessoa ou duma coisa, que os seus ataques eram irresistíveis. Os matutos reconheciam assim, o seu incontestável mérito.

Um dia, lembrara-se de escrever uma correspondência para uma folha de Manaus, a propósito da última sessão do júri no termo, e dissera umas coisas agradáveis ao juiz de direito que lhe valeram a proposta para adjunto do promotor público, cargo que nunca fora servido na comarca e de que não havia necessidade. E satisfeito com o resultado obtido pusera-se em ativa correspondência com o jornal de Manaus, o Democrata, órgão público, noticioso, comercial, científico e independente, que lhe estampara a prosa, contente por ter matéria nova com que encher as colunas da obrigação. As cartas do Chico Fidêncio não seriam talvez muito lidas na capital da província, mas em Silves eram devoradas avidamente, comentadas, discutidas durante quinze dias a fio. O seu estilo tinha umas vezes o sarcasmo ferino da conversação ordinária, e outras, quando o Chico calçava as suas tamancas de jornalista grave, e queria discutir um assunto com a seriedade necessária, subia aos fraseados sonoros, recheados de declamações bombásticas, de trechos de bons autores, de citações novas, com muita erudição de idéias e palavras bebidas aqui e ali, na leitura de periódicos e panfletos.

E eram exatamente esses artigos, de que mais se orgulhava, que reputava melhor, que lia e relia aos amigos, chamando-lhes a atenção para o fraseado cheio, para as referências sábias e o rebuscado do estilo, os mais raros e os menos apreciados. O público, ignorante e grosseiro, preferia as pilhérias e as críticas mordazes, que iam subindo de tom até ao diapasão da descompostura, degenerando em maledicências e calúnias. Tinha, porém, uma justificação para esses excessos: a necessidade de não poupar o inimigo, para não lhe morrer às mãos.

Quando chegava o paquete e o Democrata aparecia, pequeno, massudo e mal impresso, coberto de pastéis e falhas, como duma lepra incurável, toda a gente queria saber se o Constante leitor, o pseudônimo do Chico Fidêncio, escrevera a sua carta, datada de Silves, com quem bulia, se desancava o padre José ou o subdelegado, se falava na Luísa ou na D. Prudência, se contava os novos amores do vigário, ou descobria as recentes ladroeiras do escrivão da polícia.

Apesar desses triunfos, Francisco Fidêncio Nunes sentia que pisava em terreno falso. Não contava com as simpatias da população, e teria de decidir-se em breve a procurar outro abrigo para a sua miséria e para o seu ideal de liberdade religiosa, tão mal amparado na povoação do lago Saracá. Não podia deixar de pensar que fora enganado pelo Filipe do Ver-o-peso: Sempre era galego, e bastava.

O vigário vingava-se das correspondência, fazendo-lhe uma guerra de morte. O coletor, que era o homem mais importante do lugar, não gostava dele, embora lhe tivesse medo. As mulheres eram-lhes hostis, não liam as suas cartas, não viam senão o homenzinho feio, que desrespeitava os santos e pregava heresias. Estranho à terra, sem ligações de família na província, sem a tradição dum passado qualquer que o protegesse, reconhecia-se fraco e dispunha-se a abandonar o campo, quando surgiu de chofre o segundo período da questão religiosa, ferida entre os bispos do Pará e de Olinda e a maçonaria.

(continua...)

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