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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

Não havia assinatura. O chefe perguntou quem era aquele Roberto e, depois de sair a viúva, ordenou que o intimassem para comparecer à sua presença.

Continuava pois o processo, mas a polícia principiava a desesperar do nenhum êxito dos seus trabalhos de investigação. Os depoimentos seguiam-se quase sem intermitência; nada porém de aparecer o autor do crime! Os corpos de delito destruíam-se uns aos outros. Fez-se o interrogatório do velho Jacó, da noiva, dos padrinhos, dos convidados para o casamento e nada!

Gregório não aparecia, nem tampouco aparecia algum indício que servisse de orientação.

Entretanto Clorinda foi pouco a pouco se habituando à idéia da ausência do seu noivo e voltando aos hábitos primitivos de menina. A viuvez sem luto não é viuvez. Regressavam-lhe em breve os sorrisos ao rosto, como voltam as flores na primavera.

Passaram o primeiro e o segundo mês, ao terceiro já as coisas pareciam novamente metidas nos seus eixos. A casa de D. Januária retomava o ar que possuía antes do malogrado casamento; veio de novo o comendador Portela, sempre muito preocupado com a sua pessoa, veio D. Josefina com o seu mau gênio, veio o Dr. Roberto, acompanhado pela sua inalterável esposa, e veio o João Rosa, aquele sujeitinho magro e ativo, que no primeiro capítulo parecia muito empenhado no bom êxito do consórcio.

Aos domingos, à noite, reuniam-se eles invariavelmente em casa de D. Januária, ou em casa do Dr. Roberto.

É em uma dessas noitadas de palestras, que os vamos encontrar agora todos juntos em casa da boa velha.

São oito horas. O comendador acabara de entrar, de fitinha ao peito, e corre um por um os circunstantes a cumprimentá-los com enormes frases.

— Oh! A nossa querida Sra. D. Januária, como tem passado, depois da última vez em que tive o prazer de vê-la? perguntava ele à mãe adotiva de Clorinda, apertando-lhe a mão, todo vergado para frente, a bambolear o corpo.

Assim, assim... respondeu aquela, dando um suspiro.

— Ah! os tempos não andam bons! não andam! Ainda ontem, conversando em uma soirée do ministro da fazenda, com a viscondessa da Boa Estrela, disse-me ela que ultimamente tem uma pequena febre todas as noites...

E voltando-se para os outros:

— É verdade! Sabem quem está também incomodado? o barão de

Mesquita! Terça-feira, quando jantávamos juntos... jantar simples, íntimo, semcerimônias! Ah! Ele é muito meu camarada! tanto como o visconde do Bom Retiro! Mas bem! jantávamos juntos e o barão de repente leva a mão ao estômago e empalidece. Coitado! Não lhes digo nada! Só ontem conseguiu deixar a cama!

— Sim? perguntou por condescendência o João Rosa, a quem mais diretamente parecia dirigir-se o comendador.

— Pois não! confirmou o gabarola. Mas o que quer o senhor?!... nós todos estamos sobre um grande pântano! Sim! o Rio de Janeiro é um grande pântano!

Não acha, doutor?

— Está visto! respondeu Roberto.

— Pois bem, quais são as medidas empregadas para sanar o mal? Nenhuma! Projetos não faltam, mas quanto à realização... Encarregasse-me eu de providenciar sobre isso, e viriam os resultados! Havia de arriscar bom dinheiro, havia! Mas juro-lhe que o trabalho apareceria! Oh! nós aqui não temos iniciativa de espécie alguma!... Uma vez, em Paris, quando visitei o Thiers, disse-me ele que o Brasil estava fadado a representar um papel importantíssimo nos séculos futuros; eu lhe respondi, batendo-lhe no ombro: 'Meu bom Sr. Thiers, não julgue o Brasil pelos relatórios oficiais e pelas descrições européias. O Brasil..."

Mas foi nisto interrompido por dois rapazes, que acabavam de entrar na sala.

— Ah! disse D. Januária, reconhecendo um deles; sempre veio? E acrescentou para os outros: E o Sr. Duque Estrada, filho de uma das famílias que me honram com a sua estima.

— E parente do senador?...

— Não, senhor, respondeu o rapaz; não temos parentesco algum.

E chegando-se mais perto da dona da casa, disse-lhe, indicando o companheiro:

— Tenho a honra de apresentar-lhe o meu distinto amigo Adelino Fontoura, um belo talento!

— Oh! disse o Fontoura, vergando-se reverentemente, dentro do seu croisé preto.

E, depois de uma troca geral de cumprimentos, os dois recém-chegados foram colocar-se no vão de uma janela.

— Muito se parece este rapaz com o filho de um lorde que conheci nos salões da princesa Rattazi, disse o comendador, mostrando o Duque Estrada.

Era este um moço magro, espigado, barba loura partida no queixo; vestia-se à moda, mas com simplicidade, e tinha na fisionomia o ar condescendente e atencioso dos homens educados no seio da família.

O outro era de menor estatura, feições mais varonis, mais reforçado de membros, um pouco áspero de rosto, cabeça grande, achatada no crânio e cabelos pretos muito curtos e lustrosos.

— Aquela é que é a tal menina do célebre casamento?... perguntou Fontoura discretamente ao companheiro, indicando Clorinda, que em um dos ângulos da sala conversava animadamente com o João Rosa.

— É, respondeu o outro.

(continua...)

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