Por Aluísio Azevedo (1884)
Não pôde continuar, porque o marido tomara-a nos braços e abafava-lhe com os beijos a voz.
Filomena debatia-se violentamente; afinal, soltou um grito desesperado, e caiu sem sentidos.
— Ora, mais esta!... resmungou o Borges, depondo a mulher sobre um divã. Filomena! Filomena! Então?! Que é isso?!
Ela não respondia.
— Ora senhores! — Ó Filoquinha! Anda! Volta a ti!
Filoquinha estrebuchava. Borges correu à procura de sais. Acudiram os criados. Cecília, aflita, andava de um para outro lado, sem saber que fizesse, a olhar espavorida para o amo, como quem olha para um bandido.
No entanto, o pobre esposo não saía de ao pé da mulher. Só no fim de meia hora, esta voltou a si, olhando estranhamente para os lados e a passar a mão repetidas vezes pela fronte.
— Ah! exclamou, dando com o marido. E escondeu o rosto, gritando entre soluços — que estava perdida, desonrada, chamando-se infeliz, pedindo a morte.
— Mas, meu amor, dizia-lhe o marido. Lembra-te de que sou teu esposo!
Lembra-te de que não estou cometendo um crime!
— Deixa-me! Deixa-me! respondia Filomena desorientada, em soluços. — Fuja! Retire-se! Já! Não quero que o vejam aqui! Vá! Vá-se embora! Siga esta mesma noite para longe! Saia do Rio de Janeiro! do Brasil! da América! Saia, se não quer que eu lhe de cabo da vida! Infame! Sedutor!
E chorava, desesperada, como se lhe tivesse sucedido uma grande desgraça O marido dizia-lhe palavras de ternura, animando-a; ela, porém, não se queria conformar com a situação, e soluçava cada vez mais fortemente.
O Borges, afinal, também se pôs a chorar. O dia veio encontrá-los numa orgia de lágrimas.
— Aí tem a minha bela vida de casado!... dizia ele entre dentes, na ocasião de abandonar a alcova de sua mulher. Esta, ainda em cima, o queria ver pelas costas!... Que vida a sua! Que vida, santo Deus!
Retirou-se para o seu quarto, desesperado, e atirou-se à cama, sem se despir, soluçando, escondendo o rosto entre os travesseiros.
Ia a pegar no sono, quando foi surpreendido por alguém, que chorava e gritava desesperadamente ao seu lado.
Era Cecília, que acabava de entrar no quarto, dizendo a berros que o Borges havia causado a sua desgraça; que a senhora pusera-a no olho da rua e que ela, pobre de si! desse momento em diante não tinha onde cair morta! Que o patrão fora a causa única de tudo aquilo! Que, infeliz que era! ia separar-se do Roberto, do homem destinado a ser seu marido e a quem dera por conta o seu coração e a sua ternura! E que agora...
Uma explosão de soluços sufocou-a.
— Sou muito desgraçada! berrava. — Sou muito desgraçada!
Ora, não me amoles tu também! gritou o Borges, erguendo-se da cama.
— Mas é que a senhora me despediu!
— Pois que a despedisse. Vão todos para o diabo! Eu também estou despedido e não me queixo! Arre!
— Mas a questão é que, se eu me for embora, o Roberto será muito capaz de...
— Pois o Roberto que se vá também! Está despedido! Sou eu que o ponho na rua!
Roberto, que escutava tudo isso atrás da porta, entrou por sua vez no quarto e correu ao patrão, implorando-lhe piedade. — Que seria uma revoltante injustiça pô-lo na rua! Ele! que cumpria tão bem com os seus deveres! Ele! que, por amor dos amos, era capaz de ir às profundas do inferno! — Oh! Uma coisa assim até bradava aos céus!
E cada um dos criados agarrou-se a um dos braços do Borges, e principiaram ambos a choramingar, implorando-lhe compaixão por tudo que ele mais amasse nesta vida.
— Olhem que vocês me estão fazendo um berreiro nos ouvidos! bradou o amo, querendo arrancar-se daquela posição.
— Arre! Pois tenho também de aturar este par de galhetas?! Vão para o diabo! Deixem-me! Deixem-me! Súcia de doidos!
E o Borges de um salto agarrou o chapéu, enterrou-o na cabeça, e ganhou em três pernadas a porta da rua.
— Safa! Safa! dizia ele a marche marche pela calçada. — Que inferno! Isto lá é vida!
E assim andou até às dez horas pela cidade; tonto, sem destino. furioso, a abalroar com todo o mundo, a dar encontrões nas quitandeiras, e meter os pés no que encontrava, a praguejar, a promover barulhos.
Num restaurante, onde entrou para almoçar, à primeira réplica do servente, atirou-lhe com o sifão e fez voar a mesa diante de si com um soco. Um sujeito, que a recebeu pelas pernas, desafrontou-se, arremetendo contra o Borges o prato que tinha mais à mão.
Levantou-se grande desordem, e a coisa teria acabado na polícia, se o marido de Filomena, depois de lançar uma nota de cem mil réis ao dono do hotel, não distribuísse vários ponta-pés para os lados e não ganhasse a rua, levando na sua frente todos os obstáculos que se lhe antepunham.
Chegou à casa ao meio-dia, esbaforido, aniquilado, sem querer a presença de ninguém, disposto a fechar-se no quarto e deixar que aquela maldita vida girasse em torno dele, como bem entendesse.
Mas o aspecto revolucionado de seu "lar doméstico" o surpreendeu logo à entrada. Tudo estava em reviravolta. Cecília e Roberto arrastavam malas, despejavam a roupa dos gavetões da cômoda, empacotavam objetos de uso, acumulavam trouxas.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.