Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Livro de uma Sogra

Por Aluísio Azevedo (1895)

Cheguei a lembrar-me do Mormonismo, a amaldiçoada seita polígama de José Smith. Mas, no dogma dos mórmons, o caso essencial era precisamente contrário ao que me parecia indispensável à felicidade fisiológica da mulher e às conveniências individuais do filho. Lá o homem tem o direito de tomar quantas esposas lhe apeteçam, desde que as possa manter; a mulher, porém, essa há de contentar-se com um só marido, se é que se pode chamar um marido a um homem partilhado por vinte esposas. Um vigésimo de marido!

Ora, se um achava eu insuficiente para bem gerar todos os filhos de uma mulher, quanto mais a vigésima parte de um! Entretanto, lendo de boa-fé a exposição dos princípios filosóficos e religiosos dos mórmons, abalei-me com certos preceitos da moralidade conjugal por eles estabelecida e observada. Afirmam com orgulho que, no mundo civilizado, são os únicos bons e honestos cumpridores do sagrado mandamento de Deus: “Crescei e multiplicai-vos”, porque um varão pode procriar duzentos filhos, e uma mulher nunca mais de vinte.

Como, pois, exigir que seja uma só mulher a mãe de todos os filhos que produza um homem, quando precisa ela de dois anos para a gestação, parto e criação de cada um? Não será isso constranger o marido a uma destas três coisas: — ou condenar-se à esterilidade forçada, para não faltar a fé conjugal; ou transigir das regras da boa higiene, aproximando-se da consorte nos períodos em que não deve; ou procriar fora do casal o que lhe fará ser pai de alguns filhos legítimos e, ao mesmo tempo, de muitos e muitos filhos inconfessáveis? Não seria melhor, mais digno e mais generoso, argumentam eles, que o homem, em vez de ter uma só mulher legítima e várias concubinas de ocasião, e que, em vez de ter filhos reconhecidos e filhos abandonados, aceitasse corajosamente as imposições do seu organismo e vivesse claramente, à luz da legalidade, com todas as suas consorciadas, sem subterfúgios desleais e dissimulações ridículas?

E os mórmons justificam-se com os exemplos da Bíblia: Lamech, filho de Methusael, teve duas mulheres — Ada e Zilia; Jacob quatro; Abrahão muitas mais; David todas as que herdou de Saul, e Salomão nunca menos de mil.

E entendem que só a poligamia pode realizar o grandioso fim do matrimônio — multiplicar e apurar a espécie; e que ela é a regra instintiva e natural em toda a extensa ordem dos mamíferos que povoam a terra, e que ela é ainda a garantia da felicidade conjugal e dos direitos fisiológicos e sociais da descendência.

Não há dúvida! Tudo isso pode ser muito justo e muito razoável, apenas acho que os senhores mórmons legislaram conforme os seus interesses de homem e conforme os interesses da sua descendência, mas sem pensar absolutamente nas delicadas conveniências morais e físicas da mulher. E como a minha única preocupação era o interesse de minha filha e não o do marido que ela viesse a ter, vi e apreciei o revolucionário dogma social pelo lado contrário ao ponto de vista dos autores, o que fez com que a minha impressão fosse diametralmente oposta à deles. De resto, quando fosse com efeito o casamento polígamo o melhor e mais aceitável de todos, iria eu carregar com Palmira para Salt Lake City, abandonando a minha pátria, os meus amigos e os meus interesses no Rio de Janeiro? E para quê? para a levar a um sultão? para a deixar cair no serralho de Utah, como se deixasse cair uma franga dentro de um galinheiro?

Não! De tudo que li sobre os mórmons, só uma coisa me aproveitou, foi o desejo de consultar a Bíblia a respeito do que era possível fazer pela felicidade de minha filha. E aí, sim, encontrei afinal a chave do problema que me atormentava.

Foi na Bíblia, foi nessa inesgotável fonte de consolações para os que sofrem, foi nesse eterno poema de amor, que me orientei sobre o único caminho que tinha a tomar.

Depois da lição dos capítulos XII e XV do Levítico, convenci-me de que o mal do nosso casamento não estava precisamente na monogamia, mas só no meio de exercê-la; convenci-me de que um marido, para não perder a ilusão do seu amor conjugal, precisa afastar-se da mulher em certas ocasiões. Eis tudo!

Como afinal é sempre intuitiva e simples a base dos maiores problemas da nossa vida! Mas prossigamos:

A eterna permanência de um homem ao lado da esposa obriga-os a prosaicas intimidades inimigas do amor, (amor sexual) e acaba fatalmente por azedar-lhe o gênio e trazer a ambos o fastio, o tédio, a completa relaxação do desejo, e afinal a explosão dos caracteres em perene atrito, e as brigas, a troca violenta de injúrias, e, muita vez, se os desgraçados por falta de educação não souberem conter os seus ímpetos nervosos, o pugilato e até o homicídio.

“L´amour finit par s’aigrir, comme le vin qui reste trop longtemps en bouteille”, reza a velha filosofia dos provérbios.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1718192021...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →