Por Aluísio Azevedo (1890)
E, antes que alguém tivesse tempo de voltar a si da surpresa, d. Pedro abriu a pasta que se achava sobre a mesa revolveu os papéis, guardou-os consigo.
E, erguendo o bastão, gritou:
- Saiam!
XI
ÀS CLARAS
Quando o príncipe saiu de dissolver a Sociedade Tenebrosa do Apostolado, onde penetrara com a mesma audácia de Cromwell no parlamento inglês, o Satanás foi acompanhá-lo, já precavido de respostas contra as naturais recriminações que devia receber, desejoso de não se desligar nunca daquele cuja queda vivia preparando.
D. Pedro, sombrio e taciturno, caminhando para o Paço, apressadamente, não lhe dizia sequer uma palavra. E os dous seguiam, como nas noitadas de sempre, um ao lado do outro, muito amigos para os raros transeuntes que os viam e que deles respeitosamente se afastavam.
E, chegados que foram a régia habitação, penetraram, como sempre, por uma porta escusa, situada por baixo do passadiço que ligava o palácio ao velho convento do Carmo.
Nada, enfim, parecia indicar qualquer alteração na vida de ambos. A mesma ceia, que os esperava todas as noites, estava servida num aposento contíguo, térreo e um pouco úmido, espaçoso e cheio de armários.
Sentaram-se.
Depois da primeira libação, d. Pedro encheu novamente os copos, e, erguendo o seu, disse, maliciosamente, com um sorriso triste de homem que assistiu ao despedaçamento das próprias ilusões:
- A tua amizade! Satanás.
- A nossa!
- Sim. À nossa. Eu acredito na reciprocidade de sentimentos entre nós. Liga-nos um mesmodestino. E já a velha feiticeira do Valongo tinha profetizado que algum dos dous devia morrer pela mão do outro.
E acrescentou:
- Mas, dize-me cá uma cousa! Por que me odeias tu?
- Senhor!
- Não. Não negues. Nem é próprio de ti, nem eu acreditaria nas tuas afirmações e nos teusprotestos.
O Satanás fez um gesto vago e incerto de significação.
- O teu ódio! continuou o príncipe, eu o tenho sentido de certo tempo a esta parte, pertinaz einsistente sobre mim. Eu o reconheci até no teu andar e na tua voz, por essas longas noites que temos vivido juntos derradeiramente.
- Qual, senhor! Eu sou novamente vítima de intrigas. O príncipe bem sabe que foi sempreinvejada a confiança que me dispensava. E agora, como das outras vezes, seja-me permitido esperar que eu saia desta aventura reabilitado, como sempre me tem acontecido, na sua estima.
- Bem vontade tinha eu que assim fosse. Tu não sabes como é triste e amargo o bruscodespedaçar das amizades longamente cimentadas. Tu não sabes como faz sofrer o espetáculo da ingratidão humana.
- Mas nesse caso, basta-lhe querer, basta-lhe examinar os fatos, para reconhecer que a minhadedicação nem por um momento deixou de acompanhá-lo. Eu estava, é certo, lá no Apostolado, mas lá estava para bem servi-lo.
- Não, Satanás! Tu lá não estavas para me servir... Mas também não é essa a grande acusação que te faço, não é por isso que venho falar-te do teu ódio.
- Então! por quê?
- Por quê? Mas não basta, por acaso, esse teu olhar; olhar que espeta, quando o olhar do amigotem veludo e maciez para o repouso da nossa individualidade toda inteira?
- Senhor!
- Não, fez o príncipe. - Não protestes. Escuta-me.
E d. Pedro, nervoso, agitado, começou a passear pelo quarto o seu grande vulto esbelto de homem bem feito.
Depois, voltando a mesa, ele parou, um pé sobre a cadeira e o queixo repousando sobre a mão longa e fina de fidalgo. E pôs-se a olhar demoradamente para o Satanás.
Este nem se movia, impassível e quieto. Refluíra-lhe para o cérebro, numa pertinaz concentração de idéias, toda a força vital do seu querer. E estava meditando, estava procurando o desenlace desta cena que vinha perturbar-lhe a serenidade vingadora dos planos longamente projetados. Sentia por vezes ímpetos de atirar para longe a máscara da comédia, que a força das circunstâncias o obrigava a representar; desejos de ser ele mesmo nobre e altivo, como sempre fora.
Mas a imagem de Branca perpassava-lhe pela imaginação, destacando-se da treva absoluta do mistério como um pedido solene de vingança. E ele retesava os músculos na rigidez suprema da calma, porque a hipocrisia era a única arma que podia manejar contra aquele príncipe, desde o momento em que lhe não bastava a morte de um homem para fazer o sossego e a paz da sua vida, sempre condenada para a dor. D. Pedro, porém, continuou:
- Escuta-me, Satanás! Eu primeiro quero dizer-te todo o sofrimento que me vai na alma com esse fúnebre desenlace infalível da nossa velha amizade. Porque eu muito te amei. Foste tu quem me ensinou o manejo das armas, quem acordou em mim esse velho instinto belicoso e aventureiro que fez a glória dos meus avós remotos, mas que os Braganças de agora iam esquecendo no espólio da sagrada herança de família. A ti eu devo enfim ser o que sou - esse rei cavaleiro da raça de Francisco de França, que muitos Pavias podem derrear mas que sai sempre incólume, abroquelado na sua valentia para salvar a sua honra.
E o príncipe fez uma pausa longa e demorada.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O esqueleto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7409 . Acesso em: 18 mar. 2026.