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#Romances#Literatura Brasileira

O Homem

Por Aluísio Azevedo (1887)

Mas qual! Ela, desde o momento que se enterrou ali, parecia até mais desanimada, mais triste e metida consigo. Agora dava para não ir à mesa e fechar-se no quarto, comendo pedacinhos de pão de instante a instante, roendo queijo seco, chupando frutas ácidas e mastigando goiabas verdes. E sempre a cismar.

O pai embalde protestava contra isto; embalde lhe dizia que ela estava-se preparando para uma séria irritação do estômago; embalde queria arrastá-la par a mesa nas horas da comida; embalde lembrava passeios pela manhã ou ao cair da tarde, a pé, a cavalo, de carro, como ela escolhesse. Era tudo inútil: Magdá continuava agarrada ao quarto — cismando.

— Então, ao menos, que acordasse mais cedo, fosse para baixo conversar com ele na chácara; tomar leite mungido na ocasião; ver o pombal que se estava fazendo; dar uma vista-d’olhos pelo galinheiro e pela horta.

Magdá prometia, resmungava: — Que sim, que sim, porque não? Do outro dia em diante estaria de pé logo ao amanhecer!

Mas, no dia seguinte, quando iam chamá-la ao quarto, à uma hora da tarde, respondia de mau humor:

— Deixem-me em paz! Oh!

— Nesse caso vamos de novo para Botafogo! Exclamou afinal o Conselheiro, perdendo a paciência. — Eu, se vim enfurnar-me aqui, foi na esperança de fazer-te mudar de regime e com isso alcançar-te algumas melhoras! Vejo, porém, que é muito pior a emenda que o soneto!

Ela teve um tremor de músculos, e ficou muito impressionada com o tom quase áspero que o pai pusera nestas palavras.

— Não sei que desejam de mim!... disse.

— Desejo que fiques boa. Aí tens tu, o que desejo!...

— Só parece que julgam que me faço doente para contrariar os outros! Se estivesse em minhas mãos, seria mais agradável a todos; não me ponho melhor e bem disposta, porque não posso!...

— Está bom, está bom, balbuciou o Conselheiro, acarinhando-a, arrependido por não ter sido tão amável desta vez como das outras. — Não vás agora afligir-te com o que eu disse... Aquilo não teve a intenção de magoar-te...

Ela prosseguiu em tom infeliz e ressentido: — Se vim para cá, foi porque me trouxeram... não reclamei nada... Não me queixei de coisa alguma... Sinto-me aqui perfeitamente... dou-me até muito bem, e só peço e suplico que não me contrariem; que me deixem em paz pelo amor de Deus; que não me apoquentem; que...

Vieram os soluços e Magdá principiou a excitar-se.

— Então, minha filha, que tolice é essa?

— É que eu não posso ouvir falar assim comigo!... bem sabem que estou nervosa! bem sabem que estou doente!

— Sim, sim, tens razão... Passou! Passou!

E o Conselheiro, deveras surpreso com aquelas esquisitices da filha, espantado por vê-la fazerse tão humilde, tão coitadinha, puxou-a brandamente para junto de si e afagou-a como se estivesse a consolar uma criança.

— Acabou! Acabou!

Magdá chorava com a cabeça pousada no colo dele.

— Então, então, não te mortifiques... Aqui ninguém faz senão o que for do teu gosto... Vamos, não chores desse modo...

Qual! o resultado foi passar pior esse dia e aumentarem as suas rabugices no dia imediato; — Que desejava morrer! — Acabar logo com aquela miserável existência! Que ali todos já estavam fartos de a suportar! Que todos se aborreciam com ela e procuravam meios e modos de contrariá-la, só para ver se a despachavam mais depressa! Que bem quisera recolher-se a um convento, mas não lhe deixaram! Pois antes tivessem consentido, porque agora até a própria criada parecia fazer-lhe um grande obséquio, quando era obrigada a ter um pouco mais de trabalho com ela.

No fim de contas apareceu-lhe de novo a tal febre de caráter especial; agora, porém, com delírios e movimentos luxuriosos, sobrevindo uma profunda letargia, contra a qual eram inúteis todos os recursos do médico.

Parecia morta. No fim de longas horas de esforços, o Dr. Lobão, já desesperado, teve, a contra gosto, de aceitar o conselho de um colega ainda moço e de idéias modernas — a compressão do ovário.

Efeito pronto: Magdá tornou a si depois da operação, livre já das impertinências e infantis rabugices, que tivera antes da febre. Voltara à sua habitual gravidade, às suas maneiras austeras de fidalga enferma; mas começou a sentir-se vagamente magoada nos melindres do seu pudor: queria parecer-lhe adivinhava que, durante a inconsciência da sua anestesia, o insolente do médico a devassara toda; sentia ainda nos lugares mais vergonhosos do corpo a impressão de mãos estranhas que os apalparam e comprimiram. E a idéia de que alguém a vira descomposta e que lhe tocara nas carnes, revoltou-a como imperdoável ultraje feita à sua honra e ao seu orgulho de mulher pura. Todavia não se achava com coragem de interrogar ninguém a esse respeito, e, foi tal o seu vexame, que a infeliz escondeu-se no quarto, a chorar de acanhamento e raiva.

(continua...)

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