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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

O Almada

Por Machado de Assis (1858)

(8) O sucesso a que aludo ocorreu justamente três meses antes do conflito da devassa. A matriz da cidade estava então na igreja de S. Sebastião; Almada tentou desfabricá-la e mudá-la para a ermida de S. José, mudando ao mesmo tempo o santo, padroeiro da cidade. Abalou-se por esse motivo o povo; a Câmara, ouvidas as autoridades, dirigiu ao prelado uma carta comunicando a resolução em que estavam ela e o povo de deixar tudo no mesmo estado, até vir de el-rei a resolução que se lhe ia mandar pedir. A resposta do prelado é um documento do seu gênio fogoso e impaciente. Depois de repreender duramente a Câmara, marca-lhe três dias para revogar a resolução tomada sob pena de a declarar incursa na excomunhão da Bula Da Ceia, e dá enfim as razões que tinha para o que intentava fazer. A concessão única, segundo se vê da carta, foi conservar na igreja do oratório a imagem do santo. Melhor se conhecerá do homem pelo estilo, se todavia é exato o aforismo de Buffon. A carta do prelado terminava assim: "Em todo o ano não há quem vá um domingo à matriz, e agora lhes chegou este zelo. Lêem-se as cartas de excomunhão às paredes, correm-se banhos, fazem-se as festas da Páscoa e Natal aos negros do vigário, e sobretudo está o Santíssimo na igreja e tem a chave dela um secular, tesoureiro da confraria, que entra nela de dia e de noite e nisto se não adverte. Tudo o que há na igreja matriz hei de mudar para baixo, e só o altar de S. Sebastião com o santo, sua fábrica e confraria, e um signo. hei de deixar na matriz; para ter cuidado da igreja hei de pôr um ermitão." A Câmara resistiu; o governador interpôs os seus bons ofícios, e moveu o prelado a suspender a excomunhão até resolução de el-rei. Na carta então dirigida pela Câmara a Afonso VI vejo citado um alvará régio ordenando que os prelados, bem como outros ministros, fossem morar no alto da cidade, o que eles não faziam, circunstância que me deu idéia dos dous versos: Para poupar às. reverendas plantas A subida da íngreme ladeira. Além da carta régia, temos a carta do bispo D. Francisco, no princípio do século seguinte (1703), dando conta à rainha da complicada história da mudança da Sé. 0 bispo diz: " ... E alongando-se ... a residência dos ministros da Sé, que privados das comodidades necessárias às suas subsistências, procuram a vivenda no centro da povoação, foi mais difícil o serviço da igreja, e conseqüentemente pouco exata a prática dos deveres de cada um dos empregados nos benefícios e cargos anexos da catedral".

(9) Não será preciso lembrar ao leitor católico que S. José era carpinteiro em Nazaré. A casa do prelado (segundo leio em Pizarro, torno III, p. 177, nota) ficava entre a ermida de São José e o edifício, que foi cadeia e hoje Câmara dos Deputados.

(10) 0 licenciado Francisco da Silveira Vilalobos era o vigário-geral, e exercera inteiramente a prelazia do Rio de Janeiro.

(11) Capacho não está ainda incluído nos dicionários no sentido que lhe dá o povo para exprimir um homem servil. A locução todavia é pitoresca e merece as honras de cidade. Penso que mais de um escritor a tem empregado neste sentido: nos diários é vulgar .

(12) O Padre Rafael Cardoso foi quem intimou o ouvidor-geral a entregar a devassa. Cardoso e Vilalobos são figuras que a história me ofereceu; os demais companheiros de Almada são personagens de imaginação; a uns e outros dei as feições e o caráter convenientes à ação e ao gênero do poema .

(13) Espraiar o baço é tradução de épanouir Ia rate, não minha, mas de Filinto Elísio, que assim se exprime numa nota. [falta o restante no manuscrito].

CANTO III

(14) Era este um dos mais inveterados abusos; apesar de todos os decretos, os rapazes de todos os tempos iam namorar as moças nas igrejas. Já em 1657, dous anos antes da ação do poema, D. Afonso VI ordenara que se proibisse que os homens falassem com mulheres nas igrejas, suas portas e adros. No ano seguinte foi estendida a proibição aos que somente as esperassem naqueles lugares para as verem, ainda que lhes não falassem. (Vide Pizarro, tomo V, P. 19). Com o tempo voltou o abuso, e no século seguinte o bispo D. Frei António do Desterro proibiu as conversações e ajuntamentos nas portas e adros dos templos, "principalmente em dias de festa e concorrência"; pastoral de 14 de março de 1767. (Vide Pizarro, VI, p. 17.)

(continua...)

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