Por Domingos Olímpio (1903)
— Não são todos – observou Luzia – O Promotor é um doutô muito bom... Tem feito o que pode pelo pobre que está penando naquele inferno... Amanhã... Amanhã...
Teresinha preparou a candeia de azeite de carrapato; espevitou o pavio de algodão torcido; acendeu-o, soprando com força num tição, e colocou-a no caritó, donde, bruxuleando, vacilante e fumarenta, iluminou em tons melancólicos, em firmes e vagarosos contrastes de claro e escuro, como nas telas imortais de Rembrandt e Espanholeto, um quadro admirável e emotivo, cena íntima da pobreza sofredora e resignada.
CAPÍTULO IX
Apagavam-se no céu pálido os astros e a estrela-d'alva desmaiava, lívida, quando Luzia deixou a rede. Espreguiçando, estremunhada ao fresco terral da manhã, que lhe agitava o traje com suave carícia, desfez os cabelos impregnados de forte fragância de mulher amorosa, como se a própria essência da força e da saúde evolasse deles em capitoso filtro sensual; e, tomando de um largo pente de chifre, começou a desembaraçar as densas madeixas, que se afofavam e intumesciam crespas e lustrosas. Aos seus ouvidos, chegavam os clamores vibrantes do toque de alvorada, recordando-lhe Alexandre encerrado na prisão infecta e escura, entre celerados, àquela hora despertados do profundo sono perturbado pelos sonhos de remorsos implacáveis.
Nos arredores, até onde o olhar podia chegar fendendo a vaporosa neblina da madrugada, surgiam massas pardacentas de moitas desgrenhadas em gravetos ressequidos, espectros de árvores, a terra poeirenta e as casas ainda fechadas, donde partia o surdo rumor de choro de crianças, ranger de chaves nas fechaduras perras, prolongados bocejos, resmungando frases de vago, quase imperceptível queixume.
No quarto próximo, a velha mãe ressonava com intermitentes gemidos. Teresinha dormia ainda, estirada na esteira, seminua, num abandono ingênuo, debuxando-se-lhe as formas delgadas e graciosas. No alpendre esmoreciam, na extremidade dos grossos tições, grandes brasas rubras, sob tênue camada de cinzas brancas.
Ao espetáculo do alvorecer sem alegria, o campo desolado, sem cânticos de pássaros e rumores harmoniosos do trabalho venturoso e fecundante, ela revia a infância, na fazenda Ipueiras: a campina verdejante umedecida de orvalho congregado no côncavo das folhas em gotas trêmulas, os cabeças-vermelhas gorjeando nos mais altos ramos dos juazeiros frondosos; caraúnas airosas papeando em volatas vibrantes nos leques das carnaubeiras esguias, rolas arrepiadas e friorentas aguardando, aos casais quietos, bem juntinhas, os primeiros raios do sol. Ouvia o mugir lamentoso das vacas presas nos currais, o gemido soturno e tímido dos bezerros e monjolos famintos; o balir das ovelhas irrequietas no fumegante chiqueiro; o gaguejar dos bodes lúbricos, ébrios de luxúria; e o relincho triunfante do fogoso cavalo castanho, a galopar peado das mãos, de crinas eriçadas, de orelhas espetadas e de rúbidas narinas acesas. E com o cheiro do pasto florido, dos aguapés flutuantes na lagoa azulada, nenúfares de caçoilas entreabertas, sentia o fartum da prodigiosa terra exuberante, e o bafio agro dos rebanhos fecundados. Recordava-se do banho na lagoa, que espalhava o céu, e a paisagem pitoresca, e onde ela nadava como as marrecas ariscas; mergulhava e voltava a flux, espadanando a água com o açoite de cangapés acrobáticos, espantando os paturis e jaçanãs medrosos, os graves socós pousados sobre uma perna e os bandos de alvas garças elegantes. Como era saboroso o leite morno, espumando nas cuias, o tassalho de carne-do-sol chiando no espeto, o cuscuz vaporoso e os queijinhos de cabra, em forma de peito de moça; as merendas e o mel de rapadura e macaxeira, o mocunzá com coco da praia, a coalhada escorrida e os fofos manuês assados em folha de bananeira?!...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O touro negro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7415 . Acesso em: 25 mar. 2026.