Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
O que me cumpre acrescentar é que Augusto Frederico Correia era notável pela sua ignorância, e que deixou irrecusável prova disso na seguinte carta que escreveu, achando-se a bordo da fragata Príncipe Imperial.
“Reverendíssimo Sr. Mon. Sr. Digníssimo Vigário Geral. – Às 5½ da manhã logo que foi presenteado ao Sr. Com. desta fragata Princete recepi a ingusta repreensão de filho de má mulher de ladrão de cachorro e de malvado a vista de toda a guarnição e mandaram-me em mangas de camiza apresentam ao Sr. Com. da fragata Praguaçu. Logo que voltei deram que eu estava prezo a ordem do Sr. Chefe de polícia que era para todo o serviço e de noite para o porão quem será Sr. que ature asim que o seu crime já vossa rerevendíssima é eu ter-se esforçado e mostrar a Deus Nosso Senhor e ao mundo que não sou culpado de um crime tão disgraçado em fim Mon. Sr. não se passarão cinco minutos que não me mandassem dar umas poucas de chibatadas e outra vez ordem para pessoa nenhuma falar comigo que era um ladrão malvado por isso vou depositar aos pés de vossa S.ª Reverendíssima que é impossível Sr. que eu possa persistir neste por mais tempo desta maneira o Sr. Juiz ou Chefe da polícia disse ao Sr. inspetor do arsenal de marinha que eu não era preso mas aqui logo me trataram assim e continuam a pior e se vossa reverenndíssima não quiser ter compaixão do mais disgraçado de todos os homens fazer com que um reverendo me ouça de confissão por que estou resolvido a retirar-me do mundo para não pensar mais injustamente eu espero estimadíssimo mon Sr. que vos não me desamparareis nesta tão arriscada uma só fala vossa faz a minha felicidade não posso mais por que vou varrer, os chiqueiros dos porcos nem reparar alguns erros que fiz Adeus mon Sr. Adeus mon Sr. a mesma recomendação faço ao Sr. Padre que mora com V. Ex.ª que também se compadeça de mim e fico até o último suspiro sendo de V. S.ª e Reverendíssimas desgraçado muito Venerando Criado e Obrado. – Augusto Frederico Correia.”
Deixemos o pobre Correia com o arrependimento que decerto o acompanhará até à morte, se é que ainda não morreu. Foi um miserável diabo que pagou caro uma hora medonha de indigno e estupidíssimo sacrilégio. Mas do seu desacato proveio ao menos uma santa e louvável devoção.
O tremendo e medonho insulto feito à imagem de Jesus Cristo morto despertou imediatamente no Rio de Janeiro a fé de muitos católicos. O Coronel Manuel José de Castro, irmão da irmandade da Santa Cruz dos Militares, ofertou a quantia de 2:000$ para de seu produto haver uma missa às sexta-feiras, no altar de N. S. das Dores, estando exposta a imagem do Senhor Desagravado, e este exemplo de piedade religiosa tem excitado tão importantes ofertas, que, além da missa instituída por aquele irmão, e que é sempre muito concorrida, há uma festividade anual do Senhor Desagravado, que é solenizada com grande pompa, e a que assiste com a maior devoção um grande número de fiéis.
A origem da devoção do Senhor Desagravado foi, portanto, um sacrilégio. A origem da devoção de N. S. da Piedade, na mesma igreja da Santa Cruz dos Militares, foi um horroroso flagelo.
Isto prova ainda uma vez que, estremecendo ante o espetáculo de crimes abomináveis, ou no meio das mais dolorosas provações, a humanidade acha sempre um recurso poderoso, uma suave esperança, um conforto animador, voltando-se para Deus.
No ano de 1855, a terrível peste do cólera-morbo, que invadira pela primeira vez diversas províncias do Brasil, fazia cruéis estragos na capital do império, ceifando, principalmente na classe pobre, um grande número de vítimas.
Ao grito de angústia soltado em triste coro por milhares de famílias necessitadas, pronta e zelosamente despertaram a um tempo a caridade pública e a particular. Multiplicaram-se os hospitais, as enfermarias e postos médicos, avultaram os donativos e as subscrições, e por toda a parte abriram-se os cofres dos ricos em auxílio da pobreza.
Nessas circunstâncias difíceis, o Imperador o Sr. D. Pedro II praticou um grande ato de sabedoria e virtude, pois, rejeitando o parecer daqueles que o aconselhavam a retirar-se da capital, não só permaneceu nela com sua augusta esposa e as sereníssimas princesas, mas ainda saiu a visitar as enfermarias dos afetados do cólera, e gastou longas horas conversando, consolando e animando os infelizes doentes, sem receio algum do contágio que, com fundamentos ou não, a tantos aterrava.
Este procedimento do Imperador deu coragem aos mais medrosos, dedicação aos menos zelosos, e inflamava ainda mais o sublime espírito da caridade, que se achava já muito nobremente excitado.
Todas as classes rivalizaram em solicitude, e o sexo feminino disputou nesse ponto a primazia ao masculino.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.